Logo R7.com
RecordPlus
Luiz Fara Monteiro

Suspensão de voos de aérea à Serra da Capivara afeta economia, turismo e pesquisas

Azul, que operava a rota, alegou ajustes, custos e alta do dólar para justificar paralisação

Luiz Fara Monteiro|Deborah Hana Cardoso, da TV Record*

  • Google News

RESUMO DA NOTÍCIA

  • A suspensão dos voos pela Azul no Aeroporto de São Raimundo Nonato no Piauí afeta turismo e pesquisa na Serra da Capivara.
  • O aeroporto, que recebeu quase 500 voos em 2023 e 2024, é crucial para a economia de quatro municípios da região.
  • A decisão foi justificada pela companhia aérea devido a custos operacionais e alta do dólar, impactando diretamente negócios locais.
  • Autoridades e o Ministério do Turismo tentam encontrar soluções para a retomada das operações e acesso à região.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Aeroporto Internacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato (PI) Prefeitura de São Raimundo Nonato

Desde o dia 10 de maio deste ano, o Aeroporto de São Raimundo Nonato, no Piauí, teve suas operações suspensas pela Azul Linhas Aéreas. A suspensão afeta o turismo e as pesquisas no Parque Nacional da Serra da Capivara - local conhecido por achados arqueológicos únicos na América do Sul, como artefatos, esqueletos humanos e até um instrumento de pedra datado de 24 mil anos.

Além da importância histórica, o aeroporto localizado no município, que fica a 517 km de Teresina, conta com um formato peculiar, uma capivara, que pode ser vista por quem chega ou ao menos chegava de avião.


Segundo os dados do Ministério de Portos e Aeroportos (MPOR), o aeroporto recebeu em 2023 e 2024 quase 500 voos. Em 2025, até a suspensão de março, foram 58 voos.

O parque movimenta a economia de pelo menos quatro municípios, gerando emprego e renda: São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias - somados, possuem pouco mais de 50 mil pessoas, conforme do censo de 2022.


Parque Nacional da Serra da Capivara, Patrimônio Mundial da Unesco Prefeitura de São Raimundo Nonato

Apesar da importância do local para as pesquisas em território brasileiro e para os caixas das prefeituras, a Azul ainda teve que paralisar as atividades na região. De acordo com a aérea, houve um “ajuste de oferta e demanda”. A empresa citou fatores como o aumento dos custos operacionais, impacto na crise global e alta do dólar - que ultrapassou os cinco reais. Vale destacar que a empresa atuava na Serra da Capivara desde 2022.

Segundo os dados do Ministério de Portos e Aeroportos (MPOR), o aeroporto recebeu em 2023 e 2024 quase 500 voos. Em 2025, até a suspensão de março, foram 58 voos.


Turismo patrimonial

Construído entre 2004 e 2014 a um custo de 40 milhões de reais, o projeto tinha como objetivo atrair o turismo e de certa forma, facilitar a vida dos estudiosos brasileiros e estrangeiros, o chamado “turismo patrimonial”.

Para o arqueólogo e guia turístico Igor Pedroza, 46 anos, a suspensão não interfere diretamente nas pesquisas em andamento, mas atrapalha. “Os pesquisadores estão acostumados com essas distâncias, são comuns. Então, isso faz parte da nossa atividade. Entretanto, pesquisadores que têm interesse de conhecer esse local acabam não indo por falta dessa logística”, explicou.


Para ele, o Brasil deveria adotar o turismo patrimonial, como ocorre na Europa, um alicerce para valorizar o próprio passado.

“Eu tenho certeza que se existisse algo com um décimo do que a Serra da Capivara oferece, em qualquer outra parte do planeta, teria muito mais assistência, estaria muito mais conectado para que outras pessoas pudessem conhecer”, disse.

“É muito triste porque existe um turismo patrimonial forte como ocorre no resto do mundo, com acesso facilitado. As pessoas saem do Brasil para visitar o Camboja, a Austrália, o Egito, mas não conhecem a Serra da Capivara”, lamentou.

Empresários locais afetados

A suspensão também prejudicou empresários locais como Daniel Oliveira, 29 anos, proprietário do hostel O Viveiro, localizado em Coronel José Dias. De acordo com ele, a falta de voos cria desistências de potenciais turistas. “O falta de voos gerou demissões aqui no meu negócio. Nosso faturamento caiu pela metade”, explicou.

“O hostel tem preços acessíveis e é muito utilizado por pesquisadores que ficam muito tempo por aqui por causa de seus trabalhos. Pesquisa demanda tempo e essas pessoas acabam movimentando a economia da nossa cidade. Desde a suspensão, essas pessoas sumiram”, disse.

Ao blog, o prefeito de Coronel José Dias, Vitor Carvalho, com pouco mais de 4,5 mil habitantes, explicou os problemas dessa suspensão. “Fomos pegos de surpresa com o anúncio. 70% da área visitada fica em nossa cidade”, disse.

“Não entendemos o cancelamento por demanda porque há demanda. Há tanta demanda que a cidade já tem placas em língua portuguesa, inglês e francês”, explicou o prefeito.

“O senador Marcelo Castro, o deputado Júlio Cesar e a bancada do Piauí junto do ministério do Turismo se reuniram com a Azul para entender o assunto, mas ainda não tivemos uma solução”, completou.

Segundo Vitor Carvalho, ainda há esperança para que o aeroporto não se torne uma “capivara branca” em meio às descobertas arqueológicas. “Há agora uma negociação com Latam para poder pegar essa rota”, afirmou.

Enquanto a preocupação dos pesquisadores é o acesso à toda a riqueza pré-histórica da região, o prefeito tem preocupações mais atuais. “Há muita reclamação sobre emprego e renda vinda das cidades vizinhas. A nossa cidade também foi atingida”, disse.

O que diz o Governo?

Em nota, o Ministério do Turismo afirmou que tem o Governo Federal tem como objetivo facilitar o acesso à região.

“Com o objetivo de ampliar o acesso turístico à região da Serra da Capivara (PI), o Ministério do Turismo destinou, ainda em 2002, 12,2 milhões de reais para obras de infraestrutura, por meio de convênio firmado entre a União e o governo do estado. Importante destacar que o MTUR foi responsável apenas por parte das intervenções previstas no projeto. O Ministério segue em articulação com o Consórcio Nordeste para ampliar a malha aérea da região, fortalecendo a conectividade e impulsionando o desenvolvimento local”, explicou.

Já o MPOR deixou claro que a gestão do aeroporto está sob tutela do Governo do Estado do Piauí e que o local recebe voos particulares. “O Aeroporto de São Raimundo Nonato, atualmente sob gestão do Governo do Estado do Piauí, opera com aviação geral (voos diurnos e noturnos, em sua maioria particulares) e está apto a receber aeronaves do código 3C, como o Airbus A318-100 com capacidade para 177 passageiros”, diz a nota.

“Quanto à criação ou ampliação de rotas, é importante mencionar que as companhias aéreas têm liberdade para traçar as estratégias operacionais e comerciais de acordo com a realidade do mercado em que atuam. Para fortalecer o setor, estimulando a criação de novas rotas ou a manutenção das já existentes, o Governo Federal vem trabalhando para garantir o acesso a linhas de crédito com recursos do Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC) pelas empresas aéreas. São R$ 4 bilhões, valor já aprovado no Congresso Nacional, que permitirá às empresas a realização de investimentos para melhoria e ampliação dos serviços”, finalizou a nota.

Até da data dessa publicação, o blog, sem sucesso, tentou contato com o Governo do Estado do Piauí.

Houve ainda a tentativa com a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), entidade criada para garantir a preservação do patrimônio cultural e natural do Parque Nacional Serra da Capivara, que não respondeu nossos questionamentos.

O espaço segue aberto para futuras manifestações.

*Especial para o blog Aviação

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.