Recuperar uvas raras pode ser chave para o futuro da viticultura
Projeto no Dão resgata castas quase extintas e reforça identidade do vinho português

A recuperação de castas raras vem ganhando espaço como estratégia para preservar a identidade da viticultura e enfrentar os desafios das mudanças climáticas.
Em Portugal, um projeto desenvolvido pela vinícola Pedra Cancela, na região do Dão, busca resgatar variedades de uvas praticamente desaparecidas dos vinhedos.
A enóloga Sónia Martins, da Pedra Cancela, conduziu em São Paulo uma degustação exclusiva de rótulos da Pedra Cancela e da Vinha da Fidalga, com apoio da importadora TDP Wines. Durante o evento, ela destacou como pesquisas genéticas, estudos agronômicos e conhecimento científico têm permitido recuperar castas históricas e abrir novos caminhos para o vinho português, unindo tradição e inovação.
Em entrevista exclusiva ao Mundo Agro, Sónia Martins explicou detalhadamente o processo de recuperação dessas variedades raras e o potencial que elas trazem para o futuro da vitivinicultura portuguesa.

Mundo Agro: O que motivou o projeto de recuperação de castas raras na Vinha da Fidalga e como foi o início dessa pesquisa?
Sónia Martins: Procurar uvas que melhor se adaptem às alterações climáticas, principalmente aumento de temperatura mundial, para que possamos manter a frescura e características dos vinhos do Dão.
Recuperar as castas que ouvíamos falar que existiam na região na década de 50 e 60, mas que não existiam vinhos comerciais dessas uvas.
Mundo Agro: Como vocês identificam e confirmam geneticamente variedades de uvas consideradas quase extintas?
Sónia Martins: Através de um protocolo com o Eng. Amandio Cruz, douturado pelo ISA, fazendo estudos ampelográficos das diferentes castas.
Mundo Agro: Quais foram os maiores desafios agronômicos ao reintroduzir essas castas antigas nos vinhedos?
Sónia Martins: Uma vez que não existem informações sobre o tipo de solo, poda, etc é mais adequada a cada uma, tivemos de partir para praticas culturais mais abrangentes e nos anos seguintes adaptar a cada uma das uvas, principalmente no que diz respeito a tipo de poda e condução da videira. Optando no inicio por poda longa, não sabendo qual seria a zona de frutificação em cada uma das castas.
Mundo Agro: Existe diferença no comportamento dessas variedades no campo em comparação com castas mais modernas?
Sónia Martins: Sim, nas tintas todas com menos álcool e menos concentração de cor.
Nas brancas todas com maior acidez total natural e teores alcoólicos entre os 11,5 – 12,5% vol.
Em todas as variedades, produções por ha inferiores às variedades tradicionais.
Mundo Agro: Na sua visão, o resgate de uvas antigas pode ser uma estratégia para enfrentar mudanças climáticas na viticultura?
Sónia Martins: Claramente, foi esse um dos objetivos,
Mundo Agro: O que o terroir de regiões como Dão, Bairrada e Alto Alentejo revela quando se trabalha com castas menos exploradas?
Sónia Martins: Conhecemos neste momento mais profundamente o Dão, estas variedades pretendem “resgatar” a identidade das regiões, que neste caso hoje está muito focada em3,4 variedades brancas e 4/5 variedades brancas. Procurar diversidade e identidade para acrescentar valor.
Mundo Agro: Como a tecnologia moderna pode ajudar a reinterpretar tradições vitivinícolas centenárias?
Sónia Martins: Acima de tudo diria que mais que a tecnologia, o conhecimento cientifico da viticultura nos permite resgatar este tipo de uvas e perceber melhor as nossas raízes vitícolas.
Mundo Agro: Há características agronômicas específicas das castas resgatadas que favorecem sustentabilidade no vinhedo?
Sónia Martins: Sim, pela escacasse de material vegetativo fomos obrigados a fazer a “construção” da plana no local – enxertia no terreno. Esta prática atrasa a produção da uva, mas garante que a planta está melhor preparada para períodos mais longos de seca pois as raízes da plantas estão mais profundas. Não dependem também de rega.
A sustentabilidade financeira deve ser vista pelo lado da diferenciação, uma que vez que são uvas de produção média.
Mundo Agro: Existe espaço para essas castas raras ganharem escala ou elas devem permanecer como produções limitadas?
Sónia Martins: A maioria servirá para corte com outras uvas já existentes, uma espécie de “sal e pimenta” para acrescentar aos vinhos já existentes.
Outras como a Uva Cão, a Douradinha por exemplo podem ser um dia as novas variedades diferenciadoras do dão.
Mundo Agro: De que forma iniciativas como a linha “Castas Únicas” ajudam a diferenciar o vinho português no mercado internacional?
Sónia Martins: Na nossa visão Portugal não deve, nem pode ser visto como um país de vinhos de volume, porque não temos dimensão para isso. Portanto procurar esta diferenciação vai ajudar certamente a dar uma visão diferente da Região do Dão ainda com muito potencial para desenvolver-
Mundo Agro: Qual foi a descoberta mais surpreendente durante o trabalho de recuperação dessas uvas?
Sónia Martins: Algumas uvas com potencial de envelhecimento imenso e outras com perfil diferente dos vinhos atuais da região.
Mundo Agro: Como equilibrar tradição e inovação na criação de novos rótulos?
Sónia Martins: Esse é um dos maiores desafios, incorporar a inovação, nunca esquecendo as raízes/tradições e características principais da região – elegância e frescura.
Mundo Agro: Entre as castas recuperadas, qual mais a surpreendeu em termos de qualidade enológica?
Sónia Martins: Douradinha, pela elegância e poder de envelhecimento
Uva Cão, pela diferenciação aromática com notas de iodo e complexidade
Coração de Galo (tinto), pela elegância e docura dos taninos que apresenta.
Mundo Agro: Como a experiência no campo influencia as decisões dentro da vinícola?
Sónia Martins: Estes vinhos foram todos vinificados em Inox, com utilização de leveduras comerciais neutras de forma a conseguirmos ter no vinho a expressão mais clara da variedade.
Mundo Agro: O resgate de castas antigas é uma tendência crescente no mundo do vinho?
Sónia Martins: Imagino que sim, estamos a iniciar agora um projeto do gênero na Bairrada para resgater uvas antigas com potencial.
Mundo Agro: Existem outras variedades portuguesas esquecidas que ainda podem voltar aos vinhedos? Como projetos como esse ajudam a preservar patrimônio agrícola e cultural?
Sónia Martins: Este projeto desenvolvido por uma empresa privada, tem como um dos objetivos também chamar a atenção para outros produtores para defesa do patrimônio vitivinícola que ´´e riquíssimo em Portugal.
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