São Paulo A noite em que o R7 caiu no 'pancadão' do Grajaú, em São Paulo

A noite em que o R7 caiu no 'pancadão' do Grajaú, em São Paulo

A reportagem esteve no baile funk da 'Favela da ZR' (zona sul da capital), interrompido com violência pela Polícia Militar numa noite de sexta

Pancadão, favela da ZR

Jovens correm em ruas da favela após chegada da Polícia Militar

Jovens correm em ruas da favela após chegada da Polícia Militar

Reprodução/WhatsApp

As ruas que costumam receber milhares de jovens nas noites de sextas-feiras e sábados, no bairro conhecido como Favela da ZR, região do Grajaú (zona sul de São Paulo), foram tomadas pela violência de policiais militares da Força Tática do 50° BPM/M (Batalhão de Polícia Militar Metropolitana), na última sexta-feira (2).

O R7 foi ao baile funk para conversar com moradores, comerciantes e com jovens que participam da festa para saber o que o evento — que tem se tornado um dos mais frequentados pela juventude da região — representa para quem vive no local. A repressão policial, no entanto, impediu que as entrevistas fossem realizadas.

Pelo menos três ruas da favela tiveram vítimas de golpes de cassetete, spray de pimenta e outros tipos de violência praticados pelos policiais militares. Centenas de jovens conseguiram correr e escapar, mas quem se recusou ou não conseguiu fugir apanhou (como mostra o vídeo abaixo).

A ação contou com cerca de 10 policiais em três carros da Polícia Militar. A reportagem conseguiu identificar dois veículos e enviou o registro para a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo) e para a assessoria de comunicação da polícia.

A violência dos PMs não foi exclusivamente contra os jovens que participavam do pancadão. O dono de um dos bares da rua também foi vítima de agressão. O homem, que preferiu não falar com o R7, foi jogado por um PM para dentro do estabelecimento com a seguinte ordem: “Fecha essa b... logo, c...”.

O sócio do comerciante, que foi agredido, tem 51 anos e mora na favela há mais de duas décadas. Ele disse estar acostumado com esse tipo de situação. Para ele, os policiais são “folgados e abusam demais”, mas os participantes do baile funk “não respeitam e, às vezes, passam dos limites”.

A reportagem usou o estabelecimento como refúgio para escapar dos golpes indiscriminados dos policiais militares contra quem estivesse na rua. No entanto, um PM ainda tentou impedir o uso do comércio como abrigo durante a segunda ação da Força Tática na favela: "'Rapa' fora daí, meu. Vai, c...", gritou o PM.

A Polícia Militar esteve na favela duas vezes. Na primeira, entre 1h e 1h30, realizou buscas de placas de veículos que estavam no local e abordagens pessoais, sem nenhum registro de violência física. A ação repressiva aconteceu na segunda ida, entre 2h10 e 4h30.

Veículos que estavam no local, alguns vendendo bebidas e outros tocando músicas, foram danificados na ação. “Isso não acontece sempre, não. É só quando mudam os policiais e eles querem mostrar serviço”, disse um estudante de 16 anos que participava do pancadão.

Violência policial repetida

O R7 já havia noticiado uma agressão da Polícia Militar dentro da Favela da ZR durante a manhã de 21 de janeiro deste ano. Na ocasião, a agressão de pelo menos quatro policiais militares contra um homem foi registrada em um vídeo feito por morador.

O vídeo registra um PM jogando um objeto, aparentemente um capacete, dentro do córrego de onde a vítima foi retirada antes das agressões.

Sobre esta ocorrência, à época, a SSP-SP disse que a Polícia Militar instaurou procedimento para apurar a conduta dos policiais militares envolvidos na ação, com base nas imagens enviadas pela reportagem.

O que a polícia diz

Sobre os fatos da última sexta-feira, o R7 pediu o posicionamento da SSP-SP, além de ter questionado sobre o motivo das agressões e se houve algum preso e materiais apreendidos na ação. O pedido foi feito por e-mail, às 15h18 desta segunda-feira (5).

Os questionamentos também foram feitos à assessoria de comunicação da Polícia Militar menos de uma hora e meia depois, às 16h43. O R7 também perguntou se o procedimento adotado na Favela da ZR, presenciado pela reportagem, é o padrão para terminar bailes funks. A assessoria não respondeu.

Na sexta-feira (9), às 20h55, a SSP-SP enviou a seguinte nota:

"A Polícia Militar informa que sábado (3), recebeu várias ligações via 190 de moradores reclamando sobre um baile funk na rua Alziro Pinheiro Magalhães, no Grajaú. As equipes de Força Tática se deslocaram ao local, por duas vezes, para garantir a integridade física das pessoas, além da liberação da via e o restabelecimento da ordem pública. Na primeira ação, um veículo foi apreendido. Após ser acionada outras vezes pelos moradores, a PM voltou ao local e apreendeu uma moto roubada."

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