Adolescente vai comprar bolachas e é morto por PM em SP, diz família

Luan Gabriel Nogueira queria ser médico e dizia que nunca correria da polícia

Lucas Nogueira chora ao lado do corpo do irmão Luan Gabriel Nogueira de Souza

Lucas Nogueira chora ao lado do corpo do irmão Luan Gabriel Nogueira de Souza

Edu Garcia/R7 - 06.11.2017

Era início da tarde de domingo (5) quando Luan Gabriel Nogueira de Souza, 14 anos, acordou, beijou a mãe sem ter escovado os dentes e foi para a rua comprar bolachas antes do almoço.

Luan não voltou para comer o bife à parmegiana que a mãe tinha feito. Esse era um dos pratos favoritos dele, de acordo com a cozinheira hospitalar Maria Medina, mãe do adolescente.

O menino morreu depois ter sido baleado na nuca por um policial militar na Travessa Sete, no Parque João Ramalho, em Santo André, na Grande São Paulo.

Segundo a Polícia Civil, Luan tinha participado de um furto a uma moto Honda/CG/125 vermelha no pátio de apreensão de veículos da Prefeitura Municipal de Santo André. Em patrulhamento, os policiais militares teriam visto o veículo sendo desmontado por jovens. Os policiais teriam, então, se aproximado dos suspeitos com a viatura e eles correram.

Foto de Luan estampava camisetas

Foto de Luan estampava camisetas

Edu Garcia/R7 - 06.11.2017

Ainda de acordo com a Polícia Civil, na fuga, “um deles (de cor parda, 1,70m, magro, idade aparente 20 anos, trajando bermuda), que empunhava um revólver calibre nominal .38 disparou contra os militares”. Para se defender, o cabo Alécio José de Souza teria disparado três vezes contra o atirador. A versão da família é outra.

O R7 acompanhou o velório do adolescente nesta segunda-feira (6). De acordo com a mãe do adolescente, o filho dela foi vítima de uma injustiça: “Meu filho não é bandido, meu filho não usa drogas, ele simplesmente estava passando em um lugar. Ele tinha medo de barata! Como ele estava com uma arma igual à que eles falaram? É mentira da polícia.”

Maria Medina diz ainda que, após cinco minutos da saída do filho, ficou sabendo que policiais tinha baleado e matado uma pessoa. Segundo ela, seu “coração de mãe” já tinha sentido que a vítima era Luan. “Eu quero justiça para não acontecer isso com outras mães”, afirma.

A mãe diz ter reconhecido o filho à distância, pois a polícia não permitiu que ela chegasse perto do filho. “A gente viu o corpo de uma laje da casa da minha sobrinha. Eu reconheci meu filho pelo solado do tênis dele, porque o corpo estava todo coberto. Quando a perícia saiu, o vento descobriu o plástico e aí eu vi o rosto do meu filho. Eu ainda tinha esperança que não era meu filho. Se eu tivesse impedido...”

De acordo com o boletim de ocorrência do caso, nenhuma arma foi encontrada com Luan.

Segundo Maria do Carmo, tia do adolescente, ele era um menino caseiro, tímido, medroso e que sonhava em ser médico. “A cunhada dele faz faculdade de medicina e ele colocava o jaleco dela e falava: ‘Eu vou ser igual você. Eu vou salvar vidas’”, lembra.

Luan, segundo a tia, sempre dizia que nunca iria correr da polícia em uma abordagem, porque “não devia nada”.

Mãe do jovem foi consolada durante o velório

Mãe do jovem foi consolada durante o velório

Edu Garcia/R7 - 06.11.2017

Velório

Durante o velório de Luan, muitos jovens se posicionaram em volta do caixão aos prantos. Algumas pessoas usavam camisetas com fotos do adolescente. Do lado do corpo, segurando suas mãos, estava Lucas Nogueira, de 23 anos, irmão mais velho dele. Chorando muito, ele dizia que teria que ter ido no lugar dele.

A mãe dos jovens diz que o filho mais velho está “arrasado”. Quando o pai dos dois morreu há cinco anos, ele teria prometido cuidar do irmão mais novo. Maria Medina tem também uma menina, de 2 anos, fruto de seu relacionamento com o padrasto dos garotos. Ela não foi até o velório.

Segundo Willian Xavier, pai da menina, aquele momento seria muito difícil para ela e, por isso, ele e a mulher optaram por deixar a criança com a babá.

Secretaria

A reportagem solicitou um posicionamento da SSP (Secretaria da Segurança Pública) sobre a morte de Luan. Foram enviadas as seguintes perguntas para a pasta:

- Os policiais foram atender a qual ocorrência?

- Os policiais chegaram atirando e em alta velocidade?

- Qual os nomes e o RE dos policiais envolvidos na ocorrência?

- Por qual motivo os policiais atiraram no menino?

- Será instaurado um inquérito policial para investigar o caso?

- Os policiais serão afastados das funções na rua até que o caso seja apurado?

Por meio de nota, a SSP disse que “foi instaurado inquérito policial militar pelo 10º BPM/M para apurar as circunstâncias do fato. A Corregedoria da PM acompanha, como é de praxe em casos envolvendo morte decorrente de oposição à intervenção policial. A investigação segue com o 2º DP de Santo André e pelo Setor de Homicídios da Seccional do Município”.

Outra morte

Outra pessoa morreu no final de semana em uma abordagem policial. Um homem morreu após ser baleado por um policial militar durante uma abordagem na rua Chubei Takagashi, em Jardim Bonifácio, em São Paulo, por volta das 6h deste sábado (4). De acordo com a Polícia Civil, o Soldado da PM Bruno Alan Cassio Medeiros atirou em Fabiano Francisco Estevão.

Ainda de acordo com a Polícia Civil, Estevão tentou tirar a arma da mão do policial, que atirou para se defender.

Caixão de Luan ficou rodeado de adolescentes, que choravam muito

Caixão de Luan ficou rodeado de adolescentes, que choravam muito

Edu Garcia/R7 - 06.11.2017