Nuvem que se forma no mesmo lugar em Arraial do Cabo atrai pesquisadores e vira lenda
Fenômeno atrapalhou a instalação de um farol no ponto mais do município na época do Império
Rio de Janeiro|Bruna Oliveira e Victor Tozo*, do R7

Conhecida por aparecer sempre no mesmo lugar, a Nuvem do Farol tem atraído a atenção de pesquisadores e também guarda muitas histórias no município de Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro.
O tema virou objeto de estudo da monografia da jornalista Fabiana Lima, de 36 anos, que investigou o fenômeno em seu trabalho de pós-graduação em Clima e Energia pela Uenf (Universidade Estadual do Norte Fluminense), em parceria com a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Inicialmente, Fabiana buscou conhecer a Nuvem do Farol com base em uma pesquisa da Marinha para um trabalho jornalístico. Ao se interessar pela história, ela descobriu que a persistência da formação da nuvem no ponto mais alto de Arraial do Cabo inutilizou um farol construído no século 19 para auxiliar a navegação na região.
"É um tesouro da história do Brasil. É uma lenda urbana. Uma nuvem que atrapalhou os planos do Império, que teve de se render a ela."
No entanto, a jornalista conta que os habitantes da cidade já sabiam que aquela não era uma boa ideia. "Na época do Império, os nativos já falavam para não construir [o farol] ali porque tinha 'neve'. Até hoje, os cabistas chamam névoa de neve", disse.
Ainda segundo a pesquisadora, a construção avançou durante três anos e foi realizada por escravizados, que subiram e desceram incontáveis vezes os 390 metros de altitude que separam a superfície da ilha do cume da montanha. Após a conclusão, em 1836, o Império percebeu que a nuvem encobria o feixo de luz. E somente 25 anos mais tarde um novo lugar foi escolhido para instalar outro farol.
Por que a nuvem se forma sempre no mesmo lugar?
A orientadora do trabalho, a chefe do Laboratório de Meteorologia da Uenf, Maria Gertrudes Justi, explica que a presença da montanha, associada a condições meteorológicas, leva à formação do fenômeno naquele ponto específico.
"A superfície do mar fria, como daquela região, faz com que a atmosfera fique muito estável. O ar frio só sobe porque é obrigado, por causa de um obstáculo topográfico. Então, ali há condições ideais para a formação da nuvem. Vamos dizer assim: aquele obstáculo é do tamanho certo para o ar que sobe atingir a temperatura que vai provocar a condensação, numa altura que é mais ou menos abaixo do topo daquele obstáculo. Então, fica se formando constantemente naquele lugar. É muito mais do que observamos em outros lugares."

A especialista acrescentou que o fenômeno não é raro e também pode ser visto na Pedra da Gávea, na zona sul do Rio.
"O ar vem do mar em direção ao continente e sobe. Se tiver condições de umidade suficiente, certa estabilidade na atmosfera, acaba formando aquele 'chapeuzinho' no topo da Pedra da Gávea. Não é tão constante quanto lá [em Arraial]. A gente chama esse tipo de formação de nuvem de origem orográfica, pela topografia do lugar."
Radar meteorológico

Em 2019, Fabiana se aventurou a conhecer a ilha em que fica o farol desativado, por falta de visibilidade, em uma área de reserva da Marinha.
Segundo ela, a íngreme subida até o topo durou quatro horas. Apesar do sacrifício, a pesquisadora afirma que a experiência valeu a pena: "É lindo lá em cima, você vê aquela imensidão de azul, é uma visão extraordinária".
Outra curiosidade sobre a Nuvem do Farol é que ela funciona como um radar meteorológico natural. Fabiana conta que a população de Arraial sabe que a presença da nuvem indica tempo ensolarado.
Esse é um dos aspectos que motivam novas investigações em torno do fenômeno em Arraial do Cabo. Pesquisadores da UFRJ pretendem, nos próximos estudos, estabelecer os modelos numéricos para traçar o padrão de temperatura e pressão, entre outros critérios, que contribuem para a formação da Nuvem do Farol.
*Estagiário do R7, sob supervisão de PH Rosa













