Rio de Janeiro Da Chatuba ao Theatro Municipal: bailarina de 9 anos realiza sonho

Da Chatuba ao Theatro Municipal: bailarina de 9 anos realiza sonho

Campanha na internet busca apadrinhamento de Rayane Ferreira, que caminha cerca de 2 km para economizar dinheiro de passagem

bailarina Chatuba

Rayane na estação de trem

Rayane na estação de trem

Arquivo pessoal

Aos 9 anos, a bailarina Rayane Cristina Lima Ferreira, moradora da comunidade da Chatuba, em Mesquita (Baixada Fluminense), surpreendeu familiares e amigos ao ser aprovada, na primeira tentativa, para Escola de Dança Maria Olenewa, ligada ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro e maior referência do Brasil na formação de bailarinos clássicos.

Antes de calçar as sapatilhas, a pequena precisou superar a falta de recursos e ainda contar com uma rede de solidariedade para dar os primeiros passos em busca da realização do grande sonho.

A mãe da bailarina, Fabiana Lima da Silva, contou que foi ao mesmo tempo "uma alegria e um baque" saber que Rayane estava entre as escolhidas para integrar a turma do Theatro Municipal em razão da falta de condições financeiras.

Fabiana, que não tem renda fixa e trabalha como cuidadora, lembra que conseguiu os R$ 177 para a compra do uniforme na noite anterior ao início da aulas. 

— A patroa da madrinha da minha outra filha, a Rayssa, ficou sabendo da história e decidiu ajudar. 

Outro desafio ainda são os custos da passagem. Da Chatuba, comunidade de Mesquita, até o Theatro Municipal, no centro do Rio de Janeiro, são 33 km de distância. Acompanhada da mãe, a bailarina pega três conduções durante o trajeto — van, trem e, por último, o metrô. Ao todo, as duas gastam R$ 44 por dia.

O valor assustou a mãe da bailarina, que chegou a pensar em desistir após a primeira semana de aulas. 

— No primeira dia, conversei com a Rayane e prometi que a gente ia tentar durante uma semana. Depois, eu vi que não tinha condições de manter, já que o dinheiro que ganhei no plantão foi gasto só com as passagens. Expliquei para ela que não teria como dar continuidade e os olhos dela se encheram de lágrimas. Liguei para a escola e me informaram que não teria como trancar a matrícula. Então, meu coração apertou e decidi repensar, porque, nós, que somos mães, não conseguimos ver os filhos sofrerem. 

Almoço no trem

De segunda a sexta, a bailarina disciplinada segue a mesma rotina: sai da colégio por volta de 11h30 e, quando se atrasa, almoça no trem para chegar a tempo das aulas no Theatro Municipal, que começa às 13h45. 

Rayane com uniforme da Escola de Dança Maria Olenewa

Rayane com uniforme da Escola de Dança Maria Olenewa

Arquivo pessoal

Durante o caminho, Rayane, "feliz por fazer o que ama", ensaia passos e faz poses. Na aula, que tem duração de uma hora e meia, ela não economiza energia.

E, na volta para casa, a menina ainda caminha cerca de 2 km para economizar a passagem de metrô.

Rede de solidariedade
A bailarina antes de se apresentar

A bailarina antes de se apresentar

Arquivo pessoal

A mãe de Rayane tem contado com apoio da ONG Mundo Novo, projeto em que a menina começou no balé, para custear as passagens com transporte público. Sensibilizada com as dificuldades, a diretora Bianca Simãozinho afirmou que também não tinha recursos para assumir os gastos e, por isso, lançou uma campanha na internet para conseguir o apadrinhamento da bailarina (clique aqui para saber mais).

Aos seis anos, Rayane descobriu na ONG, que fica dentro da comunidade da Chatuba, o amor pela dança. De lá para cá, ela viajou para fazer apresentações inclusive em um dos mais importantes do festivais do país, o de Joinville, onde há uma filial do balé russo Bolshoi. 

Em 2017, com a chegada da professora de dança Renata Rangel à ONG, Rayane e outros alunos passaram por uma preparação voltada para audições de diferentes academias.

Em entrevista ao R7, Renata disse que identificou na menina muito talento já nas primeiras aulas na ONG. Certa de que Rayane poderia ser aprovada para a escola do Theatro Municial, a professora ofereceu também uma bolsa na própria academia para que a bailarina pudesse intensificar o treinamento.   

— O perfil dela logo me chamou a atenção. Rayane tem pernas longas e tronco pequeno. Depois, durante as aulas, percebi que ela tinha muito felxibilidade e um ótimo desempenho, além de ser muito aplicada. Ela nasceu para isso. É extremamente talentosa.

Além da menina, o jovem Miguel Vieira, 17 anos, também foi aprovado para Escola de Dança Maria Olenewa. Mas, por motivos pessoais, o adolescente resolveu optar por outra academia.

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