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Como drones e IA ajudam a preservar a vida das araras em Campo Grande

Projeto do Instituto Arara Azul transforma o monitoramento das araras na cidade

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O projeto do Instituto Arara Azul, em Campo Grande, utiliza drones e inteligência artificial para monitorar araras-canindé.
  • A iniciativa, apoiada pela empresa ADM, visa a conservação da espécie e a educação ambiental da comunidade.
  • A implementação de novas tecnologias aumentou significativamente a eficiência do monitoramento, permitindo checar mais de 50 ninhos por dia.
  • O sucesso do projeto contribui para a integração da fauna silvestre à vida urbana, atraindo turismo e melhorando a qualidade de vida local.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Uso de IA e drones melhora o monitoramento de araras em Campo Grande, MS Foto cedida: Instituto Arara Azul

Elas sobrevoam Campo Grande todos os dias e já fazem parte da identidade da capital sul-mato-grossense. As araras-canindé são protagonistas de um dos mais bem-sucedidos projetos de conservação da biodiversidade urbana do país.

Com o apoio da empresa ADM (Archer Daniels Midland) e o trabalho do Instituto Arara Azul, o monitoramento da espécie ganhou reforço tecnológico, ampliou a precisão dos dados e envolveu a comunidade em ações de ciência cidadã.


O Mundo Agro entrevistou com exclusividade pesquisadores e líderes do projeto, que detalham os avanços recentes, os resultados recordes da última temporada reprodutiva e as novas frentes de atuação previstas para 2025.

Entre os responsáveis por conduzir esse trabalho incrível está Eliza Mense, diretora-executiva do Instituto Arara Azul, que coordena as iniciativas de pesquisa e conservação e acompanha de perto a evolução do monitoramento das aves.


Bruno Lucas de Andrea, colaborador do Instituto Arara Azul e assistente de pesquisa do Projeto Aves Urbanas – Araras na Cidade, integra a equipe de campo, atuando diretamente no monitoramento dos ninhos e no desenvolvimento de soluções digitais e de inteligência artificial.

E, para explicar o papel da iniciativa no campo corporativo, Paloma Carrilli, gerente de Sustentabilidade da ADM para a América Latina, detalha como o apoio ao projeto se alinha à estratégia global de sustentabilidade e conservação da biodiversidade da empresa.


Eu ainda espero poder vivenciar essa experiência incrível de ver as araras-canindé colorindo e alegrando o céu de Campo Grande.


Parceria entre Instituto Arara Azul e ADM impulsiona proteção das araras urbanas Foto cedida: Instituto Arara Azul

Mundo Agro: Quais foram os principais avanços observados desde que o monitoramento passou a contar com o apoio da ADM?

Eliza Mense: O apoio da ADM, em 2024, no Projeto Aves Urbanas – Araras na Cidade, contribuiu para a aquisição de novos equipamentos e para a continuidade do monitoramento e da pesquisa com as araras-canindé em Campo Grande, contribuindo diretamente para a conservação da espécie nesta cidade. Em 2025, o apoio da ADM está voltado para a difusão das informações técnicas a diferentes públicos, com o objetivo de engajar multiplicadores na conservação da biodiversidade urbana.

Mundo Agro: Como o uso de drones e tablets mudou a rotina de monitoramento dos ninhos?

Eliza Mense: Com o uso dessas tecnologias, os monitoramentos, assim como o processamento dos dados coletados em campo, passaram a ser mais eficazes e otimizados. Por exemplo, antes da implementação desses equipamentos, a equipe monitorava entre 15 e 25 ninhos por dia e, hoje, dependendo da região monitorada, esse número chega a mais de 50 ninhos checados em um único dia.

Mundo Agro: O que explica a alta taxa de ocupação dos ninhos (73%) e o nascimento de 92 filhotes na última temporada?

Eliza Mense: São várias as explicações, mas as mais importantes são a disponibilidade de ninhos naturais e de alimento na área urbana de Campo Grande. No entanto, é importante lembrar que este número se refere apenas aos indivíduos que foram monitorados com o apoio da ADM, mas houve mais filhotes nascendo e sobrevivendo na última estação reprodutiva em Campo Grande.

Mundo Agro: Qual é a importância ecológica das araras em ambientes urbanos como o de Campo Grande?

Eliza Mense: As araras-canindé, além de serem dispersoras de sementes, são consideradas engenheiras ambientais, pois possuem um bico forte que é capaz de aumentar rapidamente um buraco, construindo seu ninho. Esse ninho pode ser utilizado por outras espécies para reprodução, como os tucanos, as corujas-suindara e as maracanãs-de-cara-amarela.

A revolução na vida das araras de Campo Grande Foto cedida: : Instituto Arara Azul

Mundo Agro: Como funciona o estudo de inteligência artificial que busca identificar individualmente as araras?

Bruno Lucas de Andrea: O estudo de inteligência artificial para identificação individual de araras baseia-se na análise do padrão facial formado pelas fileiras de penas, característica considerada única para cada indivíduo. Utilizando técnicas de machine learning e, especialmente, de deep learning, as imagens são previamente recortadas para destacar apenas a região facial. A partir desses recortes, redes neurais profundas são treinadas para reconhecer variações sutis no formato, na disposição e no espaçamento das penas.

Durante o treinamento, o modelo aprende a extrair automaticamente os elementos distintivos desse padrão, construindo uma representação biométrica capaz de diferenciar indivíduos com alta precisão. Assim, quando uma nova imagem é apresentada, a IA compara o desenho das penas faciais com aqueles previamente aprendidos, permitindo identificar a arara ou indicar que se trata de um indivíduo não registrado.

Mundo Agro: Qual o impacto dos drones na precisão e segurança das atividades de campo?

Bruno Lucas de Andrea: Os ninhos são construídos em troncos de palmeiras mortas e, com o passar do tempo, devido à sua decomposição, fica inviável o uso de escada para o monitoramento dos ninhos; por isso o uso do drone se tornou importante nesses casos. Além disso, em ninhos muito altos, nos quais nossa escada não alcança, o drone também se tornou uma ferramenta imprescindível para o monitoramento das araras-canindé em Campo Grande.

Mundo Agro: De que forma o monitoramento digital melhora a elaboração dos relatórios e a tomada de decisão?

Bruno Lucas de Andrea: Antes do uso de tablets e planilhas no momento da coleta de dados, todo dado coletado era preenchido em uma planilha impressa e depois passado para o formato digital no Excel, o que demandava tempo de parte da equipe para alimentar o banco de dados digital. No entanto, após a implementação do tablet, os dados são incluídos ao banco de dados online ao passo que é realizado o monitoramento dos ninhos. Portanto, essas tecnologias contribuíram para otimizar a digitalização dos dados coletados; consequentemente, tem-se mais tempo para outras demandas, como a elaboração de relatórios.

Mundo Agro: Quais foram os resultados mais significativos das ações de educação ambiental realizadas no último ano?

Bruno Lucas de Andrea: Foram realizadas oito ações educativas com a comunidade, envolvendo diretamente 500 participantes, entre crianças, jovens e adultos. Além disso, foram desenvolvidas três ações educativas com efeito multiplicador voltadas a educadores, alcançando diretamente 60 profissionais.

Mundo Agro: Qual será o papel dos 150 voluntários previstos na próxima fase do projeto?

Bruno Lucas de Andrea: O papel desses voluntários será auxiliar, sempre que necessário, a equipe de campo, porém com o objetivo de levar o conhecimento para diferentes públicos (efeito multiplicador), com mais pessoas engajadas na conservação não só das araras, mas da biodiversidade. A educação ambiental é uma importante premissa para a conservação.

Mundo Agro: Como o conceito de “ciência cidadã” será trabalhado com escolas e moradores?

Bruno Lucas de Andrea: A ciência cidadã está presente em todos esses ambientes, pois tanto as escolas, alunos, professores e moradores contribuem com informações de ninhos novos e informações de ecologia da própria espécie, como alimentação, comportamento e reprodução. Essas contribuições são incentivadas por toda a equipe do Instituto Arara Azul.

Mundo Agro: O que pode mudar na dinâmica da cidade se a conservação das araras continuar evoluindo nesse ritmo?

Bruno Lucas de Andrea: A dinâmica da cidade, por tornar-se um símbolo de conservação pelas aves que a habitam e por passar a ser um grande centro reprodutivo das araras-canindé, passa a atrair mais turistas e observadores de aves, além de dar muito orgulho às comunidades que possuem esse atrativo. Além disso, vários estudos comprovam que a qualidade de vida das pessoas em contato com a natureza melhora, promovendo benefícios para a saúde física e mental, como redução do estresse e da ansiedade.

Acreditamos que, em termos de reprodução das aves, a dinâmica da cidade, no sentido negativo, não será afetada, uma vez que, apesar de haver um número considerável de indivíduos na área urbana, a maior parte dos filhotes que nasce aqui se dispersa para outras áreas.

Integração entre ciência e tecnologia promove avanço na conservação de araras urbanas Foto cedida: Instituto Arara Azul

Mundo Agro: Por que a ADM decidiu apoiar o projeto das araras-canindé em Campo Grande?

Paloma Carrilli: Buscamos gerar impacto positivo nas comunidades onde a ADM atua por meio do apoio a projetos que contribuem para o desenvolvimento das comunidades, seja do ponto de vista educacional, social, econômico ou ambiental. Campo Grande é um município de grande importância para nós; estamos presentes na região com duas unidades fabris dedicadas ao processamento de soja e à nutrição humana.

O projeto de conservação das araras-canindé realizado pelo Instituto Arara Azul tem sido fundamental para demonstrar que é possível integrar a fauna silvestre à vida urbana e o quanto isso traz de benefícios para ambos. O trabalho de monitoramento da espécie tem sido reconhecido pelo sucesso em possibilitar a reprodução das araras e gerar o equilíbrio entre a biodiversidade e a qualidade de vida da população, ampliando o conhecimento sobre essas dinâmicas localmente.

Mundo Agro: Como essa iniciativa se insere na estratégia de sustentabilidade e no programa ADM Cares?

Paloma Carrilli: O apoio ao Instituto Arara Azul faz parte do compromisso da ADM em mitigar pressões relacionadas à perda da biodiversidade, por meio de ações colaborativas junto a diferentes parceiros onde atuamos. Nosso programa de investimento social corporativo, ADM Cares, parte justamente do conceito de criação de valor compartilhado e da união de esforços, expertises e capacidades para fortalecer o compromisso com as comunidades, direcionando recursos para iniciativas e organizações que promovem progresso social, econômico e ambiental significativo, como é o caso do projeto de conservação das araras-canindé em Campo Grande.

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