Com cachaça, Brasil chega a 150 indicações geográficas e fortalece identidade dos territórios
Reconhecimento das cachaças de Areia (PB) e Orizona (GO) reforça papel das IGs no desenvolvimento regional

O Brasil atingiu um marco histórico ao alcançar 150 Indicações Geográficas (IGs) reconhecidas pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
A nova conquista foi consolidada com o registro das cachaças de Areia, na Paraíba, e Orizona, em Goiás, como Indicações de Procedência, evidenciando a força dos territórios, dos saberes tradicionais e da produção artesanal na construção de valor para o agronegócio brasileiro.
Para analisar o impacto desse avanço para produtores, regiões e mercados, o Mundo Agro entrevistou Eduardo Zorzanello, CEO do Connection Terroirs do Brasil, principal evento nacional dedicado à valorização dos produtos de origem.
Mundo Agro: O que o reconhecimento de uma Indicação Geográfica representa para os produtores locais?
Eduardo Zorzanello: É o reconhecimento oficial de uma história que, muitas vezes, atravessa gerações. É a validação de um modo de fazer que nasce do território, do clima, da cultura e, sobretudo, das pessoas. Para os produtores, representa orgulho, legitimidade e pertencimento. Quando um produto conquista uma IG, ela declara ao país - e ao mundo - que aquela região existe algo único, impossível de ser replicado. A IG amplia oportunidades, fortalece renda, protege tradições e cria um senso de comunidade que transforma toda a cadeia produtiva.
Mundo Agro: Como as IGs podem fortalecer a economia das regiões rurais?
Eduardo Zorzanello: As IGs têm um poder transformador extraordinário sobre as regiões, elas geram desenvolvimento local porque estimulam cadeias produtivas inteiras. Elas despertam a atenção de mercados e acabam ampliando a renda dos produtores, além de incentivar práticas sustentáveis, atrair turismo, entre outros benefícios. Uma região com IG cria valor, retém talentos e transforma conhecimento tradicional em oportunidade econômica. É como se o território ganhasse voz própria. Por exemplo: quando ouvimos falar sobre a Serra da Canastra em Minas Gerais, sabemos que lá é feito um queijo que não existe em outro lugar do mundo, com o queijo da Serra Gaúcha ocorre o mesmo. E isso acontece em todo o país, de ponta a ponta.
Mundo Agro: De que maneira a proteção legal oferecida pela IG pode impactar a competitividade dos produtos brasileiros?
Eduardo Zorzanello: A proteção legal impede o uso indevido do nome, assegura padrões de qualidade e garante a autenticidade do produto. Isso dá segurança ao produtor e ao consumidor e o diferencia em mercados altamente competitivos. Em um mundo onde origem, rastreabilidade e história são atributos cada vez mais valorizados, o selo de IG funciona como um passaporte de confiança para os produtos brasileiros. Quando um produto recebe uma IG, ele passa a contar com um diferencial que nenhum concorrente pode copiar: sua origem. Esse vínculo jurídico e cultural cria confiança no mercado.
Mundo Agro: Por que os produtos agroalimentares regionais têm ganhado cada vez mais visibilidade nacional e internacional?
Eduardo Zorzanello: Há uma tendência global de valorização da origem e da identidade cultural. O consumidor quer saber de onde vem o que consome, quem produz e de que maneira. No Brasil, essa busca coincide com a redescoberta das riquezas do território: frutas nativas, cachaças artesanais, cafés diferenciados, mel, castanhas, queijos e tantos outros produtos que carregam histórias. Essa combinação tem impulsionado sua visibilidade e abrindo novas oportunidades de mercado porque representam algo raro em um mundo globalizado: autenticidade
Mundo Agro: Qual é o papel do Connection Terroirs do Brasil na promoção das Indicações Geográficas? E, recentemente, tivemos novos produtos reconhecidos. Poderia comentar sobre eles?
Eduardo Zorzanello: O Connection Terroirs do Brasil nasceu com a missão de dar voz aos territórios e valorizar aquilo que torna o nosso país tão diverso e singular: os saberes locais. O evento, realizado pela Rossi e Zorzanello e correalizado pelo Sebrae, é a principal vitrine brasileira para os produtos de origem.
Nosso papel na promoção das Indicações Geográficas é justamente conectar produtores, pesquisadores, chefs, comunicadores e formadores de opinião, criando um ambiente onde cada IG possa ser compreendida, celebrada e posicionada como patrimônio cultural e econômico.
Trabalhamos para ampliar visibilidade, fomentar negócios, estimular turismo, inspirar políticas públicas e aproximar o consumidor da história que existe por trás de cada produto. O Connection é uma plataforma viva de divulgação, aprendizado e encantamento, é um palco onde as IGs brasileiras brilham.
E é muito emocionante ver como esse movimento tem crescido. Nos últimos meses, novas regiões e novos produtos conquistaram o reconhecimento como Indicação Geográfica, confirmando a força da nossa biodiversidade, da nossa criatividade e da dedicação dos produtores.
Nas últimas semanas, tivemos cinco novos produtos reconhecidos: o Mel de Boa Vista do Ramos (AM), que valoriza a meliponicultura com abelhas nativas sem ferrão; a Castanha de Caju de Serra do Mel (RN), fruto de um modelo comunitário de produção único no Brasil; o Palmito Pupunha do Vale do Ribeira (SP), referência nacional em manejo sustentável. E nesta semana as cachaças de Areia na Paraíba e Orizona em Goiás.
Mundo Agro: Como o evento contribui para aproximar produtores, especialistas e consumidores?
Eduardo Zorzanello: O Connection Terroirs do Brasil foi pensado justamente para criar pontes e ser um ambiente de encontros. Ele aproxima produtores, especialistas e consumidores ao oferecer um espaço onde cada um pode ver, ouvir e sentir o território de maneira viva. Para os produtores, o evento é uma vitrine. Eles chegam com seu produto, mas saem com conhecimento, novos contatos, inspiração e, muitas vezes, com oportunidades de negócio que transformam sua realidade. Para os especialistas, é um laboratório de troca: pesquisadores, chefs, comunicadores e lideranças do setor encontram ali um ambiente pulsante para debater tendências, desafios e soluções.
E para o consumidor, o Connection abre uma janela para mundos que ele talvez nunca tenha visitado. Ele passa a entender que por trás de um queijo, de um vinho, de um café ou de um artesanato existe uma comunidade inteira, um modo de fazer, uma identidade e exclusividade.
O evento proporciona experiências sensoriais, rodas de conversa, degustações guiadas, painéis técnicos e momentos de encantamento capazes de conectar as pessoas pela emoção e pela informação aprofundada e de qualidade.
Mundo Agro: De que forma o reconhecimento de uma IG pode incentivar o consumo consciente?
Eduardo Zorzanello: O reconhecimento de uma Indicação Geográfica transforma a relação do consumidor com o produto, porque ele passa a enxergar muito mais do que o item que está na prateleira: ele percebe a origem, a história e a responsabilidade que existem por trás daquele sabor ou daquela técnica.
Uma IG oferece transparência. Ela mostra quem produz, onde produz e por que aquele produto é único. Essa clareza naturalmente estimula escolhas mais conscientes, pois o consumidor entende que, ao comprar, está apoiando uma comunidade inteira, preservando tradições, valorizando práticas sustentáveis e fortalecendo economias locais.
Além disso, a IG ajuda a educar. Ela aproxima as pessoas dos processos produtivos, revela o cuidado envolvido, destaca a importância da biodiversidade e do manejo responsável do território.
Mundo Agro: O Brasil ainda está construindo sua trajetória nessa área. Países como Itália, Portugal, Espanha e até a Argentina divulgam muito mais seus produtos reconhecidos. O que ainda falta para que o Brasil conquiste essa mesma visibilidade?
Eduardo Zorzanello: O Brasil tem uma diversidade extraordinária, mas ainda estamos aprendendo a contar nossas próprias histórias com a força e a consistência que elas merecem. Países como Itália, Portugal e Espanha têm séculos de tradição na promoção das Indicações Geográficas e, talvez mais importante do que isso, têm uma cultura profundamente enraizada de orgulho territorial.
No Brasil, faltam três pilares que estamos começando a construir agora: Comunicação mais estratégica e contínua. Mais integração entre produtores, entidades, governos e mercado. Reconhecimento interno antes do externo.
Mas há algo muito importante que está acontecendo: estamos avançando. A cada ano, mais produtos conquistam o selo de IG, mais regiões se organizam e mais produtores se capacitam. O futuro das nossas IGs é promissor e emocionante.
Mundo Agro: Se você pudesse definir “Indicação Geográfica” em apenas uma palavra, qual seria?
Eduardo Zorzanello: Identidade.
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