Logo R7.com
RecordPlus
Luiz Fara Monteiro

O que três decisões recentes da aviação revelam sobre o fim do “cada um por si” a bordo. Artigo de Luiz Moura*

Aviação começou a tratar a convivência a bordo como uma questão de regra e não apenas de bom senso

Luiz Fara Monteiro|Luiz Fara MonteiroOpens in new window

  • Google News
Novas regras de convivência na aviação, puxada por casos recentes no Brasil e no exterior Samuel Morse via Wikimedia Commons

Há algo mudando no ar. E quando digo “ar” é literalmente, nas regras de convivência que atravessam toda a experiência de viajar de avião, do terminal à cabine. Em março de 2026, três notícias publicadas em sequência, em países diferentes e sobre contextos distintos envolvendo o comportamento de passageiros, me fizeram parar e pensar sobre como a aviação começou a tratar a convivência a bordo como uma questão de regra e não apenas de bom senso. E não é uma reflexão apenas como empresário do setor de viagens corporativas, mas como alguém que passa uma parte considerável da vida dentro de aviões e que acredita, genuinamente, que viajar é um dos maiores privilégios da vida moderna.

Uma das notícias é sobre a United Airlines, que atualizou seu contrato de transporte para exigir o uso de fones de ouvido a bordo, sob pena de remoção do voo e banimento permanente da companhia. Outra novidade é da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), que aprovou novas regras para passageiros indisciplinados no Brasil, com multas de até R$ 17,5 mil e inclusão em uma “No Fly List”. E, por fim, uma terceira notícia sobre o aeroporto de Tampa, na Flórida, que publicou nas redes sociais que estava pensando em proibir pijamas no terminal.


Mas, antes de falar sobre regras, é preciso falar sobre o que as tornou necessárias. Segundo a Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear), os casos envolvendo passageiros indisciplinados cresceram 66% no Brasil em 2025 em relação ao ano anterior. Foram 1.764 ocorrências registradas em um único ano. Um passageiro retirado de um voo em Brasília no início de 2026 se recusou a colocar o celular no modo avião e impediu a decolagem por quase duas horas.

Na França, passageiros que perturbam a tranquilidade a bordo podem ser multados em até 20 mil euros e proibidos de voar por quatro anos. Nos Estados Unidos, a Federal Aviation Administration (FAA) pode aplicar multas superiores a US$ 43 mil por infração. A Índia tem um dos sistemas mais detalhados do mundo para classificar e punir passageiros problemáticos. Percebe-se, que o problema não é novo. O que é novo é a disposição de enfrentá-lo.


Por muito tempo, o setor de aviação tratou o comportamento inadequado de passageiros como uma questão de bom senso individual. Campanhas de conscientização, pedidos gentis da tripulação, constrangimento social. A premissa era que a maioria das pessoas sabe se comportar num espaço coletivo e que os poucos que não sabem aprenderiam pelo exemplo. Mas, não aprenderam. E isso não é uma crítica moral, mas uma observação prática: o bom senso é suficiente quando o ambiente reforça o comportamento esperado. Quando não há consequência clara para o descumprimento das regras, a norma deixa de existir na prática, ainda que esteja no papel.

É exatamente o que aconteceu durante anos na aviação civil: as regras existiam, mas consequências, nem sempre. A decisão da United de transformar uma expectativa social em cláusula contratual com consequência explícita não é autoritarismo, é clareza. E clareza é o que protege todo mundo: o passageiro que quer assistir ao seu filme em paz, a tripulação que trabalha em condições cada vez mais exigentes e o próprio sistema, que funciona melhor quando as regras (de segurança e convívio) são conhecidas e respeitadas por todos.


Há uma dimensão desse debate que raramente aparece com o peso que merece: o impacto sobre os trabalhadores da aviação. Comissários de bordo, agentes de embarque, equipes de solo. Profissionais que lidam diariamente com centenas de passageiros, em condições de pressão constante, e que são frequentemente o alvo direto de comportamentos abusivos. Uma visita rápida à sua rede social preferida é suficiente para se deparar com vídeos de adultos se comportando como crianças, profanando xingamentos a funcionários em saguões de aeroportos ao redor do mundo.

Por aqui, vale relembrar que o crescimento de 66% nos casos de indisciplina no Brasil não é só uma estatística de segurança operacional. É um indicador de saúde mental e segurança no trabalho de uma categoria inteira. E regulamentar esse ambiente é também proteger quem trabalha nele. A aprovação das novas regras pela ANAC é um passo necessário e bem-vindo. A norma estabelece um procedimento padronizado que começa pela advertência verbal e pode chegar ao acionamento policial, à retirada da aeronave e à inclusão em lista restritiva de impedimento de voo. As multas podem chegar a R$ 17,5 mil.


O Brasil chega a esse debate depois de França, Estados Unidos, Índia e tantos outros países que já possuem sistemas consolidados de punição. Chegamos tarde, mas pelo menos chegamos. E há algo que merece ser dito com clareza: regulamentação não é o oposto de liberdade. É a condição para que a liberdade de todos seja preservada dentro de um espaço compartilhado. Quem embarca num avião abre mão de parte de sua autonomia individual em nome da convivência coletiva. Essa é uma escolha implícita em cada passagem comprada.

E que o caso de Tampa e a suposta proibição de pijamas tem a ver com isso? No último mês, o perfil oficial do aeroporto publicou que estava pensando em proibir pijamas no terminal. A postagem foi vista 5,7 milhões de vezes em poucas horas, gerou um debate acalorado sobre etiqueta de viagem e arrancou um GIF de aprovação do próprio Secretário de Transportes dos Estados Unidos. Horas depois, o aeroporto esclareceu que era uma brincadeira. Mas o barulho que a piada causou diz algo real.

O tema tocou um nervo. Não porque pijamas em aeroportos sejam um problema grave de segurança ou convivência. Mas porque a questão por trás da piada é séria: o que esperamos uns dos outros quando compartilhamos um espaço público? Quanto da nossa comodidade individual é compatível com o respeito coletivo? Tampa não precisou proibir nada. Bastou perguntar.

Viajar é, para mim, muito mais do que deslocamento: é curiosidade em movimento. É a certeza de que o mundo é maior do que qualquer perspectiva individual e que encontrar outras culturas, outros ritmos, outras formas de viver nos torna pessoas melhores. Mas esse privilégio tem um preço que vai além da passagem. O preço do respeito compartilhado, da consciência de que um avião é um dos poucos lugares no mundo onde pessoas completamente diferentes, de origens completamente diferentes, são obrigadas a dividir um espaço minúsculo por horas seguidas. Nesse espaço, a regra não é uma imposição, mas um acordo. E acordos só funcionam quando todos os lados os honram.

O fim da impunidade nas alturas não é uma perda de liberdade, mas o reconhecimento de que viajar é um ato coletivo. E que atos coletivos exigem responsabilidade individual. Talvez Tampa estivesse certa, mesmo sem querer. Não precisamos de um dress code nos aeroportos, mas talvez precisemos, sim, lembrar que locais compartilhados exigem atenção e respeito compartilhados. E isso vale a 35 mil pés de altitude, ou no embarque do portão 7.

* Luiz Moura é empresário do setor de viagens corporativas, co-fundador da VOLL, membro do conselho da Associação Latino Americana de Eventos e Viagens Corporativas (Alagev) e conselheiro de Turismo da FecomércioSP. Escreve sobre viagens, gestão e comportamento humano.

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.