Lagarta-do-cartucho volta a ser um dos principais desafios da agricultura no Brasil
Alta adaptabilidade da praga pressiona culturas como milho, soja e algodão
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Presente nas principais regiões produtoras do país, a lagarta-do-cartucho voltou a pressionar culturas estratégicas como milho, soja e algodão. A perda de eficácia de parte das tecnologias tradicionais reacendeu o debate sobre novas soluções.
Em entrevista exclusiva ao blog, Ana Dulce, coordenadora de Pesquisa e Desenvolvimento da Vitalforce, explicou como o RNAi pode reforçar o manejo integrado e reduzir perdas nas lavouras.

Mundo Agro: Por que a lagarta-do-cartucho voltou a ser um dos principais desafios no manejo agrícola no Brasil?
Ana Dulce: A lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) voltou a ser um dos principais desafios no manejo agrícola no Brasil por uma combinação de fatores biológicos, agronômicos e de práticas de controle que tornaram seu manejo mais complexo e menos eficaz que no passado. Aqui estão os principais motivos resumidos e embasados em fontes recentes:
- Alta capacidade adaptativa e resistência: a lagarta-do-cartucho é uma espécie altamente adaptável, com rápido desenvolvimento de resistência às estratégias de controle tradicional, incluindo inseticidas químicos e híbridos transgênicos Bt (cultivares que expressam toxinas de Bacillus thuringiensis). Essa resistência reduz a eficácia dos materiais Bt que foram, historicamente, uma das principais ferramentas de manejo, permitindo às populações da praga sobreviverem e proliferarem mesmo em campos com tecnologia transgênica.
- Ciclo agrícola e ambiente favorável: o clima tropical do Brasil, com duas ou mais safras por ano, cria um mosaico contínuo de culturas hospedeiras (milho, soja, algodão, braquiária e outras) que permitem à praga manter populações elevadas o ano inteiro, sem períodos de “interrupção” biológica. Condições climáticas, como altas temperaturas, aceleram o ciclo de vida da lagarta, aumentando a pressão de infestação.
- Grande variedade de hospedeiros: a lagarta-do-cartucho é polífaga, alimentando-se de muitas culturas além do milho (soja, algodão, arroz, sorgo, etc.), o que contribui para sua sobrevivência e disseminação em diferentes sistemas produtivos.
- Práticas de manejo inadequadas: em muitos casos, o monitoramento prévio é insuficiente ou fora de tempo, o que compromete a atuação no momento certo contra a praga. A ausência de áreas de refúgio (plantio de cultivares suscetíveis ao lado de Bt) e uso inadequado de inseticidas aceleram a seleção de populações resistentes.
- Importância econômica elevada: os danos provocados podem ser severos — especialmente quando a lagarta ataca o cartucho do milho perto do florescimento —, gerando perdas de produtividade substanciais e impacto econômico direto para os produtores
Mundo Agro: O que mudou nos últimos anos em relação à eficácia dos inseticidas e eventos biotecnológicos?
Ana Dulce: Nos últimos anos aconteceram mudanças significativas na eficácia dos inseticidas sintéticos e dos eventos biotecnológicos usados no controle de Spodoptera frugiperda que impactam diretamente o manejo dessa praga no Brasil e em outras regiões agrícolas.
Dentre elas: a resistência aos eventos biotecnológicos Bt, ou seja, a aquisição de resistência de S. frugiperda as cultivares que continham as proteínas Bt individuais Cry1F e Cry1Ab, tornando esses eventos menos eficazes no campo.
Essa evolução já foi documentada em várias regiões, incluindo Brasil e demais países das Américas. Essa resistência está associada a alterações genéticas que reduzem a ligação das toxinas Bt ao epitélio intestinal da lagarta (ex.: mutações no gene receptor ABCC2), tornando a praga menos sensível e reduzindo assim a taxa de mortalidade mesmo em plantas Bt.
O uso intensivo de inseticidas com modos de ação similares ao longo de várias safras também tem selecionado populações de S. frugiperda com resistência significativa a diversos produtos, dentre eles os lambda-cialotrina e outros piretroides, imidacloprido e alguns neonicotinoides, diamidas (um dos grupos mais usados hoje no milho) e bloqueadores de canais de sódio.
A pressão seletiva contínua de um mesmo grupo de inseticidas ou proteínas Bt favorece a sobrevivência de indivíduos com mutações resistentes que então se proliferam nas gerações seguintes.
Mundo Agro: Em quais culturas e regiões o problema hoje é mais crítico?
Ana Dulce: Hoje, Spodoptera frugiperda é um problema generalizado no Brasil, mas sua criticidade varia conforme a cultura, o sistema de produção e a região. Para o milho, cultura mais crítica, as principais regiões são: o Centro-Oeste (MT, GO, MS), MATOPIBA (MA, TO, PI, BA) e Sul (PR, RS); para soja, a região do Centro-Oeste (MT, GO, MS), MATOPIBA (MA, TO, PI, BA )e Oeste da Bahia; para o algodão, a região do Mato Grosso, Oeste da Bahia e Mato Grosso do Sul; e para o sorgo, o Nordeste e Centro-Oeste.
Mundo Agro: O que é a tecnologia de RNA de interferência (RNAi) e como ela atua no controle da Spodoptera frugiperda?
Ana Dulce: A tecnologia de RNA de interferência (RNAi) é uma ferramenta biotecnológica baseada no silenciamento específico de genes essenciais do inseto, representando um novo paradigma no controle de pragas como Spodoptera frugiperda, especialmente diante do avanço da resistência a inseticidas e proteínas Bt.
Em termos simples, o RNAi “desliga” genes críticos do inseto, levando à sua morte ou incapacidade de se desenvolver. O inseto ingere RNA dupla fita específico via planta, bioinseticida ou formulação, uma enzima chamada Dicer fragmenta o dsRNA em pequenos RNAs interferentes (siRNA).
Esses siRNAs são incorporados ao complexo RISC (RNA-Induced Silencing Complex), por fim, o RISC reconhece o RNA mensageiro (mRNA) do gene-alvo e o degrada. O gene então deixa de ser expresso, resultando em uma falha fisiológica, morte, atraso de desenvolvimento ou esterilidade.
No caso de S. frugiperda, os dsRNAs geralmente são desenhados para genes essenciais, como para Digestão (proteases, quitinases), Formação do exoesqueleto, Transporte iônico e metabolismo energético, Regulação hormonal (ecdise, muda).
Sem a expressão desses genes, a lagarta para de se alimentar, não completa o seu desenvolvimento e morre em poucos dias.

Mundo Agro: Em que o RNAi se diferencia dos inseticidas químicos e das biotecnologias atualmente disponíveis?
Ana Dulce: O RNAi se diferencia de forma estrutural e funcional tanto dos inseticidas químicos quanto das biotecnologias hoje disponíveis (especialmente Bt).
Enquanto os inseticidas químicos atuam sobre alvos fisiológicos conservados (sistema nervoso, muscular, respiratório), o RNAi atua no nível molecular (expressão gênica), silenciando genes específicos essenciais à sobrevivência da praga. Ou seja, inseticidas interferem na função, o RNAi impede que a função sequer seja produzida.
Ademais, os inseticidas possuem baixa a moderada especificidade, afetando também os organismos não-alvo (inimigos naturais, polinizadores). Já o RNAi possui altíssima especificidade (sequência gênica exclusiva da espécie), impacto mínimo sobre organismos benéficos.
Em relação às biotecnologias atualmente disponíveis, o RNAi se destaca, pois as moléculas de RNA silenciam genes internos do inseto, enquanto as proteínas tóxicas perfuram o epitélio intestinal da lagarta. Ou seja, o Bt mata por toxicidade direta, o RNAi mata por falha fisiológica sistêmica.
Mundo Agro: Em que estágio o projeto se encontra atualmente?
Ana Dulce: Atualmente, o projeto está em uma fase de pesquisa e desenvolvimento, focada em entender com profundidade como os genes da Spodoptera frugiperda se comportam ao longo dos seus diferentes estágios de desenvolvimento. Esse conhecimento é fundamental porque permite identificar exatamente quais genes são essenciais para a sobrevivência da lagarta em cada fase.
A partir dessas informações, conseguimos fazer o design sob medida das moléculas de RNA, garantindo maior precisão e eficiência no controle da praga.
Na sequência, o projeto avança para os primeiros testes de eficiência em laboratório, onde essas moléculas serão avaliadas quanto à sua capacidade de controlar a lagarta de forma eficaz e segura. Em resumo, estamos construindo uma base científica sólida para entregar uma solução altamente específica, eficiente e sustentável, com foco em resultados consistentes no campo.
Mundo Agro: Quais são os principais desafios científicos nesta fase inicial?
Ana Dulce: Nesta fase inicial do projeto, os principais desafios científicos estão ligados a transformar uma tecnologia inovadora em uma solução viável, eficiente e prática para uso no campo. Um dos primeiros desafios é produzir as moléculas de RNA de forma econômica, garantindo que a tecnologia seja acessível e competitiva para o produtor rural.
Além disso, é fundamental alcançar a estabilidade dessas moléculas, para que elas mantenham sua eficiência desde a produção, passando pelo armazenamento, até a aplicação no campo.
Outro ponto importante é a clareza regulatória. Como se trata de uma tecnologia nova, é essencial avançar no entendimento dos requisitos regulatórios, assegurando que o desenvolvimento siga todas as normas de segurança e possa chegar ao mercado de forma transparente e confiável.
Em resumo, o foco neste momento é unir ciência, viabilidade econômica e segurança regulatória, preparando o caminho para uma tecnologia robusta e aplicável à realidade da agricultura.
Mundo Agro: Que tipo de resultados os testes laboratoriais já indicam, mesmo que preliminarmente?
Ana Dulce: Mesmo em fase inicial, os testes de desenvolvimento já trazem sinais bastante positivos para a tecnologia. Os primeiros resultados indicam a robustez e a flexibilidade dos algoritmos proprietários da Bsafe, que permitem projetar moléculas de RNA utilizando diferentes parâmetros técnicos.
Isso possibilita selecionar, de forma rápida e precisa, as moléculas mais promissoras, aumentando as chances de alta eficiência no controle da praga desde as etapas iniciais do desenvolvimento.
Outro avanço importante é a definição de uma rota tecnológica de produção econômica, que permite que o produto final seja classificado como não GMO, além de apresentar estabilidade ao longo do tempo.
Essa combinação é estratégica tanto do ponto de vista regulatório quanto operacional, garantindo viabilidade comercial, segurança e facilidade de uso no futuro.
Em resumo, os resultados preliminares mostram que a base tecnológica é sólida, escalável e alinhada às exigências do mercado, abrindo caminho para os próximos testes de eficiência em laboratório e, posteriormente, no campo.
Mundo Agro: Quando devem começar as validações em campo?
Ana Dulce: Os testes de validação em campo estão previstos para iniciar em janeiro de 2028.
Mundo Agro: Como a resistência da lagarta-do-cartucho impacta o manejo integrado de pragas hoje?
Ana Dulce: A resistência da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) é hoje um dos maiores desafios do Manejo Integrado de Pragas (MIP) no Brasil. Em muitas regiões, já se observa redução de eficiência tanto de inseticidas químicos quanto de biotecnologias Bt, o que obriga o produtor a aumentar o número de aplicações, elevar custos e, muitas vezes, assumir maior risco produtivo.
Esse cenário pressiona o MIP, que depende da diversificação de ferramentas de controle. Quando poucas tecnologias continuam funcionando, o sistema fica desequilibrado, acelerando ainda mais o surgimento de novas resistências e reduzindo a sustentabilidade do manejo ao longo do tempo.
Mundo Agro: O RNAi pode ajudar a contornar ou retardar novos casos de resistência?
Ana Dulce: Sim. O RNAi tem um papel estratégico no enfrentamento da resistência porque atua por um mecanismo de ação totalmente diferente das tecnologias atualmente disponíveis.
Enquanto inseticidas químicos e proteínas Bt agem de forma mais ampla, o RNAi atua diretamente em genes específicos da praga, escolhidos de forma precisa. Isso reduz a pressão seletiva sobre os mesmos alvos biológicos usados hoje e torna o desenvolvimento de resistência mais lento e mais difícil.
Além disso, o RNAi pode ser usado de forma complementar dentro do MIP, alternando ou combinando com outras ferramentas, ajudando a preservar a eficiência das tecnologias existentes e aumentar a vida útil do manejo como um todo.
Mundo Agro: Qual o papel dos bioinsumos no futuro da proteção de cultivos no Brasil?
Ana Dulce: Os bioinsumos já são uma realidade e tendem a ter um papel cada vez mais estratégico na proteção de cultivos no Brasil. O país reúne condições únicas — clima, área cultivada e base tecnológica — que favorecem a adoção de soluções biológicas, sustentáveis e de alta precisão.
Além de atender às demandas ambientais e regulatórias, os bioinsumos ajudam o produtor a diversificar o manejo, reduzir resíduos, melhorar a imagem da produção agrícola e acessar mercados mais exigentes. Além dos microrganismos já conhecidos, como fungos e bactérias, uma nova geração de tecnologias vem ganhando espaço.
Entre elas estão soluções baseadas em RNA de interferência (RNAi), peptídeos bioativos, metabólitos naturais e até bacteriófagos, que oferecem mecanismos de ação mais específicos e complementares entre si.
Mundo Agro: Como essa inovação pode contribuir para a competitividade do agronegócio brasileiro?
Ana Dulce: O RNA de interferência (RNAi) é inovação na prática. Ele muda a forma como o agricultor enfrenta as pragas, trazendo uma tecnologia mais inteligente e precisa para um problema que vem se tornando cada vez mais difícil de resolver com as ferramentas tradicionais.
O RNAi atua diretamente no ponto certo da praga, ajudando a reduzir perdas, trazer mais segurança ao manejo e dar previsibilidade à lavoura. É esse tipo de inovação que coloca o agronegócio brasileiro na frente, unindo produtividade, sustentabilidade e visão de futuro no campo.
Mundo Agro: O RNAi pode abrir caminho para novas aplicações em outras pragas?
Ana Dulce: Sim. O RNAi abre caminho para novas aplicações em uma ampla gama de pragas, indo muito além de Spodoptera frugiperda. Na prática, ele estabelece uma plataforma tecnológica, não um produto pontual, com capacidade de adaptação rápida a diferentes alvos biológicos. O RNAi é um mecanismo conservado em praticamente todos os eucariotos. Sendo assim, a lógica de silenciamento gênico é a mesma, independentemente da praga, mudando apenas o alvo (gene), não o princípio da tecnologia.
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