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UPPs expulsam criminosos e violência aumenta nas bordas da capital no último ano da gestão Pezão/Cabral

No ano, baixada soma 1.400 homicídios; taxa é quase o triplo a da capital

Rio de Janeiro|Do R7

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No dia 13 deste mês, cinco jovens morreram em chacina em Caxias
No dia 13 deste mês, cinco jovens morreram em chacina em Caxias

Os índices de criminalidade nos municípios vizinhos à capital do Rio de Janeiro — em especial Baixada Fluminense e Grande Niterói — tiveram aumento acentuado neste ano. O aumento da violência — homicídios, tentativas de homicídios e roubos —, revelado por dados do ISP (Instituto de Segurança Pública, órgão da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro), já reflete na rotina da população. Na baixada, a situação é crítica. De janeiro a agosto (último mês divulgado), a região com 13 municípios registrou 1.400 homicídios dolosos (com intenção), alta de 21% em relação a 2013, e mais de 30.600 roubos, aumento de 31%.

Embora os homicídios tenham diminuído nos últimos anos — historicamente, a baixada apresenta altos índices de assassinatos —, a comparação da taxa dessa região com a da capital revela um possível efeito colateral da política de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora): com esses investimentos centrados na cidade do Rio de Janeiro, criminosos migraram para a baixada e Grande Niterói. A taxa de assassinatos da baixada (37,5 mortes por 100 mil habitantes) é quase o triplo em relação à da capital (13 mortes por 100 mil habitantes). Neste ano, a capital registrou 20 assassinatos a menos, enquanto na baixada foram 248 mortes a mais.


Uma universitária de São João de Meriti (baixada) que preferiu não se identificar disse ao R7 que, na comunidade da Caixa D’água e redondezas, usar roupa vermelha passou a ser proibido. Ela reclama de falta de policiamento no município. Meriti responde por grande parte dos homicídios — nos primeiros oito meses de 2013, foram 82 mortes e, neste ano, os assassinatos somam 162.

— Os tiroteios na Caixa D’água acontecem quase todos os dias. Antigamente não era assim. Aqui não tem policial. É muito raro vê-los. Agora é outra facção que comanda a localidade. Antes, era o Comando Vermelho. Chegou ao ponto de nós, moradores, não podermos mais andar de roupa vermelha depois das 22h. Estamos abalados e com medo.


Para João Trajano Semto-Sé, especialista em segurança pública do Laboratório da Análise da Violência da Uerj, duas hipóteses explicam em parte o aumento da violência na baixada e na região metropolitana: a concentração de investimentos em segurança pública no programa de UPPs (implantado na capital) e a migração de criminosos de comunidades com UPPs para essas regiões. A comunidade da Mangueirinha, em Caxias, é a única que tem polícia pacificadora fora da capital fluminense.

— Esses dois fatores não explicam esses altos índices, porque historicamente eles são altos, mas explicam parcialmente esse crescimento absurdo (...) A gente paga o preço de ter focado excessivamente nas UPPs e ter deixado o resto de lado. [Os investimentos] se concentraram na capital. Se esse programa fosse mais democraticamente distribuído, não haveria incidência tão alta.


A sensação de insegurança surge também no relato de outro morador de Meriti, que teve a identidade resguardada.

— São João de Meriti é muito grande para o efetivo de policiais que possui. Sempre houve tiroteio, na verdade. Mas agora são muito mais frequentes. De certa forma, acho que a política de pacificação tem uma parcela de culpa. Claro, sem dúvidas, é uma ótima iniciativa do governo. O problema é que os meliantes expulsos das comunidades pacificadas estão migrando para a baixada. Eu me sinto inseguro, acho que todos nos sentimos. E há algo de impotência também. A situação está piorando e não se vê nenhuma atuação por parte do governo para melhorar.


Na Grande Niterói, que inclui também os municípios de São Gonçalo e Maricá, foram registrados 15 assassinatos a menos no ano. Por outro lado, as tentativas de homicídio aumentaram em 162 e o total de roubos cresceu 42%, para 15.984 casos registrados (só de roubos de carros, foram 1.200 registros a mais neste ano).

O aumento da violência também foi notado no interior do Estado. Segundo o ISP, de janeiro a agosto, a região teve 893 homicídios dolosos (143 a mais ante o ano passado) e o total de roubos aumentou para quase 8.000, alta de 19%.

Fernando Bandeira, diretor do Sindicato dos Policiais Civis do Rio de Janeiro, avalia que o combate ao tráfico na capital levou os criminosos a praticarem outras modalidades de crime, o que se evidencia, segundo ele, pelo "nível de violência aplicada nos pequenos delitos". Na capital, o total de roubos cresceu 33%, para mais de 52 mil casos.

— Existem efeitos colaterais no projeto das UPPs. Os órgãos de segurança têm que estar preparados para eles. Os recentes ataques a UPPs mostraram que essa política tem que ser reavaliada e reestruturada.

Trajano Semto-Sé defende que a política de segurança pública seja pensada de modo integrado, unindo Guardas Municipais e Polícia Civil, entre outras iniciativas. Ele alerta para o fato de que "UPP não é política de segurança", mas uma parte dela.

— A expansão do programa em todo o Estado é inviável. É fora de propósito achar que a gente vai ter centenas de UPPs no Estado e, assim, resolver o problema. O modelo de policiamento tem de ser avaliado, os vários problemas surgidos decorrentes de uma expansão sem planejamento [das UPPs] devem ser avaliados.

Procuradas pelo R7, a Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Militar não se manifestaram, até a publicação desta reportagem, sobre os dados ou medidas tomadas para fazer frente à criminalidade.

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