Celso Daniel: nova testemunha reforça tese de crime por encomenda

Empresário disse que ouviu garçom confessar ter recebido R$ 10 mil para atuar no sequestro

O ex-prefeito de Santo André Celso Daniel foi assassinado em 2002

O ex-prefeito de Santo André Celso Daniel foi assassinado em 2002

Itamar Miranda/28.05.1997/Estadão Conteúdo

Testemunha inédita do caso Celso Daniel que prestou depoimento ao Ministério Público de São Paulo na tarde desta terça-feira (26), em Santo André, afirma ter conhecido um ex-garçom que confidenciou sua participação no sequestro do ex-prefeito como “cavalo” (batedor), cuja função era avisar sobre a eventual presença da polícia, isso em troca de R$ 10 mil.

Segundo o promotor de justiça, Roberto Wider, o depoimento reforça a tese defendida pelo Ministério Público de SP de que o crime foi encomendado. Wider disse ainda que a testemunha deu informações com grande conteúdo de detalhes checados pelo MP.

A testemunha é Elino Carvalho, empresário preso em fevereiro 2002 suspeito de participação no sequestro e morte do ex-prefeito de Santo André. Durante a permanência na prisão, Elino diz ter conhecido Dionisio, suposto chefe da quadrilha que realizou o sequestro, e o ex-garçom Carlos Eduardo Costa Marto. O garçom é acusado de colaborar na fuga de helicóptero de Dionisio da penitenciária Parada Pinto em Guarulhos, dois dias antes do sequestro.  

Elino também conheceu outro preso “Carlão”, que deu detalhes do roteiro da fuga de Dionisio após a morte de Celso Daniel, mencionando inclusive sua passagem por Santa Catarina e Maceió, onde foi preso e reconduzido a São Paulo.

A prisão

Dono de um pesqueiro na rodovia BR116, a 20 km de onde o corpo do prefeito foi encontrado, Elino afirma que uma série de coincidências levaram a sua prisão. Na época, uma das quadrilhas envolvidas no crime era oriunda da favela “Pantanal”, na divisa de São Paulo e Diadema, e o pesqueiro casualmente leva o mesmo nome, “Pesqueiro Pantanal”.

Também conta que o pesqueiro estava alugado para um empresário que tinha uma Pajero preta, mesmo tipo de veículo utilizado no sequestro do prefeito e que nesse dia havia um carro modelo Santana cor azul de um cliente, enguiçado por problemas no motor cujas características coincidiam com as do segundo veículo visto no sequestro.

Com base nessas informações, policiais liderados pelo então delegado seccional de Taboão da Serra Romeu Tuma Jr. foram até o pesqueiro. Elino, que tinha porte de arma e estava vencido fazia um mês, foi preso pelo porte ilegal junto com outras quatro pessoas.

Durante os cinco meses que permaneceu na prisão, Elino conheceu os presos Carlão, Dionisio e o ex-garçom Carlos Eduardo Costa Marto.

Dionisio, chefe da quadrilha da favela Pantanal e apontado pelo MP como líder do grupo que sequestrou Celso Daniel, ficou dois dias na prisão antes de ser transferido para a penitenciária Belém I em Guarulhos, onde foi morto com 60 facadas.

Carlos Eduardo, ex-garçom do restaurante Rubayat, ficou amigo de Elino, ao ponto de confidenciar que recebeu R$ 10 mil para participar do sequestro como “cavalo” (batedor), ou seja, dirigindo um veículo alguns quilômetros à frente do carro que transportou Celso Daniel até Juquitiba, interior de SP, com o objetivo de avisar se havia policiais ou blitz na região.

Para a reportagem, Elino acrescentou que Marto teria dito que o local onde Celso foi assassinado não era o inicialmente planejado e que Celso deveria ser morto na estrada do França na mesma região e o corpo seria jogado na represa próxima para dificultar a busca. O local onde foi encontrado o corpo teria sido escolhido aleatoriamente após os sequestradores cruzarem  na estrada com uma viatura da polícia. Com medo, os criminosos atravessaram a estrada e poucos metros depois entraram no caminho de terra onde o ex-prefeito foi morto e abandonado às pressas.

A prisão de Elino e outras quatro pessoas nunca foi comunicada pelo delegado Tuma Jr. aos promotores que investigavam o caso. O promotor Wider conheceu as prisões graças à matéria veiculada na TV Record na última quinta-feira (21).

Ex-garçom nega acusações

Carlos Eduardo Costa Marto negou as acusações por telefone. Ele diz que foi condenado por participar do planejamento da fuga de Dionisio de uma penitenciária em Guarulhos, mas se diz inocente inclusive deste crime.

O ex-garçom que trabalhou na churrascaria onde Celso Daniel e Sombra jantaram antes do sequestro, foi inocentado das acusações relacionadas ao sequestro.

Assista ao vídeo: