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A urgência de uma cultura de proteção climática no Brasil

Especialista da HUMUS relata os bastidores da tragédia no RS e aponta caminhos para integrar sociedade, governos e empresas na resposta à crise climática

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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HUMUS é uma organização de ajuda humanitária sem fins lucrativos, independente e brasileira, que atua com foco em desastres em áreas de risco iminente ou afetadas Foto cedida : HUMUS

A tragédia no Rio Grande do Sul, que completou um ano, expôs a vulnerabilidade do Brasil diante dos eventos climáticos extremos, que se tornam cada vez mais frequentes


O Mundo Agro conversou com quem esteve na linha de frente durante os trabalhos de resgate. Nesta entrevista, Léo Farah, da ONG HUMUS, que atuou desde o início no RS e tem liderado ações de prevenção e reconstrução com foco em segurança e resiliência, descreve os desafios vividos em campo, aponta falhas estruturais e propõe soluções urgentes — que passam por investimento, capacitação e, sobretudo, uma mudança de mentalidade coletiva sobre o que significa proteger vidas.


Léo Farah, da ONG HUMUS, que atuou desde o início no RS e tem liderado ações de prevenção e reconstrução com foco em segurança e resiliência Foto cedida: HUMUS

Mundo Agro: Qual a urgência de falarmos e agirmos o quanto antes para evitar novas tragédias como a do RS?

Léo Farah: A tragédia no Rio Grande do Sul não é um caso isolado, mas o retrato de uma crise climática em curso, agravada por negligência histórica na prevenção de desastres. Cada dia de inação custa vidas, memórias, infraestrutura e dignidade. A urgência de agir não é só técnica — é moral. O Brasil precisa entender que o tempo da prevenção é antes da sirene tocar. Depois, só resta correr para mitigar perdas. E isso, infelizmente, custa muito mais caro — em todos os sentidos.


Mundo Agro: O que precisa exatamente ser feito: investimento, treinamento, mudanças de pessoas em locais de risco etc? E não só intervenções públicas. A sociedade precisa participar, certo?

Léo Farah: Sim, e o caminho já é conhecido. O que falta é execução. Precisamos de:


• Mapeamento técnico constante de áreas de risco com dados meteorológicos e de solo atualizados;

• Investimentos estruturais em drenagem urbana, contenção de encostas, sirenes e sistemas de alerta precoce;

• Planos de evacuação familiares e comunitários, com simulações e treinamentos regulares;

• Retirada gradual e digna de pessoas em áreas sabidamente vulneráveis, com soluções habitacionais reais, não improvisadas;

• Capacitação de gestores públicos e comunitários, com base em modelos como o Sistema de Comando de Incidentes (SCI);

• Inclusão da sociedade civil, que precisa deixar de ser vítima passiva e passar a ser parte ativa da prevenção.

A prevenção só funciona quando é compartilhada: entre governos, empresas e cidadãos.

Mundo Agro: Você esteve no RS. O que viu, sentiu? Qual foi o trabalho feito por vocês lá?

Léo Farah: Estive no RS nas duas maiores fases da crise e testemunhei cenas que marcaram minha vida: bairros inteiros sob água, idosos isolados em telhados, escolas transformadas em abrigos improvisados e equipes exaustas tentando salvar o que ainda podia ser salvo.

A HUMUS foi mobilizada rapidamente e atuou em várias frentes:

• Apoio às buscas por desaparecidos, utilizando drones, imagens aéreas, modelos preditivos de enchentes e análise de áreas de deslizamento;

• Gestão de abrigos temporários, ajudando municípios a organizarem espaços mínimos de dignidade, com rotinas básicas, triagem e encaminhamento;

• Implementação do Sistema de Comando de Incidentes (SCI) em prefeituras que nos solicitaram apoio, capacitando equipes para uma resposta coordenada e eficiente;

• Operações logísticas de ajuda humanitária, organizando centros de triagem, rastreio e distribuição de itens essenciais;

• Produção de materiais educativos acessíveis, com tradução em Libras e linguagem simples, orientando a população sobre como agir em emergências;

• Atuação direta em campo, em áreas isoladas, com foco em levantamento de danos, apoio técnico e distribuição de suprimentos.

Foi uma operação difícil, mas necessária. E o que vimos ali foi um Brasil que precisa aprender com a dor, para não repeti-la.

Mundo Agro: O que falta para que a prevenção entre de vez na agenda ESG?

Léo Farah: Falta uma virada de mentalidade. ESG não pode ser só marketing. Enquanto o “E” de Environmental for tratado como reflorestamento e emissão de carbono, e ignorar os riscos climáticos reais, estaremos andando em círculos. Prevenção precisa ser uma métrica dentro das auditorias ESG. Empresas que atuam em áreas vulneráveis devem:

• Ter Planos de Ação Emergencial (PAE) atualizados e testados;

• Treinar suas equipes para resposta a desastres com simulações reais;

• Investir em resiliência comunitária, apoiando a estruturação de abrigos, doações e comunicação com a população local;

• E principalmente: incluir riscos de desastres e clima extremo como parte dos seus relatórios ESG.

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