Rio de Janeiro "Minha cicatriz será eterna", diz sobrevivente da chacina da Candelária 20 anos depois

"Minha cicatriz será eterna", diz sobrevivente da chacina da Candelária 20 anos depois

Documentário com a participação dele será lançado nesta terça-feira (23)

"Minha cicatriz será eterna", diz sobrevivente da chacina da Candelária 20 anos depois

Rodrigo Fernandes foi atingido por um tiro no dia da chacina

Rodrigo Fernandes foi atingido por um tiro no dia da chacina

Divulgação

Hoje com 34 anos, Rodrigo Fernandes tinha apenas 14 quando estava deitado em cima de uma banca de jornal e começou a ouvir tiros. Ele correu e sentiu um disparo que atingiu o braço, mas continuou correndo. Por sorte, sobreviveu ao massacre que ficou conhecido como Chacina da Candelária, que nesta terça (23) completa 20 anos.

Fernandes morava nas ruas do Rio de Janeiro depois de ter fugido de casa. Uma família destruída pelo alcoolismo, segundo ele. Preferia dormir no chão de uma avenida qualquer do que em casa. No dia 23 de julho de 1993, o adolescente escolheu para dormir uma banca que ficava em frente da Igreja da Candelária. Viu policiais atirarem contra pessoas que também não tinham um lar. Oito moradores de rua foram assassinados, entre eles, crianças.

Após a chacina, Fernandes voltou para casa dos pais e nunca mais sua vida foi a mesma. Ele afirma que dia após dia pensava que sobreviveu porque Deus tinha um propósito em sua vida. Evangélico, jamais conseguiu fazer nada que não estivesse relacionado a tragédia.

— Hoje eu saio pelas ruas e tento ajudar pessoas que não têm uma casa para viver. Toda vez que passo na Candelária me emociono. As pessoas esqueceram, a vida teve que continuar, mas minha cicatriz será eterna.

Todo dia 23 de julho ele volta ao local do massacre para homenagens. Fernandes poderia ser mais uma cruz que simboliza os mortos, mais um homenageado. Casado, pai de dois filhos, ele lembra que foi parar nas ruas por um lar em confusão.

— Tento criar meus filhos de forma bem diferente do que eu vivi. Mas fico triste em ver que 20 após a chacina nada mudou no Brasil. A violência, o consumo de drogas e a situação dos moradores de rua continuam as mesmas.

Ele sobrevive da ajuda de amigos que apoiam o projeto e participou de um documentário sobre os sobreviventes que deve ser lançado nesta terça-feira por uma produtora de vídeo. O material ficará disponível na internet e será gratuita a visualização.

Na tragédia, o mais jovem tinha apenas 11 anos. Paulo Roberto de Oliveira também morava nas ruas do Rio de Janeiro. Três policiais foram condenados pelas mortes, mas todos respondem em liberdade.