TSE rigoroso com Bolsonaro, leniente com Lula? A falsa simetria que embaralha o debate
Comparação entre reunião com embaixadores e samba-enredo ignora diferenças entre abuso de poder e manifestação cultural
Espaço Prisma|Héctor Farto, especial para o R7

A tentação de criar simetrias entre adversários políticos é velha conhecida. É reconfortante acreditar que “todos fazem a mesma coisa”. O problema é quando essa equidistância atropela os fatos.
Analistas traçam um paralelo entre a condenação de Bolsonaro pelo TSE e a homenagem que a Acadêmicos de Niterói prestará a Lula no Carnaval 2026. Segundo ele, o TSE foi “muito rigoroso” com Bolsonaro pela reunião com embaixadores, mas não consegue “ignorar a ligação da escola de samba com Lula”. A conclusão implícita: dois pesos, duas medidas.
A comparação não resiste aos fatos
Bolsonaro foi declarado inelegível até 2030 por 5 votos a 2 no TSE, em junho de 2023. Motivo: abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação na reunião com embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada, em 18 de julho de 2022, três meses antes das eleições.
O então ex-presidente convocou quase cem embaixadores usando a estrutura oficial, apresentou slides atacando o sistema eletrônico de votação sem provas, e transmitiu ao vivo pela TV Brasil, emissora estatal. Alexandre de Moraes classificou como “encadeamento de mentiras”. Cármen Lúcia afirmou que os ataques “não tinham razão de ser, a não ser desqualificar a Justiça Eleitoral e atacar a democracia”.
Agora, a Acadêmicos de Niterói, campeã da Série Ouro em 2025, vai estrear no Grupo Especial em 15 de fevereiro com “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, contando a trajetória do presidente desde o Nordeste até a Presidência.
O Partido Novo acionou o TSE alegando propaganda eleitoral antecipada. A escola recebeu R$ 1 milhão da Embratur (valor padrão para todas as escolas do Grupo Especial) e R$ 4 milhões da Prefeitura de Niterói. Seu presidente de honra, Anderson Pipico, é vereador do PT.
A diferença entre os casos é estrutural
No primeiro: um presidente, no exercício do cargo, usou a máquina oficial para atacar o processo eleitoral em curso, transmitindo por emissora pública.
No segundo: uma agremiação cultural privada, com financiamento público padrão, escolheu homenagear uma personalidade política — como outras oito escolas farão em 2026 com Rita Lee, Carolina Maria de Jesus e Ney Matogrosso.
Historicamente, escolas sempre homenagearam governantes. Em 1956, a Mangueira levou “O Grande Presidente”, sobre Vargas. Em 1975, a Beija-Flor apresentou “O Grande Decênio”, celebrando a ditadura militar.
O TSE analisará se há irregularidade. Pode até concluir que há. Mas equiparar esse caso ao abuso de poder reconhecido na reunião com embaixadores é criar equivalência falsa que embaralha o debate.
Quando jornalistas sugerem essa simetria, não estão fazendo jornalismo crítico. Está fazendo a política da equivalência moral, que iguala uso da máquina pública para atacar a democracia com manifestação cultural de uma escola de samba.
Bolsonaro foi tratado com rigor? Sim. Porque usou cargo, estrutura oficial e TV pública para disseminar desinformação sobre o processo eleitoral em plena campanha. Não foi tweet ou live. Foi operação institucional.
Lula está sendo protegido? Não há evidências. O caso está no TSE, que decidirá. Se houver irregularidade, será punida.
Não podemos confundir rigor com arbitrariedade, nem tolerância com cumplicidade. Equiparar os dois casos é distorção que não cabe em análise séria do processo político brasileiro.
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