Logo R7.com
RecordPlus

‘A pecuária brasileira é solução, não vilã do meio ambiente’, diz empresário

Sylvio Lazzarini, CEO do Grupo Varanda, defende que o setor agropecuário deve ser visto como aliado na redução das emissões e destaca o protagonismo do Brasil na COP30

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

  • Google News

LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Sylvio Lazzarini, CEO do Grupo Varanda, defende que a agropecuária é parte da solução climática e não uma vilã.
  • O Brasil apresenta condições únicas para liderar a produção sustentável e neutralidade de carbono, sendo o maior exportador de carne bovina.
  • Técnicas como o sistema ILPF e o uso de leguminosas nas pastagens visam reduzir emissões e aumentar produtividade.
  • Lazzarini pede maior investimento em tecnologias e inovações para consolidar o Brasil como referência em sustentabilidade agropecuária.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Sylvio Lazzarini, CEO do Grupo Varanda Foto cedida: Axel Murilo

À frente do Grupo Varanda e com longa trajetória na pecuária de corte, Sylvio Lazzarini acredita que o Brasil tem papel decisivo nas discussões globais sobre sustentabilidade.

Em entrevista ao Mundo Agro, o empresário defende que a agropecuária nacional deve ser reconhecida como parte da solução climática. Para ele, o país reúne condições únicas — solo fértil, tecnologia e matriz energética limpa — para se consolidar como referência mundial em produção sustentável e neutralidade de carbono.


Mundo Agro: Como o senhor enxerga o papel da agropecuária brasileira no contexto da COP30 e nas discussões globais sobre neutralidade de carbono?

Sylvio Lazzarini: O papel da agropecuária brasileira é fundamental para neutralizar o impacto da emissão de carbono, uma vez que somos, hoje, o maior exportador e produtor de carne bovina do mundo. É importante destacar durante a COP30 que a agropecuária brasileira tem que ser enxergada como uma solução para a diminuição da emissão de carbono, e não como uma vilã do cenário ambiental.


Mundo Agro: O Brasil pode realmente ser considerado uma potência verde dentro da pecuária mundial?

Sylvio Lazzarini: O Brasil se apresenta como vitrine global quanto às práticas sustentáveis no campo e às melhorias assistidas para elevar cada vez mais a produtividade de todo o setor agropecuário. Pesquisas e tecnologias cerceiam projetos e iniciativas que estão posicionando a agropecuária do Brasil como protagonista do clima. Verdadeiras revoluções foram implementadas como, por exemplo, o plantio direto na agricultura e, na pecuária, com práticas regenerativas com o uso de árvores nas pastagens, que ampliam o sequestro de carbono no solo. Melhorando a dieta, investindo em genética, integrando leguminosas às pastagens, o tempo de engorda será reduzido, diminuindo a período da emissão de gás metano.


Mundo Agro: Quais são os principais desafios para consolidar o Brasil como referência em sustentabilidade na produção de carne?

Sylvio Lazzarini: Menos de 20% do rebanho brasileiro vive hoje em confinamento, o que já garante um menor número de emissão de carbono; mas, não é só. Ao contrário do que se pensa, o Brasil, além de solo e clima tropical favoráveis, se orgulha de criar e utilizar modernos sistemas de produção sustentáveis, engordando o seu rebanho sem a necessidade de avançar por novas áreas de pastagens, muito menos sobre a Amazônia. O desafio está em investir ainda mais na melhoria genética, diminuindo o tempo de engorda a pasto e investindo em suplementação mineral e orgânica, combinando aditivos que reduzem a fermentação no rúmen para equilibrar qualidade e meio ambiente.


Mundo Agro: Quais tecnologias e práticas sustentáveis têm sido adotadas pelo setor para reduzir as emissões de metano e aumentar a eficiência produtiva?

Sylvio Lazzarini: Tecnologia aplicada à genética tem resultado em melhor qualidade da carne, com quase 100% de aproveitamento do animal, bem como influenciado fortemente o fator precocidade para o abate, implicando em menos tempo de emissão de carbono para se alcançar a produção almejada pela demanda. Além disso, integrar leguminosas às pastagens, como feijão guandu, que melhora o valor nutricional do capim, reduz a formação de metano, fixa nitrogênio no solo, resultando em redução no tempo de engorda.

Mundo Agro: O que significa, na prática, ter uma pecuária “carbono neutro”?

Sylvio Lazzarini: Embora o efeito estufa liberado pelo setor seja um dos maiores do país, instituições de ensino e pesquisa e iniciativa privada vêm trabalhado fortemente para compensar a emissão de carbono oferecendo equilíbrio ambiental e têm conseguido. Há 20 anos produtores vêm adotando o sistema desenvolvido pela EMBRAPA chamado de ILPF, ou seja, a integração lavoura, pecuária e floresta, com excepcionais resultados.

Mundo Agro: O confinamento de gado é muitas vezes visto como polêmico. De que forma ele pode contribuir para reduzir impactos ambientais?

Sylvio Lazzarini: O confinamento aumenta muito a produção de carnes por hectare. Para confinar gado é preciso produzir silagens, melhorar a qualidade do capim e aplicar a rotação de pastagens, além da suplementação de minerais. Tudo isto, como dito, melhora fortemente a produtividade. Em outras palavras, produção seis vezes maior de carnes por hectare, com forte redução da emissão de carbono.

Mundo Agro: Como os sistemas integrados — como ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) — ajudam a equilibrar produção e meio ambiente?

Sylvio Lazzarini: Se pegarmos como exemplo estudos da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, como o sistema de produção sustentável ILPF, que integra a lavoura, com a pecuária e a floresta em uma mesma área e o CCN – Carne Carbono Neutro, que resulta em reflorestamento integrado às pastagens para neutralizar o metano entérico exalado pelos animais, demonstramos, na prática, como estamos combinando eficientemente o uso e a conservação da terra para alavancar a biodiversidade e os índices de produtividade. É o que, verdadeiramente, podemos chamar de pecuária ecologicamente sustentável e desenvolvida no Brasil.

Mundo Agro: O senhor citou que o Brasil ainda tem uma taxa de desfrute de 19%, contra 28% na Austrália e 32% nos EUA. O que impede nossa produtividade de crescer nesse mesmo ritmo?

Sylvio Lazzarini: A taxa de desfrute (quantidade de cabeças abatidas em relação ao rebanho total), há 30 anos era tão somente de 11%. Hoje gira em algo ao redor de 19% e, como explicado, com práticas sustentáveis chegaremos a 22%, o que provocará um aumento substancial da oferta de carnes com alto nível de qualidade. É isto que precisa ser dito e defendido. A produtividade média do nosso rebanho vem evoluindo muito. Todos os indicadores demonstram isto; e é por esta razão que a carne brasileira é a mais barata do mundo.

Mundo Agro: De que forma o aumento de produtividade pode caminhar junto com a redução das emissões?

Sylvio Lazzarini: A melhoria acentuada da produtividade reduzirá consideravelmente a idade de abate, o que resultará em diminuição no tempo de emissão de metano. Em paralelo teremos melhoria acentuada da qualidade e valorização dos produtos no mercado internacional.

Mundo Agro: Há políticas públicas ou incentivos necessários para acelerar esse processo?

Sylvio Lazzarini: Infelizmente, muito pouco. Dever-se-ia estimular mais ainda as pesquisas, de forma a mitigar quais as práticas que causam danos ao meio ambiente, oferendo alternativas para cria, recria e engorda que possam ir de encontro com a preservação do meio ambiente e estímulo à biodiversidade.

Mundo Agro: Como o setor de carne bovina pode se preparar para as exigências globais de rastreabilidade e certificação de baixo carbono?

Sylvio Lazzarini: Basicamente com investimento em tecnologia e adesão aos programas de certificação.

Mundo Agro: O que o mundo pode aprender com o modelo brasileiro de produção a pasto e uso racional dos recursos naturais?

Sylvio Lazzarini: Estudos sobre o avanço da agropecuária no Brasil, mostram que, enquanto a área de pastagens caiu, a produção de carne bovina aumentou, ou seja, somos hoje um grande provedor de alimentos para o mundo, respaldados pelo apoio inquestionável dos centros de pesquisas, universidades e do investimento direto de empresários envolvidos em toda a sua cadeia produtiva. Esse expressivo resultado “menos pasto, com mais produtividade” foi alcançado graças à melhoria genética do rebanho, além da introdução de inovadoras técnicas de manejo de pastagens, suplementação mineral e orgânica e confinamento de bovinos, tudo alinhado à preocupação constante com a preservação ambiental. Esse conjunto de boas práticas, além de muitas outras em andamento, será possível alcançar novos e contínuos aumentos de produtividade, com notável elevação da engorda de 1,5 para 4 cabeças por hectare, já observada em várias regiões do país.

Mundo Agro: Que mensagem o senhor deixaria para os líderes e negociadores da COP30 sobre o papel da pecuária no combate às mudanças climáticas?

Sylvio Lazzarini: Dados oficiais e confiáveis nos revelam o que poucos querem enxergar. A Amazônia está queimando por política ambiental violada, enquanto o mundo assiste às queimadas criminosas e ignora a destruição da nossa floresta com olhos marejados. A culpa não é do gado, e muito mesmo do agropecuarista. Com ajustes já em andamento, isolando-se integralmente toda a região amazônica, podemos prever um aumento de mais de 50% na produção de carnes nos próximos dez anos. Um feito de dar inveja às grandes economias do mundo, colocando o Brasil em grande vantagem competitiva e posição privilegiada de celeiro do mundo, com destacado equilíbrio agroambiental.

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.