Rio de Janeiro “Marielle mudou a compreensão dos policiais sobre direitos humanos”

“Marielle mudou a compreensão dos policiais sobre direitos humanos”

Para ex-comandante Ibis Pereira, "policias devem se entender como agentes de civilização e para isso devem promover e garantir a dignidade humana" 

Ex-comandante Ibis Pereira foi chefe de gabinete da Polícia Militar

Ex-comandante Ibis Pereira foi chefe de gabinete da Polícia Militar

Jaqueline de Jesus Moreira (arquivo pessoal)

O ex-comandante da Polícia Militar no Rio de Janeiro, Coronel Ibis Pereira, defende que para existir segurança pública é preciso segurança social. Na busca por esse ideal, segundo ele, a vereadora Marielle Franco (PSOL) ajudou a mudar a percepção de alguns policiais sobre os direitos humanos.

“Sem essa perspectiva, a atividade policial se desumaniza e faz com que tenhamos profissionais adoecidos”, diz ele. “Os policiais precisam se entender como agentes de civilização e para isso devem promover e garantir a dignidade humana.”

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O ex-comandante atuou como chefe de gabinete da Polícia Militar entre os anos de 2015 e 2016, período no qual manteve contato direto com Marielle Franco, que atuava na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ele afirmou ao R7 que tem acompanhado a série de boatos contra a reputação de Marielle após seu assassinato e do motorista Anderson Gomes. “Eles mostram o quanto devemos avançar”, diz.

Para o coronel, a política de segurança pública no Brasil deveria começar com a defesa dos direitos humanos. “Marielle era uma intelectual negra muito sensível, de percepção sutil para promover a dignidade humana”, diz. Ele comentou ainda sobre a homenagem divulgada nas redes sociais pelo colega e amigo, coronel Robson Rodrigues, dedicadas a vereadora. “Ele tinha essa relação de proximidade entre os direitos humanos e atividade policial”, afirma. “Fiquei muito emocionado com o carinho dele à Marielle.”

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“O policial ou é promotor da dignidade humana ou é uma ameaça?”, pergunta coronel. “Vivemos sob uma crise de compreensão que faz com que muitas pessoas entendam a polícia como algo que se reduz ao enfrentamento armado.” Pereira era responsável também por encaminhar casos de policiais e famílias de servidores que buscavam auxílio à CDH (Comissão de Direitos Humanos) da Assembleia Legislativa do Rio.

Intervenção militar

O coronel aponta alguns equívocos em relação à intervenção militar decretada em fevereiro pelo presidente Michel Temer (PMDB)."Quando os recursos materiais e humanos não conseguem dar conta, as Forças Armadas podem ser chamadas em caráter extraordinário”, explica. “Nos últimos anos, porém, por não termos coragem de enfrentar o desafio de fazer reformas de segurança pública, temos usado as Forças Armadas em caráter ordinário.”

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De acordo com ele, nos últimos dez anos, as Forças Armadas foram mobilizadas mais de 60 vezes, em 17 estados. “Nossas instituições policiais atuam como ilhas, sem planejamento”, diz. “Quando conseguimos algum sucesso é sempre no curto prazo, logo essas políticas se mostram frágeis, como as UPPs.”

O governo federal decidiu intervir no Rio de Janeiro, segundo ele, sem planejamento. “Essa intervenção não foi acompanhada de um diagnóstico mais aprofundado. Essa análise está sendo feita somente agora. Sobre o anuncio do presidente de destinar R$ 1 bilhão e não mais R$ 800 milhões, como havia sido dito para a intervenção, Ibis Pereira afirma que apenas recursos financeiros não solucionam os problemas. “Antes de qualquer coisa é preciso ter um projeto, depois ele é orçado. Sem isso, os recursos serão sempre insuficientes.”

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“Enquanto a polícia focar na guerra contra as drogas, nada vai mudar”, diz ele. “A milícia, sim, é um crime organizado que merece uma atenção maior dos mandatários. Mas ainda há um enfrentamento tímido no combate a esses problemas.”

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