Entre córrego e barracos, mulher empreende na favela e cria filhas

Aos 29 anos, Karina superou a morte do pai da filha mais nova e outros obstáculos para empreender em favela da zona leste

Karina é empreendedora em favela de SP

Karina é empreendedora em favela de SP

Reprodução/Facebook

Foi superando a timidez e driblando o desemprego que a comerciante Karina de Andrade Ramos, de 29 anos, resolveu empreender para sobreviver de forma independente na comunidade conhecida como Favela da Ilha, no Parque Santa Madalena, extremo da zona leste de São Paulo.

Karina decidiu abrir um bar na entrada da favela em 2013, após ficar por dez meses desempregada. Antes disso, ela trabalhou em uma firma de produção de rodas para suportes e, quando saiu, teve alguns trabalhos provisórios. “Mas chegou um tempo que não tinha nem o dinheiro para o pão”, lembra.

Foi em meio a essa dificuldade que recebeu sugestões da família para abrir seu próprio negócio na comunidade. No começo, ela foi resistente à ideia, por ser “muito orgulhosa” e achar que teria a vida muito exposta trabalhando em comércio.

Neste momento da vida, enquanto procurava caminhos para ganhar dinheiro, Karina já era experiente, apesar da pouca idade (completando 22 anos). Ela já morava sozinha, ao lado da casa do avós, tinha filha e estava no segundo casamento — com quem teve, mais tarde, a segunda filha.

Mesmo assim, a história da comerciante tem um grande ponto de interrogação na infância. “Eu não sei a história certa de quem me criou, ouço apenas as versões e lembro dos meus seis anos para frente”, afirma.

Até os seis anos de idade, Karina diz acreditar na versão dos avós paternos. Esta diz que Karina, até os seus meses de idade, ficava com a mãe. No entanto, a mãe precisava sair para trabalhar e quem ficava com a responsabilidade pela menina era a avó materna, que sofria de alcoolismo e não cuidava devidamente.

Sem entrar na justiça ou qualquer outro meio formal, o pai de Karina tomou a posse da menina e ela, então, passou a ser cuidada pelos avós por parte de pai e visitava a mãe aos finais de semana. Até que chegou o momento que ela não quis mais ficar com a mãe, com cerca de seis anos de idade — agora, sim, com lembranças dela.

Vivendo onde está até hoje, Karina teve uma infância intensa. “Quando completei 12 anos, comecei a aprontar. Queria sair para balada, e ia escondido da minha avó. Saía na sexta e só voltava na segunda”.

A vida de balada durou por cerca de quatro anos, até conhecer a primeira pessoa com quem se relacionou mais sério e teve uma filha. O relacionamento foi interrompido por prisões do rapaz, mas depois, com ele solto, uma traição pôs fim ao casamento.

Em 2011, conheceu seu último parceiro. Ele, além de pai da filha mais nova de Karina, se tornou sócio na nova empreitada da jovem na Favela da Ilha.

Após o período de desemprego, Karina passou por cima do orgulho e começou se organizar para abrir o próprio negócio. Na entrada da favela que reside, no espaço que atualmente é uma quadra de futebol, era um espaço clandestino que os moradores jogavam lixo. Karina passou a pegar as madeiras jogadas no “mini-lixão” que daria para ser utilizados na construção de um espaço para trabalhar.

Montou um bar que vendia bebidas, cigarros e alguns doces. O estabelecimento era de madeira, entre a ponte que atravessa o córrego e o “mini-lixão” na entrada da favela.

O pensamento empreendedor de Karina, então, passou a ir além do que o espaço comportava. Ele pretendia ampliar o negócio, vender lanches e outras mercadorias, mas o espaço não era favorável, principalmente devido às condições de higiene.

Karina, então, atravessou a ponte para dentro da favela em busca de algum espaço mais adequado para pôr em prática suas ideias. O principal interesse foi um salão a poucos metros de seu bar. Ela queria alugar, mas a dona só queria vender.

“Falou que era R$ 20 mil, mas eu poderia dar uma entrada e parcelar o resto. Foi o que fiz: tirei todas economias que eu tinha no banco, peguei um pouco emprestado com a minha avó e parcelei o restante”, lembra.

A jovem foi para cima e, no novo espaço, passou a vender lanches e outras coisas. Ela ficava no salão dentro da favela, e seu companheiro no comércio na entrada da favela.

Em agosto de 2018, um ano após comprar o salão novo, pagou a última parcela. Ela já não estava mais junto com o pai da filha mais nova. Mas, nas ruas da favela, os pais criavam as crianças e Karina ganhava dinheiro.

A vida teve um novo baque quando homens armados foram no estabelecimento na entrada da favela, e mataram o ex-companheiro de Karina. O homem estava com a filha quando foi assassinado. Não há informações sobre o responsável pelo crime.

Novamente, Karina precisou se reorganizar para ganhar dinheiro para sobreviver. Voltou para o salão na entrada da favela e o de dentro, foi desativado temporariamente.

Para retomar o novo espaço de comércio, agora em alvenaria e muito mais organizado, Karina pensou, primeiro, em um nome criativo: “depois de várias sugestões, decidi colocar MC Favela”.

No local, vende lanches, bebidas e, esporadicamente, faz um bingo que enche o local. Do mais jovem ao mais velho, muitos passam na porta do comércio para perguntar quando que vai ter o jogo.

Agora, além do MC Favela, Karina trabalha para terminar a reforma do estabelecimento de dentro da favela, onde vai ser uma padaria.  “Quando enfio alguma coisa na minha cabeça, eu nem durmo. Então vou reabrir lá em breve”, disse.

Quando ficar com os dois comércios de novo, pretende contratar pelo menos uma funcionária e seguir com a ajuda de seu avô. Só assim acredita que vai conseguir realizar seu sonho de vida.

“Eu quero conseguir comprar um apartamento. Sei que sou maloqueira e gosto de bagunça mesmo, mas quero um lugar tranquilo só para dormir e para minhas filhas brincarem com segurança, porque vivo trabalhando”.