Logo R7.com
RecordPlus

Alheios à Rocinha, jovens da zona sul veem preço de droga estável

Cerco não afeta mais ricos. Com mercado interno forte, favela 'exporta' pouco

Rio de Janeiro|Peu Araújo, do R7

  • Google News
De acordo com os moradores de bairros da zona sul e do centro, conflito na Rocinha não mudou a rotina da droga
De acordo com os moradores de bairros da zona sul e do centro, conflito na Rocinha não mudou a rotina da droga

Enquanto a Rocinha, maior favela do País, segue sob clima tenso, cercada pelo Exército, ocupada pela Polícia Militar e palco de tiroteios, o consumo de drogas entre jovens de classe média na zona sul carioca continua correndo solto, sem registros de alterações na oferta e no preço.

Embora seja considerada um local estratégico para a facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos), cujos integrantes travam uma disputa interna, a Rocinha não tem como ponto forte a "exportação" de drogas para o asfalto.


"Há muito tempo, quem banca o tráfico na Rocinha é o morador da favela", afirma o delegado Orlando Zaccone, que conhece bem a região e foi responsável pela investigação do caso Amarildo Dias de Souza, morador da favela morto por policiais militares em 2013. Ele compara a Rocinha ao Complexo do Alemão. "O preço da droga nesses locais é compatível com as classes populares."

Tráfico segue


O R7 apurou com usuários que, desde que o conflito na Rocinha teve início, poucos "aviãozinhos", como são chamados os fornecedores que levam drogas dos morros aos moradores do asfalto, sumiram. O valor da maconha também não mudou, variando de R$ 120 a R$ 200 por 25 gramas, dependendo da qualidade da droga.

"Por enquanto não afetou", afirmou um morador de Copacabana, que comprou na terça-feira (26) maconha com o mesmo traficante que costuma ser seu fornecedor. "Os caras que eu pego levam em casa, não está nada difícil, não."


Um morador do Leme também relatou normalidade. Mesmo com o clima tenso nos morros, a droga foi entregue sem riscos. "A parada é 'delivery', que há alguns anos substituiu a boca", afirmou.

O delegado Zaccone confirma que o usuário da classe média não se arrisca mais subindo em comunidades em busca de drogas. "O consumidor não problemático não é maluco de encarar entrar na Rocinha ou no Complexo do Alemão para conseguir a sua droga. Ele tem canais para conseguir uma droga melhor e com segurança pagando mais caro."


Mesmo quem conhecia traficantes da Rocinha diz ter conseguido outras formas para comprar a droga. Em um grupo de WhatsApp, uma pessoa notou o "desaparecimento" de um traficante, que poderia ser aliado de Nem. "O José* [nome fictício] é de lá [da Rocinha]. Sumiu, não responde nem nada", escreveu. Na sequência, o usuário relata: "Peguei bala para o fim de semana sem problema e comprei homegrown [maconha plantada em casa] sem nenhum problema também."

Danúbia Rangel, mulher do traficante Nem
Danúbia Rangel, mulher do traficante Nem

Primeira-dama

Com 69 mil moradores, segundo o último censo demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2010, a Rocinha tem 26 mil habitantes a mais que Paraisópolis, a maior favela de São Paulo.

Os números, porém, podem ser ainda maiores. Antônio Marques, vice-presidente da AMBB (Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Barcelos) acredita que os dados estejam defasados. "A população é grande aqui", diz. "Eu acredito que tenha umas 200 mil dentro da comunidade. Faz muitos anos que o censo não bate aqui."

A disputa por esse mercado entre o traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, preso em 2011, e seu ex-segurança e braço-direiro, Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, intensificou-se na semana passada, cerca de 15 dias depois de Rogério 157 ter decidido expulsar do morro Danúbia Rangel. Mulher de Nem e conhecida por sua extravagância, Danúbia era chamada de primeira-dama do tráfico e estaria interferindo no comando da favela.

A onda de violência levou a Polícia Militar e o Exército à região. Em duas semanas, quatro suspeitos foram mortos e três corpos não identificados foram encontrados na favela. Na tentativa de escapar ao cerco, outros três suspeitos morreram e uma criança foi ferida por bala perdida no Alto da Boa Vista durante tiroteio com a polícia.

Comoção

Zaccone aponta que a comoção gerada pela situação Rocinha não está diretamente ligada à distribuição de drogas na zona sul, mas à proximidade entre a favela e bairros nobres, como o Leblon e São Conrado. "Em qualquer lugar do subúrbio, quando há uma disputa pelo espaço do tráfico o comércio fecha, as pessoas ficam em casa", afirma.

"Esse toque de recolher nas imediações da favela sempre aconteceu", prossegue o delegado. "No Grajaú também acontece, mas não ganha a comoção que ganha a restrição de liberdade de locomoção do morador de São Conrado. A Rocinha sempre gera um grito maior por causa de sua localização."

Quem corrobora com esse discurso é Julita Lemgruber, cientista social e coordenadora do CESeC (Centro de Estudos de Cidadania na Universidade Candido Mendes). "Está na hora de a gente ultrapassar a hipocrisia de considerar o caso da Rocinha algo singular", diz. "A singularidade do caso da Rocinha está no fato dela estar no meio do caminho entre a zona sul e a Barra da Tijuca."

Dentro da favela, o clima é de apreensão. Antônio Marques, da associação de moradores, conta que na terça-feira (26) foi realizada uma reunião dos moradores em uma quadra, ponto central na comunidade, e foram ouvidas várias reclamações, entre elas de abusos por parte do Exército, que teria entrado em muitas residências sem autorização, e das escolas fechadas.

Ainda assim, o morador fala com resignação sobre a situação. "As pessoas estão transitando normalmente", disse à reportagem. "Está tenso, mas estamos seguindo."

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.