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Do campo aos números: novo modelo aprimora estimativa de carbono no Brasil

Setor florestal ganha ferramenta mais moderna para calcular carbono

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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Estudo brasileiro melhora a forma de medir o carbono no campo Foto cedida: Bracell

A precisão dos dados é um dos pilares da credibilidade climática. No setor florestal, uma nova modelagem desenvolvida com base em medições reais promete reduzir incertezas históricas na estimativa de carbono.

Ao abandonar fatores médios globais e adotar equações ajustadas à realidade brasileira, a metodologia representa um salto técnico importante.


Nesta entrevista exclusiva, Gabriela Gonçalves Moreira Matzner, Gerente de P&D Manejo Florestal da Bracell, explicou os diferenciais do estudo e os reflexos para empresas e inventários nacionais.

Gabriela Gonçalves Moreira Matzner, Gerente de P&D Manejo Florestal da Bracell Foto cedida: Bracell

Mundo Agro: O que diferencia esses novos modelos de estimativa de carbono dos métodos utilizados anteriormente?

Gabriela Gonçalves Moreira Matzner: Os novos modelos substituem valores médios fixos e genéricos por equações específicas aplicadas a cada árvore, calibradas com dados reais de campo e variáveis que refletem a realidade das plantações brasileiras.


Na prática, o estudo descreve que essa abordagem usa variáveis coletadas diretamente no campo – como DAP, altura total, idade do plantio, espécie, localização e características ambientais (clima, precipitação, temperatura) – para alimentar modelos estatísticos de regressão que tornam a estimativa mais precisa e aderente à realidade das florestas plantadas no Brasil.

Outro diferencial é que a melhoria de precisão é especialmente relevante para a biomassa subterrânea (raízes), tradicionalmente mais difícil de mensurar, com redução de erro reportada em até 60% nas raízes.


Mundo Agro: Por que ainda havia tanta margem de imprecisão na mensuração de carbono em florestas plantadas?

Gabriela Gonçalves Moreira Matzner: É importante ressaltar que existe uma margem de imprecisão em toda estimativa, sendo que a utilizada anteriormente era considerado o melhor disponível em literatura internacional até o momento. Essa imprecisão existe porque os valores recomendados pelo IPCC são médias globais gerais. Em termos simples, é como tentar definir um peso médio para toda a população humana sem considerar diferenças de genética, idade ou hábitos alimentares. O novo trabalho busca justamente compreender como diferentes condições ambientais e características do plantio influenciam o acúmulo de biomassa.

Atualmente, grande parte dos inventários florestais no Brasil ainda utiliza valores médios genéricos definidos em 2004 pelo MCTI, que não consideram fatores como idade das árvores, espécie, tipo de solo, clima e localização. Essa simplificação pode gerar erros relevantes, especialmente na estimativa da biomassa subterrânea, como as raízes, que são tradicionalmente mais difíceis de mensurar.

Essa limitação também se reflete nos inventários utilizados nas comunicações internacionais do país. Inclusive, os dados enviados ao IPCC ainda se baseiam, em grande medida, nesses valores fixos e genéricos, o que ajuda a explicar por que a margem de imprecisão se manteve elevada por tanto tempo.

Mundo Agro: Esses modelos podem ser replicados em outros tipos de florestas ou biomas?

Gabriela Gonçalves Moreira Matzner: Como os modelos foram desenvolvidos a partir de plantações de eucalipto e pinus, eles devem ser usados de modo restrito para esses gêneros. Contudo, pode ser aplicado para estes em diferentes biomas. Vale ressaltar que os modelos contemplam os dois gêneros que respondem por mais de 90% da produção florestal plantada no Brasil.

O desenvolvimento considerou um conjunto amplo de condições (27 locais de diferentes regiões do país) e variáveis ambientais (incluindo clima por Köppen, precipitação e temperatura), o que reforça a robustez dentro do escopo apresentado (florestas plantadas de eucalipto e pinus).

Mundo Agro: Qual é o impacto dessa maior precisão para os inventários de emissões no Brasil?

Gabriela Gonçalves Moreira Matzner: A mudança tem impacto direto nos inventários de carbono usados por empresas e até por governos, ao trocar valores genéricos por fórmulas calibradas com dados reais.

Além de ganho de precisão, fortalecer a qualidade técnica dos inventários, aumentando a confiabilidade das estimativas de remoções e contribuindo para maior transparência dos reportes, há impacto positivo também no desenvolvimento de planos e estratégias climáticas mais precisos e baseados na ciência.

E, no contexto mais amplo discutido pela própria Bracell em outubro de 2025 (no seminário “Bracell 2030 – O Brasil na vanguarda do clima”), a precisão e a qualidade de dados são coerentes com o debate sobre como o Brasil pode liderar a agenda climática global com base em ciência, inovação e bioindústria.

Mundo Agro: Como a Bracell incorporou esses novos modelos aos seus inventários de GEE?

Gabriela Gonçalves Moreira Matzner: A incorporação de avanços científicos às práticas da empresa é um princípio consolidado em sua atuação. Neste estudo, a Bracell não apenas contribuiu com dados essenciais, como também participou do desenvolvimento dos modelos utilizados. Por isso, a aplicação dos resultados ao Inventário de Gases de Efeito Estufa ocorreu de forma natural e imediata. Sempre que uma nova metodologia é validada, a equipe de Pesquisa e Desenvolvimento trabalha para que ela seja adotada como padrão pelas áreas parceiras.

Mundo Agro: Que mudanças práticas essa adoção trouxe para a gestão florestal da empresa?

Gabriela Gonçalves Moreira Matzner: O que antes era uma estimativa genérica passou a ser um cálculo técnico mais preciso, permitindo relatar com mais responsabilidade as emissões e remoções florestais. Essa melhoria fortalece a credibilidade dos números apresentados e qualifica o planejamento florestal.

Não se trata apenas de um inventário. A mudança tem reflexos práticos em áreas como planejamento, certificação e acesso a crédito, ao oferecer uma base técnica mais robusta para decisões e reportes que dependem desses dados.

Mundo Agro: A nova metodologia altera metas ou compromissos climáticos já estabelecidos?

Gabriela Gonçalves Moreira Matzner: Não. A atualização da metodologia pode alterar os resultados estimados, mas não muda as estratégias de descarbonização nem os compromissos climáticos já assumidos. As metas permanecem as mesmas.

Mundo Agro: Há impactos diretos na estratégia de descarbonização da companhia?

Gabriela Gonçalves Moreira Matzner: Embora a mudança na metodologia influencie os resultados obtidos, as estratégias de descarbonização permanecem as mesmas. Os compromissos assumidos pela empresa seguem inalterados.

Mundo Agro: O Brasil pode se tornar referência internacional nesse tipo de modelagem?

Gabriela Gonçalves Moreira Matzner: O setor florestal brasileiro tem um longo histórico de cooperação com universidades e centros de pesquisa. Mesmo competindo no mercado, as empresas do setor compreenderam, ainda décadas atrás, que a atuação coordenada em pesquisas estratégicas traz ganhos coletivos e fortalece toda a cadeia produtiva. Este estudo é um dos diversos resultados gerados por esse modelo de cooperação, que continua produzindo novos avanços científicos.

Os modelos discutidos fazem parte de uma pesquisa brasileira publicada na revista Global Change Biology, referência internacional na área. O trabalho representa um avanço relevante tanto para o setor florestal quanto para a agenda climática do Brasil.

Mundo Agro: Quais são os próximos passos da empresa para aprimorar ainda mais a mensuração de carbono?

Gabriela Gonçalves Moreira Matzner: Investir em pesquisas voltadas à sustentabilidade faz parte da essência da Bracell, com destaque para os estudos sobre gases de efeito estufa. Como próximos passos, a empresa segue aprimorando as estimativas de biomassa e carbono por meio de métodos já consolidados, ao mesmo tempo em que avalia novas tecnologias. Entre elas estão o uso de torres de fluxo para entender como o clima influencia o sequestro de carbono e a utilização de sensores LiDAR, que podem tornar essas medições mais ágeis e menos custosas.

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