Pai cartunista posta diário em quadrinhos sobre peripécias de filhas gêmeas
Rodrigo Bueno mostra as dificuldades de criar Margarida e Iolanda, de dois anos e sete meses
Rio de Janeiro|Alvaro Magalhães, do R7
Pai das gêmeas Margarida e Iolanda, de dois anos e sete meses, o cartunista Rodrigo Bueno publica quase que diariamente no Facebook ilustrações e textos sobre seu dia a dia com as pequenas. Confira, a seguir, alguns dos trabalhos de Bueno.
Pai das gêmeas Margarida e Iolanda, de dois anos e sete meses, o cartunista Rodrigo Bueno publica quase que diariamente no Facebook ilustrações e textos sobre seu dia a dia com as pequenas. Confira, a seguir, alguns dos trabalhos de Bueno.

Pai das gêmeas Margarida e Iolanda, de dois anos e sete meses, o cartunista Rodrigo Bueno, de 36 anos, publica quase que diariamente no Facebook ilustrações e textos sobre seu dia a dia com as pequenas. A página Diário Ilustrado da Paternidade teve início em outubro do ano passado, pouco depois de Bueno deixar o trabalho fixo em São Paulo e mudar-se para o Rio, como uma forma de o cartunista mandar notícias de sua vida na nova cidade à família e os amigos.
Pouco a pouco, a página foi ganhando fãs. Hoje, centenas de pais curtem, compartilham e comentam os trabalhos de Bueno. Às vezes, os desenhos acabam pautando longos debates nos comentários — pais discutem sobre o melhor momento de pôr os filhos na escola, sobre se vale dar pirulitos para que as crianças fiquem quietas no cabeleireiro, sobre os limites televisão etc.
Autor dos livros em quadrinhos Peixe Peludo, de 2010, e Peixe Peludo – O Herói da Raça, de 2013, ambos em parceria com o escritor Rafael Moralez, nos quais narrava as aventuras um tanto psicodélicas de um peixe pela boemia paulistana, Bueno diz que mudou um pouco a abordagem ao começar a tratar de educação.
“Procuro lidar com esse tema, com o tema da criação dos filhos, com cuidado”, diz Bueno. “Tento abordar o assunto de um modo carinhoso. Na verdade, acho que é o mesmo cuidado, o mesmo carinho que a gente tem que ter ao pegar um bebezinho no colo.”
O cartunista afirma que não tem a intenção de dar receitas sobre como lidar com as dificuldades de ser pai. Mas procura retratar os dilemas de seu dia a dia para refletir sobre suas ações. “O que me fez e faz desenhar é a necessidade de refletir, de pôr a cabeça no lugar.”
O sucesso fez com que alguns fãs pedissem a Bueno que publicasse seus textos e ilustrações em livro. O Diário Ilustrado da Paternidade, porém, não tem data para ser impresso. “Eu não estou muito preocupado com isso agora, mas as coisas são muito líquidas. Quando chegar em dezembro, vou ter que ter um recorte novo.”
Mas, se o diário que conta as peripécias de Iolanda e Margarida na fase dos dois anos deve permanecer por mais um tempo exclusivamente na internet, Bueno lançou na última sexta-feira (7) um projeto semelhante. Iniciou arrecadação por financiamento coletivo para imprimir o livro Bebegrafia — parceria dele com o também cartunista Victor Farat. A publicação, prevista para o final do ano, deve ter desenhos conjuntos sobre o primeiro ano de vida dos filhos de cada um: além das gêmeas de Bueno, Ivo, filho de Farat, será personagem de Bebegrafia.
Confira abaixo, a entrevista que o cartunista Rodrigo Bueno deu ao R7 para o Dia dos Pais:
R7 – Como nasceu a ideia do Diário Ilustrado da Paternidade?
Rodrigo Bueno – Eu sempre, desde da infância, tive um diário ilustrado da minha vida. Sempre desenhei o que eu via, o que eu vivia. Mas não publicava, nunca publiquei nada. Sempre foi algo muito pessoal. Mas, por outro lado, nunca tinha vivido uma situação que, apesar de pessoal, é comum a muita gente. E esse é o caso da paternidade, da criação dos filhos. Além disso, eu havia acabado de mudar de cidade. No ano passado, saí de São Paulo e vim para o Rio. Então, eu queria também mandar notícias à família e aos amigos. Foi quando eu decidi contar essas histórias no Facebook.
R7 – Então começou com a vontade de mandar notícias à família e aos amigos?
Bueno – É. Acho que foram duas razões. Esse negócio de mandar notícias foi o que me levou a tornar públicas as histórias. Mas o que me fez e faz desenhar é a necessidade de refletir, de pôr a cabeça no lugar. Eu estava, e estou ainda, num momento de transição da vida. Sou pai pela primeira vez, troquei de cidade, deixei o trabalho fixo que tinha para me dedicar às meninas e viver de frilas. Então, o Diário Ilustrado da Paternidade tem essa função de me ajudar a pensar sobre o que aconteceu no dia. Trato de coisas que eu fiz e que, muitas vezes, eu não me orgulho. Não tenho uma expectativa de aprovação. Às vezes, me coloco como uma pessoa patética, incompetente. E acho que isso faz também as pessoas se identificaram.
R7 – Sua página não é propriamente um manual de como criar os filhos.
Bueno – Acho que acaba sendo quase um manual ao contrário. Esse tema de educação de filhos é muito delicado. Todo mundo quer uma formula mágica. Todo mundo quer dicas, quer saber se fez certo ou se fez errado. Então, as histórias que eu posto acabam gerando debates nos comentários. Antes de colocá-las na escola, por exemplo, eu contei o encontro que tive com uma mãe que estava saindo com os filhos gêmeos do colégio. Eu fui conversar com ela para saber como era aquilo de deixar os filhos ali etc. Nos comentários, saíram brigas. Tinham vários posicionamentos sobre pôr ou não pôr os filhos cedo na escola. Contei também uma história sobre o pirulito que uma cabeleireira deu para uma das meninas ficar quieta na hora de cortar o cabelo. Aí começou o debate: tem os que acham um absurdo, os que achavam que tudo bem... Acho que o que eu conto não tem certo e errado. São angústias dessa fase da vida.
R7 – Em nenhum momento você procura se preservar?
Bueno – Quando eu fazia o diário só para mim, como forma de refletir, não tinha por que me preservar. Então, no começo, quando a exposição começou a ser uma questão, eu fiquei incomodado. Pensei em parar. Mas fui transformando essa repressão numa espécie de curadoria interna, numa forma de olhar com mais atenção para os assuntos que são interessantes. Concluí que a polemica é chata. Não faço o Diário Ilustrado da Paternidade para causar polêmica. Eu fujo das polêmicas. Acho que o legal é falar de coisas pelas quais muita gente passou, pelas quais muita gente passa. Então, hoje eu não me sinto reprimido. Eu só procuro lidar com esse tema, com o tema da criação dos filhos, com cuidado. Tento abordar o assunto de um modo carinhoso. Na verdade, acho que é o mesmo cuidado, o mesmo carinho que a gente tem que ter ao pegar um bebezinho no colo.
R7 - Não tem receio de expor demais as meninas? Como lida com isso?
Bueno - Não tenho receio, não. Eu me sinto muito seguro nesse sentido, fico atento às rotulações. Por isso raramente especifico quem é quem. Existe uma tendência em criar distinções entre os gêmeos idênticos. Então, eu não especifico muito as duas. Não conto detalhes sobre elas que possam expor demais. A Grasi [mulher de Bueno] me ajuda nisso também. Ela confere todas as histórias e me alerta sobre qualquer bola fora. A única coisa que exponho para valer são meus pensamentos, meus sentimentos. Faço isso com carinho, então não tenho medo.
R7 – Que tipo de polêmica evita?
Bueno – Ah, a televisão, por exemplo, é um tema muito polêmico. Eu postei uma vez uma ilustração sobre televisão. Aconteceu de eu ficar hipnotizado na frente da TV e as duas nem ligarem para aquilo. O pessoal puxou minha orelha!
R7 – A maioria dos comentários vêm de outros pais?
Bueno – Tem mães, tem avós... Eu nunca fiz um levantamento mesmo. Tento responder as mensagens, mas eu mal tenho tempo. Então, não tenho essa observação estatística. Vejo que há mais mulheres do que homens, mais mães do que pais. Talvez por que a gente ainda viva num sistema em que as mães estão mais envolvidas na criação. Digo isso sem me colocar como exceção. Se você me perguntar agora, eu não sei, por exemplo, o número que as meninas calçam. Sei mais ou menos o tamanhozinho dos pés delas, mas não sei o número. A Grasi [mulher de Bueno] sabe. Ela tem muito mais repertório nesse sentido.
R7 – Com pouco tempo, a página chegou a um número expressivo de curtidas e compartilhamentos. Você esperava?
Bueno – Eu comecei a página sem muita expectativa. A gente nunca tem muito controle das coisas. Quando eu desenho, não penso se aquilo vai atingir muita gente, não penso em audiência. Mas, no caso da criação dos filhos, acho que a identificação é especial. É um momento acelerado da vida. Tudo se passa muito rapidamente. As pessoas vivem esse momento à flor da pele.
R7 – Você chegou a se encontrar com pessoas que começaram a curtir a página?
Bueno – Ah, sim. A página funcionou até como uma forma de eu me inserir aqui no Rio. Estou há pouco na cidade, não tenho um círculo de amizades como tinha em São Paulo. Mas ao menos umas dez pessoas que seguem a página viraram amigos. Amigos mesmo. Então, as ilustrações abriram um pouquinho a porta da cidade para mim. Já aconteceu também de eu ser reconhecido quando estou no parquinho com as meninas. Babás já me pararam para perguntar se a página era minha.
R7 – Com as duas meninas para criar, como você consegue tempo para produzir? Como é seu cotidiano?
Bueno – No começo, logo que nos mudamos, eu ficava 100% do tempo com elas. Agora, elas ficam na escolinha pela manhã. Mas não é nesse momento que eu paro para desenhar. Uso esse tempo para fazer meus trabalhos como freelancer, trabalhos de design, de ilustração. E me dedico também aos projetos pessoais. Depois disso, pego as duas na escola, elas almoçam e dormem um pouquinho. À tarde, geralmente não dá para ficar em casa. As duas são agitadas, diferente de mim. E a gente evita televisão. Então, vamos ao parquinho, vamos à praia, vamos comprar frutas. Às vezes, eu vou com elas à papelaria, compro papel, massinha... À noite, a Grasi [mulher de Bueno] faz elas dormir. E, em geral, fico até as 2h desenhando. Às vezes, não consigo, acabo dormindo cedo. Nesses dias, acordo de madrugada, às 4h, para terminar o trabalho antes de leva-las à escola.
R7 – Você posta as ilustrações de madrugada?
Bueno – Não. Eu desenho à noite e escrevo durante o dia. Escrevo muito rapidamente, direto no Facebook. Para cada desenho e postagem, eu levo umas cinco horas. Mas são cinco horas alternadas. Atualmente, não tenho postado todos os dias. Procuro publicar três vezes por semana. Então, às vezes, começo o desenho num dia e termina no outro.
R7 – Inicialmente você postava diariamente.
Bueno – É. Na época em que eu ficava o tempo todo com elas, postava todos os dias. Foram uns quatro meses nesse ritmo. Eu tinha menos tempo, mas tinha mais necessidade de desenhar, de refletir.
R7 – Quais são as suas principais influências?
Bueno – Eu tenho influência de tanta coisa. E meu desenho hoje sai do jeito que eu consigo fazer. Então, eu nem consigo dizer com que eu me inspiro diretamente. O que me fez a minha cabeça foi o Laerte e toda aquela turma da época: o Angeli, o Adão. Gosto muito também do Allan Sieber, do Jaguar. E aí entram também os grandes monolitos, como o Ziraldo. Tudo isso vem misturado com outras coisas, com coisas de arte. Mas é engraçado que, com o Diário Ilustrado da Paternidade, o desenho tem assumido um papel muito menos importante para mim. O desenho é quase secundário. Apesar de escrever os textos muito rapidamente, eu curto muito a escrita. Tento buscar influências nos cronistas da velha guarda, como o Paulo Mendes Campos e o Fernando Sabino. E tenho influência também de um cara atual, o Marcelo Michelson. Ele tem um blog chamado Conexão Pais e Filhos, onde as pessoas contam experiências. Acho que o blog dele é uma das coisas que me influenciaram em termos de discurso.
R7 – O Diário Ilustrado da Paternidade é um projeto para toda a vida? Ou tem data para acabar?
Bueno – Não tenho uma data, não. Mas quando elas fizeram três anos, alguma coisa tem que mudar. Muita gente pede para que eu publique um livro. Eu não estou muito preocupado com isso agora, mas as coisas são muito líquidas. Quando chegar em dezembro, vou ter que ter um recorte novo.
R7 – Mas você acaba de lançar um projeto de financiamento coletivo.
Bueno – É, mas para um outro livro, em parceria com Victor Farat. O filho dele fez dois anos agora. Ele é cartunista também e a gente meio que se influenciou. Eu comecei a desenhar no Facebook porque ele tinha uma página sobre o filho. E, por outro lado, ele criou a página sobre o filho dele quando viu os meus desenhos sobre as meninas, que ainda não eram públicos. Então resolvemos juntar os traços. Desenhamos juntos, cada um com seu traço. A gente quer arrecadar R$ 30 mil, dinheiro suficiente para conseguir imprimir o livro para os colaboradores e ter algum excedente para mandar para livrarias. Lançamos a campanha nessa sexta-feira (7), às vésperas do Dia dos Pais.




























