Nosso Mundo Barça ensina que gratidão é o mais importante sentimento humano

Barça ensina que gratidão é o mais importante sentimento humano

Como um analista, clube ajuda os jogadores a abrirem a própria mente para os valores mais importantes e a gratidão reúne todos eles

Clube busca formar o jogador como um todo

Clube busca formar o jogador como um todo

Alberto Estevez/EFE/28-05-11

Um médico bom sempre se preocupa com o organismo do paciente como um todo. Não apenas com a sua especialidade. Um bom clube de futebol também.

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Forma o jogador não apenas para ele atuar no futebol, mas para que saiba conviver e contribuir com a sociedade.

Formado em medicina, meu analista tem essa preocupação. Sabe, seguindo aquela velha máxima, que uma mente sã é base para um corpo são.

E, cobrando um valor muitíssimo abaixo do mercado, escuta com paciência as minhas esquisitices, fragilidades, expectativas, buscando insistentemente que, no todo, de todas essas intermináveis sessões, possa emergir plenamente a minha identidade. Que é o meu melhor instrumento, a regra e o compasso de Gilberto Gil.

Como falo muito de futebol com ele, outro dia pensei que seu consultório, com um aquário bem incrementado ao fundo, atrás da escrivaninha, ao lado de uma estante de livros que sobe até o teto, bem poderia ser um Camp Nou em minha vida.

Naquele palco, deitado no divã e olhando o céu se encaixar por entre prédios da 23 de maio, sou desafiado a driblar bloqueios internos, árbitros mal-intencionados, adversário violentos, xingamento dos que torcem contra, cobranças injustas dos que dizem torcer a favor e que, se eu permitir, e muitas vezes permito, acabam trabalhando contra o próprio time.

Lembrei-me do Camp Nou porque, como símbolo maior do Barcelona, o estádio exprime também uma identidade.

Forjada em anos de sofrimento, perseguições, principalmente nos tempos franquistas. Para, acima de todas as esquisitices humanas, inerentes inclusive aos próprios barcelonistas, prevalecer o lema: Més que un club. Mais que um clube.

A partir, principalmente dos anos 2000, o clube, independentemente desta questão pontual com Messi, finalmente amadureceu esta identidade. 

Joseph Freud, sobrinho-neto do lendário Sigmund, mora em Barcelona e, como psicalanista especializado em formação de crianças e jovens, já falou com orgulho sobre o clube.

Chegou-se a um modelo por lá, no qual o organismo como um todo funciona com a humilde e sábia convicção de que o mais importante nem é o futebol. Ele é apenas um meio, e não o fim.

Por isso, desde as categorias de base, chamadas de La Masia, os garotos não são orientados a ganhar a qualquer custo, nem os treinadores são cobrados quando as vitórias são escassas.

O conceito tático adotado em todas as categorias traduz isso e, mais do que o posicionamento de A ou B, traz essa mensagem de trabalho em conjunto, busca permanente da excelência e da importância da dedicação.

O clube insiste em mostrar que existe algo maior, acima desta rivalidades mesquinhas que podem levar a uma vitória instantânea e a muitas outras derrotas no futuro destes meninos. Uma destas derrotas? A de não saber respeitar o outro.

Mais uma? A de se ver como centro do universo. Outra? A de não sentir empatia com quem também busca um objetivo. E não valorizar o adversário como um semelhante. Como um companheiro que, com sua luta, só enaltece o oponente, que tenta se tornar ainda melhor, detectar suas fraquezas, se superar em busca de uma vitória no jogo e, com isso, na vida.

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Os treinadores barcelonistas, neste sentido, deixam de ser apenas boleiros para se tornarem uma espécie de analistas. Ou professores como Merlí, protagonista do seriado catalão que mostra a importância da filosofia no dia a dia dos adolescentes.

Escutam, muitas vezes sem palavras, as necessidades dos garotos, entendem a característica de cada um deles para, assim, torná-los antes de tudo, pessoas melhores.

Não os conheço pessoalmente, mas, desta lista, saíram jogadores que exalam equilíbrio e sensatez, dentro de campo e de acordo com as informações da mídia, como Guardiola, Xavi, Iniesta, Piqué, Puyol, Busquets, Messi e tantos outros não tão famosos, mas que sabem que essa fama não é o mais importante.

O valor da gratidão

Mas é quando eles param, ou deixam o clube, é que aparece o resultado mais importante deste trabalho de anos. Desta etapa definitiva da vida.

Todos, absolutamente todos, se assimilaram bem os conceitos, acabam demonstrando uma gratidão infinita à entidade e às pessoas que nela trabalharam.

Xavi, outro dia, disse que o maior sonho dele é dirigir o Barça. A frase poderia ser muito bem substituída por "meu sonho é retribuir ao Barça".

A gratidão não é apenas a cereja do bolo. É o resumo de tudo. Reúne tantos elementos que a tornam o mais importante dos sentimentos.

Entre várias nuances, há os que a carregam de forma inata. Há os que aprendem com o tempo a descobri-la. E há os que não conseguem encontrá-la.

Na cartilha da gratidão, estão presentes o respeito, a consideração, o amor, a amizade, o cuidado, a empatia, a sensibilidade, o reconhecimento, a admiração, a memória, a solidariedade, a compreensão, entre tantos.

Não poderia deixar de mencionar a humildade. Na gratidão, a humildade lateja, porque faz a pessoa admitir sua própria humanidade, sua necessidade, de em algum momento da vida, ter recebido ajuda, fazendo do então desconhecimento, fragilidade ou necessidade um instrumento para crescer.

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Quem não é humilde não pode sentir gratidão. O arrogante não reconhecerá jamais a necessidade de ter precisado de ajuda ou de uma palavra amiga.

Pelo contrário. O ingrato costuma é ter raiva de quem o ajudou ou ajuda. Inveja dos que tiveram a generosidade de, muitas vezes, lhe darem até o que não tinham.

Quer se esquecer que, por trás das aparências, um dia esteve, ou ainda é, vulnerável. E que precisou que alguma mão lhe fosse estendida.

Mas até essa ingratidão, claro que com desgosto e muitas vezes com um esforço hercúleo, precisa ser compreendida pelos que fizeram e foram desprezados.

Nunca vi o Barcelona vir a público e reclamar da ingratidão de algum jogador que, depois de tudo que o clube lhe proporcionou, deixou a Catalunha esbravejando seu egoísmo e se sentindo injustiçado por causa deste ou daquele detalhe.

Nunca vi também meu analista se revoltar com algum desabafo injusto que eu lhe tenha feito.

Gratidão não pode ser cobrada. Quem cobra, cai na armadilha do ingrato, que, à espera do primeiro tropeço de quem lhe fez o bem, vai tripudiar sobre isso. "Tá vendo, fez e agora cobra!".

Quem cobra, escorrega na própria missão acumulada ao longo dos anos, deixando-se levar por uma ambição tola que tanto combateu neste intrincado caminho.

Pior ainda é aquele que joga na cara, ou pressiona o ingrato, como se ele tivesse alguma obrigação de retribuir. Ele estará sendo ingrato com a ingratidão, se é que me entendem.

Falar em crise no Barça é algo que não abala sua estrutura calcada, claro que com erros individuais, nos valores.

Gratidão, por outro lado, tem o poder de gerar gratidão e, enquanto alguém puder beber desta fonte, estará mais protegido desta crise de valores que vivemos. Mais próximo da vitória. E, quem sabe, da alta.

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