Rio de Janeiro Família não consegue enterrar mãe e filho mortos há 20 dias em colisão

Família não consegue enterrar mãe e filho mortos há 20 dias em colisão

Francynne e Thauan morreram no Natal; enterro aguarda certidão de óbito

Dor sem fim: família enfrenta saga para enterrar mortos em acidente

Francynne e Thauan ainda não foram enterrados

Francynne e Thauan ainda não foram enterrados

Reprodução

Vinte dias de angústia e sofrimento. A dor da perda prolongada por questões burocráticas e dois corpos aguardando em uma sala fria o sepultamento. 

Desde que Francynne Azevedo e seu filho Thauan morreram em um acidente de trânsito na avenida Brasil, zona norte do Rio, no dia 25 dezembro, seus corpos aguardam no IML o enterro. Como o veículo pegou fogo, a carbonização dificultou a identificação. O menino de cabelos cacheados foi identificado antes da mãe, mas a família resolveu esperar a liberação do corpo dela para que eles pudessem ser enterrados juntos.

Foi no dia 10 de janeiro, 16 dias após o acidente, que o corpo de Francynne foi finalmente identificado. O reconhecimento se deu por meio do processo chamado de antropologia, em que fotos são utilizadas para reconhecer a arcada dentária. Embora a família tenha elogiado a atuação dos peritos do IML, houve dificuldades nesse segundo método por falta de fotos em boa qualidade.

“É como se o acidente não tivesse fim”, diz Dênis Mathias, irmão de Francynne.

Parentes mergulharam em sentimentos de perda, saudade e revolta. Eles chegaram a criar uma vaquinha para arrecadar dinheiro pensando em realizar o exame de DNA em uma clínica particular. Mas o dinheiro acabou não sendo necessário.

Depois de enterrar, nós vamos apenas nos consolar com a saudade
Dênis Mathias, irmão e tio das duas vítimas

Com o reconhecimento feito, Dênis corre, junto de um advogado, atrás da certidão de óbito. É que, como os corpos de mãe e filho demoraram mais de 15 dias para serem liberados, é necessária uma ordem judicial para que a família possa encerrar o ciclo e sepultar os mortos.

Aos 12 dias de 2018, Luiz tentou, no plantão judicial, emitir a certidão de óbito, que foi autorizada pela juíza. O documento ainda não havia sido liberado até a publicação desta reportagem. Enquanto isso, a família continua lutando para dar um descanso digno para as duas últimas vítimas do acidente. “Depois de enterrar, nós vamos apenas nos consolar com a saudade.”

Colisão

Edinaldo e Francynne morreram em acidente

Edinaldo e Francynne morreram em acidente

Reprodução

A noite de Natal havia sido com a família do marido, na capital do Rio de Janeiro. Francynne estava preocupada com o trabalho no dia seguinte. Planejou sair logo pela manhã para chegar a São Pedro da Aldeia a tempo de ir para a oficina na qual fazia objetos de decoração artesanais.

A jovem, que dias antes havia comemorado seu 22º aniversário, não conseguiu voltar cedo para sua cidade. Com o marido, o filho e a afilhada, saiu da casa do sogro à noite. Passava pouco das 22h quando o carro da família que seguia pela avenida Brasil, na altura de Cordovil, na zona norte da cidade, foi atingido por um caminhão reboque.

Com a colisão, o carro da família ficou preso entre o caminhão e um outro veículo que vinha atrás e pegou fogo. Os quatro corpos ficaram carbonizados e foram levados para o IML (Instituto Médico Legal). Foi o fim de uma família.

Thauan e Eduarda eram só sorrisos, diz tio

Thauan e Eduarda eram só sorrisos, diz tio

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Edinaldo Silva dos Santos, marido de Francynne, foi o primeiro a ser identificado e a ter o corpo liberado. O enterro foi no cemitério de Irajá, zona norte do Rio. Logo depois, houve o sepultamento de Eduarda do Carmo Santos, 8 anos, no cemitério do Pechincha, zona oeste. A menina passava férias com a madrinha Francynne na região dos Lagos e veio com ela para o Rio comemorar as festas de fim de ano.

"Onde passavam eles brilhavam, faziam a alegria do povo", disse Dênis, que participou intensamente do processo de liberação dos corpos.

Francynne cresceu na zona oeste do Rio, na comunidade Gardênia Azul. Há pouco mais de um ano, a família resolveu se mudar para São Pedro da Aldeia, onde o pai tem uma casa própria, e sair do aluguel.

Três dias antes do acidente, Francynne havia comemorado seu aniversário com os pais, o marido, o filho e a afilhada. Logo depois vieram para o Rio passar o Natal e, na volta, eles tiveram a vida interrompida pelo acidente.

A família viu a notícia na manhã seguinte pelo noticiário, mas não sabia quem eram as vítimas, que não haviam sido identificadas. No mesmo dia, a Polícia Civil conseguiu localizar uma empresa por onde Francynne já havia passado e chegou ao irmão dela, que foi o primeiro a saber da morte.

“Ninguém espera a morte de um ente querido o que dirá quatro”, diz Dênis. A partir daí, a dor foi potencializada pelo processo de liberação dos corpos.

O motorista que conduzia o caminhão que se chocou com o carro da família também se feriu e foi ouvido pela polícia após receber alta. Para os familiares, o motorista pode ter se confundindo com a faixa reversível, que funcionava naquela hora, e entrado no sentido contrário, provocando o acidente. Mas as hipóteses e detalhes da investigação ainda não foram esclarecidos pela polícia. Também não houve posicionamento da Polícia Civil sobre a demora da liberação dos corpos.