Dona Maria Vilani: a mãe que deixou tudo para trás e carregou na mala o amor e a literatura
Com o quinto livro de poesias no forno, poeta fala de sua relação com a escrita
São Paulo|Giorgia Cavicchioli, do R7

Poeta, escritora, agitadora cultural, filósofa, professora e mãe. Assim é possível descrever, resumidamente, dona Maria Vilani. Antes de ser tudo o que é hoje, ela era apenas uma criança que queria aprender a ler. Com ajuda do pai, aprendeu a "desenhar" seu nome. Mas ela queria mais, queria entender outras formas de pensar.
Quando era criança em Fortaleza, no Ceará, dona Maria Vilani ia buscar carne ou peixe na venda, que vinham embalados em jornais. Como ela queria muito aprender a ler e entender o que os outros pensavam, ia correndo o mais rápido possível para casa. Assim as palavras não eram borradas pelo sangue ou pela água e ela podia ler um pouquinho que fosse.
— Minha infância foi igual a de todas as crianças do Nordeste, no Brasil dos anos 50: pessoas pobres, que lutavam com muita dificuldade.
Ela conta que até era possível, naquela época, que meninas estudassem. Mas era muito mais "bem visto" se, em vez disso, a garotinha se dedicasse a aprender os afazeres domésticos para se tornar uma "boa esposa".
Depois de casar, ela decidiu que iria para São Paulo em busca de uma melhor situação de vida. Levou junto apenas duas malas. Uma, cheia de roupas. A outra, lotada de livros — e dentro deles, mil possibilidades e realidades diferentes. Hoje ela lembra de um detalhe importante: a mala de livros era maior que a de roupas.
— Eu cresci dizendo que ia ser poeta.
Aos 18 anos, começou a escrever os primeiros poemas. Mas acabava amassando e jogando fora por não achar que eram bons o suficiente.
A forma como a literatura falava com ela mudou com a chegada dos filhos, cinco no total. Um deles, o Kleber, viria a se tornar um grande nome da música brasileira: Criolo, para o Brasil. Para ela, o Klebinho.
— Eles me ouviam, eu fazia composições de músicas para eles... Neles eu encontrei escuta.
Com os filhos, ela voltou também a estudar. Quando foi fazer a matrícula de Criolo, eles pensaram que ela podia também fazer a dela. Foi aí que dona Maria Vilani estudou ao lado do filho.
— Quando meus filhos começaram a adolescer, eu adolesci com eles. Eu aprendi muito com eles. A gente se ajudava muito. Eu estudava com ele em uma sala e tinha um em outra.
Ela diz que, nessa época, todos ficavam à vontade na escola. Eles não a viam como "a mãe" dentro da sala de aula. Lá era ela a colega, e eles se ajudavam nos estudos.
— Finais de semana a gente estudava. Foi tudo muito suave.
Suave também foi a educação dos filhos. Para ela, em vez de "dar uma bronca", é importante chamar os filhos para uma reflexão. Segundo ela, cabe aos adultos mostrar como funciona o "nosso olhar", porque a criança tem o modo dela de ver as coisas.
Assim é também o trabalho dela como professora: com diálogo.
— Meus filhos foram confiados a mim de uma forma, os meus alunos me foram confiados de outra.
Dona Maria Vilani também tem a confiança de muitos artistas de dentro e fora do Grajaú, bairro da zona sul de São Paulo. Lá, em 1990, ela criou o Caps (Centro de Arte e Promoção Social): um local que reúne artistas, poetas, escritores e também traz discussões sobre o mundo, as artes e a sociedade.
Depois de criar quatro livros, ela vai lançar, agora em junho, o seu quinto livro: A Lágrima e o Riso.
— Tenho um desejo de levar para as pessoas o meu pensamento.














