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Inteligência artificial chega aos concursos públicos; veja o que muda na hora de estudar

Como a inteligência artificial está mudando o setor público e a vida de quem estuda para ele

Radar dos Concursos|Felipe GratonOpens in new window

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Estudante com IA
Tecnologia já faz parte da rotina dos concurseiros. Inteligência Artificial/Gemini

Há alguns anos, a inteligência artificial parecia assunto de ficção científica. Hoje, ela já está no dia a dia de órgãos públicos brasileiros, nos planos do governo federal e na rotina de quem passa horas estudando para um concurso. A transformação é silenciosa, mas profunda — e afeta tanto quem já trabalha no serviço público quanto quem ainda sonha com uma vaga.

A partir disso, vale analisarmos duas faces dessa mudança: como os órgãos públicos e seus servidores estão usando (e aprendendo a usar) a IA; e de que maneira essa tecnologia chegou à mesa dos concurseiros, prometendo encurtar o longo e exaustivo caminho até a aprovação.


A IA dentro do governo

O Brasil tem um plano

Em julho de 2024, o governo federal lançou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA 2024-2028), com uma ambição clara: tornar o Brasil referência mundial no uso ético e eficiente de IA no setor público. O plano prevê um investimento total de R$ 23 bilhões ao longo de quatro anos — incluindo R$ 1,76 bilhão voltado especificamente para melhorar os serviços entregues ao cidadão.


Uma das metas mais concretas é a capacitação de 115 mil servidores públicos em inteligência artificial até o final de 2026 — o equivalente a cerca de 20% de todos os servidores ativos do país. Para isso, R$ 7,5 milhões serão investidos em treinamentos. Não se trata de transformar funcionários em programadores, mas de garantir que eles saibam usar as ferramentas com responsabilidade e bom senso.

“Daqui para frente, nós temos cada vez mais que inserir essa questão da inteligência artificial dentro dos nossos processos de trabalho quando a gente foca na visão do cidadão.”

(Rogério Mascarenhas, Secretário de Governo Digital)

Em fevereiro de 2025, o Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI) e o Serpro lançaram a cartilha “IA Generativa no Serviço Público”, um guia prático para que servidores de qualquer área — não só os de tecnologia — entendam como usar essas ferramentas de forma ética e eficaz. E o Serpro vai além: está desenvolvendo seu próprio modelo de linguagem, batizado de “LLM Tupi Guarani”, para uso no contexto da administração pública brasileira.


O TCU: o exemplo mais avançado do país

Se há um caso concreto que mostra o potencial da IA no serviço público, é o do Tribunal de Contas da União (TCU). Em 2023, o TCU se tornou um dos primeiros órgãos do país a oferecer IA generativa integrada aos seus sistemas internos, acessível a todos os seus servidores e colaboradores. O resultado foi o ChatTCU — um assistente virtual desenvolvido em parceria com a Microsoft, capaz de resumir documentos, fazer pesquisas jurídicas, traduzir textos e automatizar tarefas repetitivas.


Os números impressionam: até 2024, mais de 1.400 usuários utilizavam a ferramenta regularmente, com 97 mil conversas registradas. O ChatTCU já responde sozinho cerca de 65% das consultas administrativas internas, sem precisar de intervenção humana.

O impacto financeiro também é expressivo. Segundo o próprio presidente do tribunal, cada real investido em tecnologia gerou R$ 19,12 de retorno para a sociedade, somando R$ 50 bilhões em benefícios. A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) reconheceu o TCU como a instituição de controle mais avançada do mundo no uso de inteligência artificial generativa — a única entre 59 organizações avaliadas em 39 países que atingiu nível avançado nessa tecnologia.

O ChatTCU serviu de inspiração para outros órgãos: a experiência já foi apresentada a 80 instituições federais brasileiras, que buscam replicar o modelo.

Outros órgãos também estão evoluindo

O TCU não está sozinho nessa jornada. A Receita Federal, por exemplo, usa IA do Google para analisar mais de 800 mil escaneamentos diários de encomendas nas fronteiras, ajudando fiscais a identificar itens proibidos com muito mais velocidade e precisão do que seria possível manualmente.

No Poder Judiciário, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou em 2024 uma pesquisa reveladora: 63% dos tribunais brasileiros desenvolveram projetos de IA naquele ano, totalizando 178 iniciativas. Quase metade dos tribunais já usa IA generativa para tarefas como geração e melhoria de textos — e entre os que ainda não adotaram a tecnologia, 81% disseram ter intenção de fazê-lo em breve.

O TCU também recomendou, em uma série de acórdãos em 2024, que órgãos como o INSS, o Ministério da Agricultura e o Ministério da Previdência Social ampliem o uso de IA para detectar fraudes, analisar benefícios e corrigir inconsistências em cadastros. A pressão por modernização vem de cima — e está ficando cada vez mais difícil ignorá-la.

Ainda há um longo caminho pela frente

Apesar dos avanços, o cenário ainda é desigual. Um levantamento do próprio TCU revelou que 38% das organizações federais estão no nível zero de maturidade em IA — ou seja, não usam e nem planejam usar a tecnologia. Outros 33,5% ainda estão em estágio de conversa especulativa interna. Isso significa que apenas cerca de 28% das instituições federais realmente estão colocando a IA em prática.

Os desafios são reais: falta de infraestrutura, resistência à mudança, riscos com proteção de dados (especialmente diante da LGPD), dependência de fornecedores privados e o risco de algoritmos enviesados que podem tratar cidadãos de forma desigual. A automação de funções repetitivas também levanta questões sobre a requalificação de servidores cujas tarefas forem substituídas pelas máquinas.

A IA na rotina dos concurseiros

Uma nova companhia de estudos

Estudar para concurso público é uma das tarefas mais extenuantes que existem. São meses — às vezes anos — debruçado sobre leis, jurisprudência, matemática, português e uma infinidade de outros conteúdos. Não é à toa que, historicamente, o tempo médio até a aprovação gira em torno de 4,5 anos.

É nesse cenário que a inteligência artificial chegou como uma espécie de professor disponível 24 horas por dia, sete dias por semana — sem fila de espera, sem custo de hora extra e com uma paciência inesgotável para repetir a mesma explicação de formas diferentes até que o conceito faça sentido.

“Para quem não tem um tutor é uma mão na roda. Eu peço dicas de como não esquecer facilmente”, relatou um concurseiro ao ser entrevistado pela Folha Dirigida. “Me ajuda a tirar dúvidas mais rápidas, vai direto ao ponto. Não preciso ficar caçando na internet”, completou outro candidato.

Do ChatGPT às plataformas especializadas

As ferramentas mais usadas pelos concurseiros ainda são as generalistas, como o ChatGPT e o Gemini. Com elas, é possível pedir resumos de legislação, criar flashcards, simular questões de prova, praticar a redação discursiva e até mesmo montar um cronograma de estudos personalizado com base no edital e no tempo disponível.

Um caso que viralizou entre os concurseiros foi o de Victor Volpe Fogolin, aprovado em cinco concursos de tabelião aos 23 anos. Ele foi além do uso convencional: transformou o ChatGPT em um examinador. Enviou todos os seus resumos para a ferramenta, pediu que a IA “aprendesse” o conteúdo e então solicitou que ela simulasse as perguntas que um avaliador faria. Mais: pesquisou o currículo de cada membro da banca examinadora e pediu à IA para destacar os temas favoritos de cada um com base nas publicações acadêmicas deles.

A IA também está do lado das bancas

O que poucos percebem é que a inteligência artificial não está apenas ajudando os candidatos a estudar — ela também está mudando a forma como as próprias provas são elaboradas. Bancas examinadoras passaram a usar IA para analisar padrões de respostas, identificar questões mal formuladas, gerar enunciados inéditos e até auxiliar na correção de provas discursivas.

Além disso, o tema da IA em si virou conteúdo de prova. Editais de concursos públicos passaram a cobrar conhecimentos sobre uso e regulamentação de inteligência artificial, seu impacto no serviço público e sua relação com a LGPD. Para carreiras jurídicas, questões sobre imparcialidade algorítmica e segurança jurídica já aparecem nas provas. Ou seja: entender de IA deixou de ser um diferencial e passou a ser uma exigência.

Apesar de todos os benefícios, o uso da IA nos estudos exige cautela. As ferramentas generativas podem “alucinar” — ou seja, apresentar informações incorretas com total confiança, como se fossem verdade. Para quem estuda lei seca, um detalhe errado pode custar a vaga.

Especialistas recomendam tratar a IA como um ponto de partida, não como fonte definitiva. É fundamental cruzar as informações com materiais confiáveis, resolver questões de bancas reais e manter o raciocínio crítico ativo. A IA pode explicar um conceito de dez formas diferentes, mas não substitui a disciplina, o método e a consistência que a aprovação em concurso exige.

O que esperar do futuro

A inteligência artificial chegou ao mundo dos concursos públicos e veio para ficar — tanto dentro dos órgãos quanto nas mesas de estudo. Do TCU, reconhecido mundialmente por seu ChatTCU, às plataformas que prometem reduzir o tempo de aprovação à metade, a tecnologia está redefinindo o que significa trabalhar e estudar no setor público.

Para os servidores de hoje, o desafio é aprender a usar a IA como aliada sem abrir mão do julgamento humano. Para os concurseiros de amanhã, a mensagem é dupla: a IA pode ser uma poderosa companheira de estudos, mas quem vai sentar na cadeira da prova — e responder por cada questão — ainda é você.

A tecnologia muda as ferramentas. A aprovação ainda depende do candidato.

Fontes: Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI); Serpro; Portal TCU; OCDE; Conselho Nacional de Justiça (CNJ); Google Blog Brasil; Folha Dirigida; TechTudo; Jusbrasil.

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