A despedida do governador Montoro

A ideia se tornou realidade e, por telefone, Montoro conversou com o jovem mesmo estando apressado, para a satisfação de Ximenes, o editor

  • Nosso Mundo | Eugenio Goussinsky, do R7

Jornal do Brasil era muito lido na época

Jornal do Brasil era muito lido na época

Eugenio Goussinsky/R7

Entrei na sucursal do Jornal do Brasil disposto a surpreender. Estava no começo da minha carreira em grande imprensa. Tinha de fazer jus à confiança que o meu chefe e ex-colega de faculdade, Antônio Ximenes, depositou em mim, ao me chamar para uma vaga, após eu insistir sem ter muito o que apresentar.

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Ximenes era um cara diferente do padrão engessado que muitas vezes se vê no jornalismo.

Tinha um quê de artista, de filósofo, que alguns não conseguiam compreender. Ele percebia, mas não deixava de manter seu jeito autêntico, aberto, de fala mansa e rápida, com um sorriso estampado no rosto volumoso e barbudo.

Generoso, ele não se rendeu às aparências do poder que tinha no momento. Fez prevalecer uma visão mais humana, e menos pernóstica, da profissão.

Foi assim que ele se mostrou no exato instante em que, naquele dia, após eu entrar com aquele objetivo de causar impacto, me dirigi ao seu "aquário" exalando satisfação.

Eu havia conseguido entrevistar o governador paulista André Franco Montoro, então deputado federal, por telefone.

Logo que cheguei, andando apressado pelo terraço do Conjunto Nacional, onde ficava a sucursal, já pensava no nome de Montoro.

Seria ele a minha carta na manga. Sabia que se tratava de um senhor compreensivo, acessível e democrático.

Médico de excelência, meu pai, Miguel, sempre o elogiou, dizendo que fora Montoro, formado em Direito na São Francisco, o único governador que concedeu aumentos reais aos servidores da saúde.

Sentei na mesinha lateral, em uma pequena sala que ainda não era a minha e liguei para a esposa de um amigo, que trabalhava no PSDB.

Consegui o número e, em instantes, estava na linha, falando com a dona Lucy, esposa de Montoro.

Ouvia a dona Lucy e me sentia conversando com familiares, tamanha a espontaneidade dela. Isso numa época na qual falar com alguém famoso era bem mais simples: "ele está com pressa, meu filho, mas vai atender. André... telefone!".

Montoro veio, me apresentei. Ele, placidamente, disse-me que estava de saída para uma viagem ao México, onde iria participar de uma reunião de entidade latino-americana.

Mas falou sobre a união PSDB e PFL, mostrando-se conformado com algo que outrora criticava. A necessidade do governo do então presidente Fernando Henrique ter sustentação parlamentar com a aliança.

Eu ia escutando e imaginando a sua feição de traços longos e suaves, olhinhos intensos, em semblante que me lembrava o do meu tio, também chamado Miguel.

Então nos despedimos, depois de eu lhe desejar boa viagem e agradecer pela educação.

Quando entrei na sala do Ximenes com a novidade, foi um estardalhaço. Ele ligou para o Rio, falando da exclusiva, e me ajudou a escrever o texto.

Depois soube que a diretoria do jornal queria há tempos entrevistá-lo e eu, por acaso, havia conseguido o que eles desejavam.

A matéria saiu com o seguinte título: "Montoro destaca aliança com o PFL". Foi abre de página.

No dia seguinte, fui a uma coletiva em um escritório da Fiat, na República do Líbano. Estava leve e orgulhoso. Para não dizer vaidoso. Coisa de iniciante. Assistia à explanação do diretor da empresa quando o celular-tijolo toca.

Era o Ximenes. Em uma época em que a notícia não corria tão rápido, sem internet.

"Vá direto para o Palácio dos Bandeirantes. O Montoro morreu, teve um infarto no aeroporto, minutos antes de embarcar. O velório vai ser na sede do governo. Você o entrevistou, fica com a cobertura".

Peguei um táxi. Foi difícil pensar na situação. A alegria deu lugar a uma melancolia a lhe apontar a realidade, de como somos pequenos em nossa ilusão de abraçar o universo. Raul Seixas bem disse: "eu sou o tudo e o nada".

No saguão principal lotado de autoridades, admiradores e jornalistas, me encontrei com o Francisco Carvalho, um experiente jornalista do JB, mais velho, que veio para contrabalançar a minha inexperiência. De coração puro, era outra aposta do Ximenes.

Ficamos horas por lá, entre obras de arte e objetos decorativos e a minha sensação de vazio, logo após a euforia da vitória no dia anterior.

A sensação da onipotência deu lugar a um vislumbre da humildade, sentimento tão presente, por exemplo, em Montoro, que teve a gentileza de me dar aquela entrevista mesmo envolto em tantos outros compromissos.

Como vereador do PDC; deputado estadual; Ministro do Trabalho; fundador do MDB; senador; governador; líder da campanha pelas Diretas; fundador do PSDB e deputado, entre outras coisas, suas últimas palavras em público foram desembocar justamente em mim, um iniciante. Era um misto de orgulho e responsabilidade.

A história logo se espalhou pelo saguão, afinal, sabiam que eu era do JB, um jornal muito lido na época. E uma repórter da TV quis me entrevistar, como o último jornalista a ter conversado com Montoro.

A pureza de Francisco Carvalho, no entanto, não anulava a sua astúcia. O bom jornalista, então, me chamou de lado e aconselhou: "Não fala nada, você pode ficar marcado como pé-frio".

Francisco tinha razão. Recusei o pedido. E o velório prosseguiu, com o foco sendo desviado para as muitas autoridades.

Por anos fiquei com receio de ser tachado. Mas, hoje, depois de ter entrevistado muita gente e ninguém mais ter morrido, já me permito contar essa história. Por tudo o que eu aprendi após meus arroubos de vaidade juvenil.

Não sou eu, afinal, quem escreve esse breve conto.

Foram o Ximenes (ainda na ativa), o Montoro, a dona Lucy, o Francisco (não soube mais dele), a esposa do meu amigo, o meu tio, o meu pai que construíram essas linhas, cada um com um ensinamento. Um gesto gentil.

É...o jornalista não passa mesmo de um servidor do público. A vida ensina isso. Ensina também que, nem sempre, as últimas palavras significam o fim. Para mim, por exemplo, foram o início de tudo.

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