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Custos Brasil e importações ameaçam a indústria química brasileira

O Projeto de Lei Presiq é a aposta para salvar e transformar o setor

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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Concorrência estrangeira leva ao fechamento de fábricas no setor químico Foto cedida: Abiquim

A indústria química é essencial para cadeias como agricultura, alimentos, energia, saneamento e saúde. No entanto, o setor enfrenta um momento crítico.


O recente fechamento de uma fábrica na Bahia, que agora será leiloada, evidencia como a concorrência com produtos importados — especialmente da China — ameaça a continuidade das operações no Brasil.

Em entrevista exclusiva ao Mundo Agro, André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Abiquim, analisa os entraves à competitividade, o impacto das importações predatórias e os caminhos possíveis para reverter o cenário do setor. A principal expectativa recai sobre o Projeto de Lei Presiq (PL 892/25), que prevê aportes de mais de R$ 112 bilhões na economia. No dia 8 de julho, a Câmara dos Deputados aprovou o regime de urgência para a tramitação da proposta, que visa estimular a competitividade da indústria química nacional.


André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Abiquim Foto cedida: Abiquim

Mundo Agro: A notícia de que uma indústria química, localizada em Candeias (BA), irá a leilão revela um momento crítico para setor químico brasileiro?

André Passos Cordeiro: Esse leilão ilustra o momento delicado que o setor químico e petroquímico instalado no Brasil enfrenta. Ele é um reflexo direto da pressão do excesso de oferta no mercado global, dos custos elevados de matérias-primas e do crescimento das importações. Para nós, na indústria, há o risco iminente de uma onda mais forte de fechamento de fábricas, um cenário não visto com tamanha intensidade desde 2008.


Mundo Agro: Qual era a indústria? O que produzia e qual era sua representatividade no setor?

André Passos Cordeiro: Trata-se da Fortal Química, do Grupo Formitex - localizada em Candeias (BA), e a única na América Latina que produzia HPMC (hidroxipropilmetilcelulose), polímero essencial para indústrias como construção, farmacêutica e alimentícia; ela não resistiu à concorrência dos produtos importados, em particular da China. O custo de produção no Brasil era significativamente mais alto do que o preço dos produtos importados que chegavam aos portos brasileiros, inviabilizando a competitividade e resultando na paralisação das atividades da unidade e, agora, no leilão. Tais encerramentos não apenas aumentam a dependência externa do país, mas também resultam em menos empregos, menor arrecadação de impostos e redução de investimentos no Brasil.


Mundo Agro: A indústria química no Brasil está perdendo capacidade instalada? Estamos virando mais importadores do que produtores?

André Passos Cordeiro: Sim, a indústria química no Brasil está, lamentavelmente, perdendo capacidade instalada. Temos assistido a um salto nas importações, que já representam cerca de 50% da demanda doméstica. Isso significa que, de fato, estamos nos tornando mais importadores do que produtores. Em 2024, o déficit comercial do setor chegou a US$ 48,7 bilhões, e a taxa de utilização média do parque fabril local, no primeiro trimestre deste ano, foi de apenas 62%, muito abaixo dos 80% a 85% mínimos requeridos por uma indústria de processo contínuo e capital intensivo. Essa situação tem forçado a paralisação de fábricas, a antecipação de manutenções e até mesmo a hibernação de plantas industriais. Dentro desse contexto, vale entender a importância de uma planta trabalhar com o máximo da sua capacidade instalada. No âmbito industrial existem alguns conceitos de extrema relevância, um deles é o da capacidade instalada. Isso porque ela está diretamente ligada à produtividade e à competitividade das indústrias dos mais variados setores. Para o segmento químico, que trabalha em processo contínuo, o ideal seria que a ocupação das instalações ficasse acima de 85%, sendo que abaixo de 80% passa a ser um nível crítico e preocupante, pois, além da menor viabilidade econômica e custos unitários mais altos, também demanda mais paradas para manutenção, piorando a eficiência das plantas, e, pior, não estimulando a realização de novos investimentos em aumento de capacidade. Operações industriais nesses níveis de capacidade levam a resultados de produtividade e de eficiência que desestimulam, muitas vezes, a continuidade da produção.

Mundo Agro: A Bahia já foi um dos grandes polos petroquímicos do país. Qual é o cenário atual do estado dentro do mapa da química brasileira?

André Passos Cordeiro: A crise atinge toda a indústria petroquímica no Brasil. No cenário nacional, a Bahia, e particularmente o Polo Petroquímico de Camaçari destaca a representatividade do setor químico baiano, que, apesar de sua relevância econômica com um PIB industrial de R$ 9,43 bilhões em 2023, também enfrenta desafios, evidenciados pela queda de 10,3% na produção física de produtos químicos em 2023 em comparação ao ano anterior. Há empresas que suspenderam ou encerraram linhas de produção na região devido à impossibilidade de competir com os custos dos produtos importados. Enquanto algumas operações são mantidas, outras plantas estratégicas estão hibernadas, aguardando um cenário de mercado mais favorável para uma possível retomada.

Mundo Agro: Quais são hoje os principais entraves para a competitividade da indústria química no Brasil?

André Passos Cordeiro: A competitividade da indústria química brasileira é afetada por uma combinação de fatores estruturais e conjunturais. Um dos principais desafios é o elevado custo das matérias-primas, especialmente a nafta, que ainda é a base da indústria petroquímica nacional. Enquanto nossos principais concorrentes, como Estados Unidos e países da Ásia, operam com gás natural a preços muito mais baixos — entre US$ 2 e US$ 3 por milhão de BTU —, no Brasil, essa mesma molécula pode custar de US$ 12 a US$ 14. Além disso, o cenário global de excesso de oferta pressiona os preços e acirra a concorrência, o que torna ainda mais difícil para a indústria brasileira competir em condições de igualdade. Outro obstáculo central é o chamado Custo Brasil, que engloba problemas crônicos como energia cara, logística deficiente, carga tributária elevada e burocracia excessiva. Esses fatores encarecem a produção e afetam diretamente a produtividade e a capacidade de investimento do setor. Por fim, como já citado nas respostas acima, a entrada de produtos importados a preços predatórios tem agravado o quadro, resultando em níveis alarmantes de ociosidade nas plantas instaladas no país. Essa combinação de fatores tem colocado em risco a sustentabilidade e o crescimento da indústria química nacional.

Mundo Agro: Quais são as matérias-primas importadas que estão afetando o setor, gerando consequentemente essa dependência?

André Passos Cordeiro: Trata-se de um conjunto de 62 produtos químicos com aplicações estratégicas em diversas cadeias industriais — como a de plásticos, defensivos agrícolas, tintas, automotiva, entre outras — cuja crescente importação em condições desleais, tem comprometido, sobretudo, a sustentabilidade da indústria química nacional. Para mitigar os impactos imediatos desse cenário, e após intensos esforços da Abiquim, a Câmara de Comércio Exterior (Camex), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), autorizou a inclusão de 30 desses produtos na Lista de Elevações Tarifárias por Razões de Desequilíbrios Comerciais Derivados da Conjuntura Econômica Internacional (DCC).Esses 30 itens — que tiveram suas alíquotas de importação elevadas de 10,8% ou 12,6% para 20%, por um período inicial de 12 meses — concentram 65% do volume e 75% do valor total das importações do grupo identificado. A medida, de caráter técnico e equilibrado, já gerou efeitos positivos concretos: a participação de importados no consumo nacional caiu de 50% no último bimestre de 2024 para 46% no primeiro bimestre de 2025, sinalizando uma retomada gradual do espaço da produção local. Ainda assim, o problema persiste. Apesar da medida, os preços das importações continuaram em trajetória de queda — 5,3% entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025 — o que demonstra que países exportadores seguem adotando práticas de preços predatórios. Um exemplo emblemático é o das resinas termoplásticas, cujos preços importados estariam até 40% abaixo dos nacionais, conforme relatos públicos de representantes de importadores. Isso evidencia a urgência de medidas complementares, como ações anti-dumping, para garantir condições equitativas de concorrência. Essa crescente entrada de matérias-primas importadas afeta diretamente a operação das fábricas brasileiras, com impactos negativos sobre o emprego, a arrecadação de tributos e os investimentos em capacidade produtiva. Só em 2023, a queda na produção de químicos resultou em uma perda de R$ 8 bilhões em impostos federais, comprometendo a competitividade do setor e a capacidade do Estado de financiar políticas públicas essenciais. Diante do encerramento do prazo inicial das elevações tarifárias em outubro de 2025, a Abiquim já protocolou pedido formal de prorrogação por mais 12 meses. A medida é considerada fundamental para garantir um mínimo de estabilidade ao setor e coerência com os objetivos da estratégia nacional de neoindustrialização. Permitir a continuidade desse cenário de importações predatórias contraria os esforços do Brasil em reindustrializar sua economia e fortalecer setores estratégicos como o químico — responsável por cerca de 2 milhões de empregos diretos e indiretos e por ocupar a quarta posição entre as maiores indústrias químicas do mundo. Com um faturamento líquido de US$ 158,6 bilhões em 2024, a indústria química brasileira também se destaca como a mais sustentável do planeta, emitindo entre 5% e 51% menos CO² por tonelada produzida em comparação com seus principais concorrentes globais.

Mundo Agro: A indústria química é considerada estratégica em muitos países. O Brasil tem tratado esse setor como prioridade nacional?

André Passos Cordeiro: A indústria química é, de fato, considerada estratégica globalmente, provendo soluções essenciais para diversas cadeias como agricultura, saúde, transporte, construção civil e energia. No Brasil, ela representa 11% do PIB industrial e é o terceiro maior setor da indústria de transformação. O governo federal e o Congresso têm feito esforços contínuos nos últimos dois anos para a recuperação do setor, incluindo a Lista DCC e a retomada do Regime Especial da Indústria Química (Reiq). No entanto, é preciso um olhar ainda mais especial do Estado para o setor, reconhecendo sua indispensabilidade para a neoindustrialização do país. O desenvolvimento de cadeias vinculadas ao gás natural e etano, por exemplo, poderia reativar unidades de produção hoje ociosas. Diante desse cenário desafiador, o setor está apostando - sobretudo como solução rápida e promissora -, no Projeto de Lei 892/2025, que institui o Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq). Essa medida, já no radar do Governo Federal e em sintonia com o programa Nova Indústria Brasil, visa alavancar o setor por meio de estímulos fiscais inteligentes, incentivando processos de baixo carbono e a expansão da capacidade produtiva. Com o Presiq, estimamos um impacto positivo de R$ 112,1 bilhões no PIB até 2029, a criação de até 1,7 milhão de empregos diretos e indiretos, e um adicional de R$ 65,5 bilhões em tributos para o Brasil. O programa também busca reduzir em 30% as emissões de CO² por tonelada produzida, visando a neutralidade de carbono até 2050, posicionando o Brasil como líder global na transição energética. O Presiq propõe créditos financeiros de até R$ 4 bilhões para a modalidade industrial e até R$ 1 bilhão para a modalidade investimento a partir de 2027, direcionados para aquisição de insumos menos poluentes, como o gás natural, e para centrais petroquímicas e indústrias que se comprometam a ampliar sua capacidade instalada. Esse é o caminho para a descarbonização, utilizando a biomassa, na qual o Brasil já tem acesso à maior parte dessas matérias-primas. Em síntese, com o trabalho conjunto entre a indústria, entidades públicas e a sociedade, e um diálogo construtivo com o governo federal, temos a convicção de que podemos reverter o cenário atual e fortalecer ainda mais a indústria química brasileira, garantindo sua relevância no cenário internacional e contribuindo significativamente para o desenvolvimento econômico e socioambiental do país.

Mundo Agro: Quais as perspectivas da Abiquim para os próximos anos? Há setores dentro da química que devem puxar uma possível retomada?

André Passos Cordeiro: Para os próximos anos, a Abiquim busca a construção de um novo modelo de política industrial que fortaleça o setor. Acreditamos que, com medidas estruturantes como a redução do custo de matérias-primas tradicionais, especialmente o gás natural (via programas como o “Gás para Empregar”), e a viabilização de matérias-primas renováveis a preços competitivos (hidrogênio, biometano, etanol, nafta verde), é possível reverter definitivamente o cenário .A transição global para a economia circular e a química verde apresenta oportunidades únicas. Setores focados na produção de bioprodutos, energias renováveis e soluções para saneamento (demandando PVC, cloro, metanol e outros químicos verdes) podem impulsionar uma retomada. A aprovação de programas como o Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq) - mencionado acima - é crucial.

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