Heródoto Barbeiro Crimes em excesso fazem com que justiceiros assumam a tarefa de proteger a população 

Crimes em excesso fazem com que justiceiros assumam a tarefa de proteger a população 

Com a ausência da polícia, cidadãos começam a agir 

Cidadão faz justiça pelas próprias mãos

Cidadão faz justiça pelas próprias mãos

Freepik/@senivpetro — 22.12.2023

O bairro está em polvorosa. Os assaltos são cometidos tanto contra os comerciantes como contra aqueles que ousam sair de casa à noite. Mesmo durante o dia, é arriscado sair para fazer uma compra no supermercado ou alcançar um transporte público para trabalhar!

Os pedidos de policiamento caem no vazio e vez ou outra aparece uma autoridade para dizer que não tem efetivo, viaturas e armas que possam competir com as dos bandidos.

Prefeitos, governadores, deputados e vereadores se elegem e reelegem com a promessa de melhorar a segurança das pessoas. As campanhas eleitorais reprisam velhos temas conhecidos, como o bordão “bandido bom é bandido morto”. Há uma penca de programas de televisão e rádio que exploram acontecimentos dolorosos como assaltos, estupros e todo tipo de violência.

Ela não é privilégio das periferias mais longínquas, mas até mesmo bairros ditos “nobres” são alvos de assaltos e arrombamentos. Os serralheiros ganham dinheiro com as grandes encomendas de grades. Até os jardins públicos estão sendo gradeados.

Os que ousam fazer críticas na mídia sobre a falta de segurança nessa região da cidade são ameaçados de morte. Às vezes pelos bandidos, às vezes pelos policiais acusados de corrupção e lenientes com jogos ilegais, como os chalés de jogo do bicho.

Não faltam manchetes de primeira página com mortes e roubos. Os programas sensacionalistas de crimes no rádio e na televisão têm grande audiência, o que colabora para aumentar a sensação de insegurança dos moradores.

No meio do abandono por parte dos responsáveis pela segurança pública, surge a ideia de fazer justiça com as próprias mãos. Comprar armas, atocaiar supostos bandidos, e matá-los. Alguns grupos de justiceiros ganham notoriedade na mídia e estão associados a entidades de bairro.

Há quem afirme que os confrontos constantes se assemelham à Batalha de Argel, na guerra da Argélia. Vale tudo: sequestro, assassinato, estupro, corrupção. Isso tudo a menos de uma viagem de ônibus até o centro da cidade mais importante do Brasil. Para onde pode evoluir esse cenário de esgarçamento social?

Aos poucos, o justiceiro passa a ser conhecido da cidade. Sua fama se espraia na medida em que a imprensa começa a publicar suas ações no bairro. Há um aparente apoiamento, especialmente dos comerciantes que têm suas lojas depredadas e mercadorias roubadas. Uma contribuição em dinheiro é uma forma de preservar um sistema de segurança não oficial.

O baiano Francisco Vital da Silva mora na perigosa zona leste de São Paulo. Diz o dito popular que ele começou a carreira de justiceiro depois que teve mulher e filha estupradas pela sua reação aos bandidos em meados de 1980. A lista de execução começa por aí e ele é apelidado de Chico Pé de Pato. A fama fica maior à medida que recebe da própria polícia nomes de bandidos procurados pela justiça.

Pé de Pato executa, mata. Parte da população o vê como um herói, um justiceiro que substitui a ausência do Estado para proteger onde prevalece a lei da bala. Atribui-se a ele 50 assassinatos. O destino de Pé de Pato muda depois de matar um policial em briga de bar. Preso, é condenado a 6 anos e internado em penitenciária. Dura pouco – é assassinado por outros prisioneiros.

Há uma tristeza na periferia de São Paulo, e comemoração em setores da polícia com a queima de um perigoso arquivo que poderia envolver autoridades.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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