Mesmo com a alta do cacau, a indústria de chocolates apostou na diversificação de receitas e brindes para atrair os consumidores
Para atender a essa demanda, a produção de chocolates começa com um ano de antecedência e envolve estratégias bem planejadas para lançar novos produtos

Eu sempre lembro que as grandes promoções de chocolate aconteciam no domingo de Páscoa. Era o melhor dia para encontrar ofertas e, assim, fazer a alegria da criançada. A grande aposta da indústria era nessa data. Eu tinha amigos que trabalhavam em fábricas de chocolate e, para eles, parecia dia de campeonato.
Hoje me deparei com promoções de várias marcas. Mas já é segunda-feira, feriado, 21 de abril. Sim, aquelas do tipo: “compre um e leve dois”.
Tive a oportunidade de conhecer algumas das novidades dos chocolates e percebi que os preços estavam bem acima do que costumamos encontrar. Mas ninguém ficou sem um para saborear ou presentear.
O chocolate passou a ser o mimo ideal. Ele alegra, conforta e adoça qualquer um. E os brasileiros consomem, em média, 3,9 kg de chocolate por ano, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab).
Apesar de ter sido um momento desafiador para a indústria, todo mundo se reinventou para não deixar a data passar em branco.
E todo dia é dia de chocolate.
Conversei com Leopoldo Jereissati, fundador da All Set Comunicação e com Américo José, sócio-diretor da Cherto Consultoria, sobre a previsão de vendas do mercado neste período.

Mundo Agro: A previsão de vendas do setor para esse período? Será melhor ou pior do que 2024?
Américo José: A previsão de vendas do setor para esse período tende a ser pior do que em 2024, principalmente por causa de alguns fatores como: o aumento expressivo no custo do cacau, causado por problemas climáticos e pragas nas plantações; oferta menor diante de uma demanda crescente, o que pressiona ainda mais os preços; a alta nos custos de produção e logística, como frete e energia, além da variação cambial e especulação financeira, que impulsiona os preços ainda mais rapidamente. Apesar do consumo global de chocolate continuar em alta, esses aumentos podem afetar negativamente o volume de vendas, especialmente em mercados mais sensíveis ao preço, pois os consumidores podem reduzir a compra ou buscar alternativas mais baratas. Portanto, a expectativa é de um cenário mais desafiador para o setor em comparação a 2024.

Mundo Agro: Quando a indústria prepara a Páscoa - geralmente com muita antecedência- ainda não tinha influência do preço do cacau, ou já?
Leopoldo Jereissati: A indústria começa a planejar a produção dos ovos de Páscoa em agosto do ano anterior. É um processo que envolve maquinário caro e específico. Você precisa de embalagens especiais, tem o custo de armazenagem, já que o ovo ocupa bastante espaço... É um custo logístico elevado. E aí, além de todos esses desafios naturais da produção dos ovos de Páscoa, você ainda tem a questão do aumento no custo dos insumos. Então, dá pra dizer que, não só o preço do cacau, mas todos os outros componentes já eram uma preocupação da indústria naquele momento.
Mundo Agro: O consumidor não costuma deixar passar em branco essa época do ano, em que mais se vende e se consome chocolate. Quais foram as estratégias da indústria para atrair o público? Ovos com brinquedos, caixas personalizadas, barras?
Leopoldo Jereissati: É, essa é uma época de alto consumo de chocolates. As caixas de bombons continuam sendo uma alternativa popular, assim como os chocolates caseiros, que crescem bastante. As principais estratégias das marcas têm muito a ver com nostalgia. A Páscoa remete à infância, então os adultos que hoje têm poder de compra – os shoppers – são impactados por essa lembrança afetiva. As marcas trabalham bastante isso, porque faz com que o adulto “volte a ser criança” e insista na compra do ovo de Páscoa. Também há os colecionáveis e brindes, que são sempre populares. Mas, honestamente, é difícil para a indústria equilibrar o custo do brinde com o valor do produto. Se o brinde for muito legal, o custo final sobe demais. É um dilema recorrente para as empresas. Tem também uma tendência muito forte de collabs – parcerias com outras marcas para criar produtos diferentes e chamar a atenção do consumidor de uma forma nova. E fora das grandes indústrias, tem muita coisa acontecendo nas produções artesanais e locais: formatos criativos, pirulitos de chocolate, produtos decorados... Tudo com uma pegada mais gourmet, com cara de Instagram. Isso está vendendo bastante também. É uma forma eficiente de girar o produto nessa época.
Mundo Agro: Nesta época, quem deve se sair bem? Aquele que oferecer o melhor preço, brinde?
Leopoldo Jereissati: Na prática, acredito que são as grandes indústrias que acabam se destacando. Elas têm mais fôlego de caixa, mais planejamento, mais estoque, maior escala e melhor distribuição. Nessa hora, o peso da “máquina” faz diferença. Especialmente em momentos difíceis de negociação, são essas empresas que conseguem facilitar o abastecimento do varejo. Então eu apostaria nas grandes, sim. E nas marcas tradicionais – Nestlé, Mondelez, entre outras – que tendem a liderar as vendas. Agora, também aposto nas marcas licenciadas. Tem uma estratégia que eu até esqueci de comentar antes: o uso de licenças. A indústria apostou nos personagens do momento – aqueles desenhos que as crianças estão assistindo. Isso sempre vende muito bem e continua sendo uma tática eficaz. No fim das contas, a ideia é conquistar o shopper por alguma afinidade: ele consome aquele conteúdo, assiste com os filhos, quer presentear com algo que tenha esse vínculo emocional. E tem também um aspecto que pesa bastante: a indulgência. A Páscoa é aquele momento do ano em que até quem passa os outros 364 dias seguindo dieta, resolve se permitir. É quando a pessoa pensa: “Vou me jogar nesse ovo recheado com metade de um pote de Nutella!” – e esses ovos super recheados fazem muito sucesso.
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