O Flamengo, o futebol e a questão humana

Agora clube está com 27 contaminados pela covid-19 e defende o adiamento do jogo contra o Palmeiras, no próximo domingo, pelo Brasileiro

Fla jogou em Guayquil com jogadores infectados

Fla jogou em Guayquil com jogadores infectados

Rodrigo Buendia/EFE/22-09-20

Jogar ou não jogar eis a questão. Decorrente de muitas outras que desconhecem nossa vã filosofia. O Flamengo atual é mais do que tudo uma questão shakespeareana. E humana.

Hamlet, em sua nobre ingenuidade, estaria indignado com boa parte dos acontecimentos no reino rubro-negro desde que 10 meninos morreram queimados por morarem em um alojamento improvisado com material e fiação inadequados.

Muito antes de Freud, Shakespeare, em suas obras, muito mais consistentes do que a daquele Ninho de Urubu de fevereiro de 2019, tocou neste tema ainda tão atual. A negação.

O Flamengo e muitos de seus diretores "Rio Babilônia", bem ao estilo do filme de Neville de Almeida, têm estampado isso, enquanto deliram onipotência em seus apartamentos no Leblon, vendo o time ganhar e com aquela velha sensação que tanto irritava os paulistas, nos anos 70, de que seu clube está acima de todos os outros.

Da ilusão de que não tem pra ninguém. Os outros que se explodam, nós temos total controle de tudo, dominamos esse vírus, faremos valer nossos interesses, porque esse é o mundo.

Pelo menos o vemos assim, desde nossas amplas janelas da Vieira Souto, contemplando o horizonte, sem perceber que a brisa perfumada que emerge do mar também toca nos morros vizinhos.

Quem não concordar, que pegue uma garrafa e vá lamentar sobre a vaidade humana e chorar sentado na calçada da General San Martin, como Vinícius de Moraes fazia na companhia do poeta Pablo Neruda.

Meus valores, dizem estes dirigentes específicos, são intocáveis. Com eles, conquisto títulos e me sinto tão dono da verdade que satisfaço o delírio de milhões de torcedores ávidos por vitórias no campo, porque no dia-a-dia está difícil.

Isso é o mais importante. Vencer, vencer, vencer. Trago alegria, trago pão e circo. Conquisto títulos e aparento competência. Nem ligo se Jorge Jesus me deixou na mão, pois manda quem pode e obedece quem tem juízo. O mundo é dos espertos. Nada dessa bobagem filosófica de "Ser ou não ser".

E, como prefiro contratar do que pagar indenização de vítimas; quero jogar em meio à pandemia só para mostrar quem manda (e por uns trocados); faço campanha para o público voltar aos estádios mesmo com risco de contágio; a vida humana para mim é troco, posso exigir: Palmeiras, não jogue no domingo! 

Estamos com 27 contaminados por essa tal covid-19. Exijo que espere podermos voltar quando nos permitirem. Se pudéssemos, colocaríamos os assintomáticos e venceríamos com o pé nas costas. Espere mais um pouco até passar esse protocolo idiota, porque o campeonato está rolando mesmo assim.

Espere que volte tudo como estava, até termos perdido por 5 a 0 e, no jogo seguinte, ido a campo com jogadores infectados. Afinal, nosso time já estará inteiro, e é isso o que importa. Cadê a solidariedade?

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