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TSE rigoroso com Bolsonaro, leniente com Lula? A falsa simetria que embaralha o debate

Comparação entre reunião com embaixadores e samba-enredo ignora diferenças entre abuso de poder e manifestação cultural

Espaço Prisma|Héctor Farto, especial para o R7

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Acadêmicos de Niterói, que vai homenagear Lula, faz ensaio técnico na Marquês de Sapucaí
Acadêmicos de Niterói, que vai homenagear Lula, faz ensaio técnico na Marquês de Sapucaí Carlos Elias Junior/Fotoarena/Estadão Conteúdo - 30.01.2026

A tentação de criar simetrias entre adversários políticos é velha conhecida. É reconfortante acreditar que “todos fazem a mesma coisa”. O problema é quando essa equidistância atropela os fatos.

Analistas traçam um paralelo entre a condenação de Bolsonaro pelo TSE e a homenagem que a Acadêmicos de Niterói prestará a Lula no Carnaval 2026. Segundo ele, o TSE foi “muito rigoroso” com Bolsonaro pela reunião com embaixadores, mas não consegue “ignorar a ligação da escola de samba com Lula”. A conclusão implícita: dois pesos, duas medidas.


A comparação não resiste aos fatos

Bolsonaro foi declarado inelegível até 2030 por 5 votos a 2 no TSE, em junho de 2023. Motivo: abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação na reunião com embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada, em 18 de julho de 2022, três meses antes das eleições.

O então ex-presidente convocou quase cem embaixadores usando a estrutura oficial, apresentou slides atacando o sistema eletrônico de votação sem provas, e transmitiu ao vivo pela TV Brasil, emissora estatal. Alexandre de Moraes classificou como “encadeamento de mentiras”. Cármen Lúcia afirmou que os ataques “não tinham razão de ser, a não ser desqualificar a Justiça Eleitoral e atacar a democracia”.


Agora, a Acadêmicos de Niterói, campeã da Série Ouro em 2025, vai estrear no Grupo Especial em 15 de fevereiro com “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, contando a trajetória do presidente desde o Nordeste até a Presidência.

O Partido Novo acionou o TSE alegando propaganda eleitoral antecipada. A escola recebeu R$ 1 milhão da Embratur (valor padrão para todas as escolas do Grupo Especial) e R$ 4 milhões da Prefeitura de Niterói. Seu presidente de honra, Anderson Pipico, é vereador do PT.


A diferença entre os casos é estrutural

No primeiro: um presidente, no exercício do cargo, usou a máquina oficial para atacar o processo eleitoral em curso, transmitindo por emissora pública.

No segundo: uma agremiação cultural privada, com financiamento público padrão, escolheu homenagear uma personalidade política — como outras oito escolas farão em 2026 com Rita Lee, Carolina Maria de Jesus e Ney Matogrosso.


Historicamente, escolas sempre homenagearam governantes. Em 1956, a Mangueira levou “O Grande Presidente”, sobre Vargas. Em 1975, a Beija-Flor apresentou “O Grande Decênio”, celebrando a ditadura militar.

O TSE analisará se há irregularidade. Pode até concluir que há. Mas equiparar esse caso ao abuso de poder reconhecido na reunião com embaixadores é criar equivalência falsa que embaralha o debate.

Quando jornalistas sugerem essa simetria, não estão fazendo jornalismo crítico. Está fazendo a política da equivalência moral, que iguala uso da máquina pública para atacar a democracia com manifestação cultural de uma escola de samba.

Bolsonaro foi tratado com rigor? Sim. Porque usou cargo, estrutura oficial e TV pública para disseminar desinformação sobre o processo eleitoral em plena campanha. Não foi tweet ou live. Foi operação institucional.

Lula está sendo protegido? Não há evidências. O caso está no TSE, que decidirá. Se houver irregularidade, será punida.

Não podemos confundir rigor com arbitrariedade, nem tolerância com cumplicidade. Equiparar os dois casos é distorção que não cabe em análise séria do processo político brasileiro.

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