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Ex-coroinha que acusou padre de abusos sexuais cobra justiça

Rapaz de 22 anos, assediado quando era adolescente em paróquia no Guarujá (SP), diz que se expôs para evitar que outros jovens se tornem vítimas

São Paulo|Cesar Sacheto, do R7

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Lucas acusa padre de assédio
Lucas acusa padre de assédio

O estudante de engenharia civil Lucas Grudizien, de 22 anos, quer uma resposta por parte da Igreja Católica e das autoridades policiais para um gravíssimo crime do qual diz ter sido vítima por anos. Ex-coroinha, o jovem afirma ter sido abusado sexualmente por um padre da paróquia que frequentava quando menino, no Guarujá, cidade da Baixada Santista, no litoral de São Paulo. O padre Edson Felipe Monteiro Gonzalez negou o crime.

Traumatizado, o rapaz busca justiça e quer evitar que outras crianças e adolescentes se tornem vítimas de pedofilia no futuro. Por isso, decidiu expor a sua história, que começa em 2012, quando ainda era uma criança de 14 anos e entrou no curso de formação de coroinhas na Paróquia Bom Senhor Jesus, no bairro Morrinhos. 


Lucas ressalta que o seu objetivo é alertar jovens que estejam passando pela mesma situação, mas não tenham coragem de revelar os abusos para familiares ou autoridades por medo de represálias ou da incompreensão de amigos e parentes. "Vale a pena a exposição quando consigo ajudar alguém. As palavras de apoio me dão mais força."

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"Desde a última segunda-feira, mais de cinco pessoas entraram em contato comigo e disseram que nunca contaram [os abusos sexuais que sofreram] para ninguém. Nem para os próprios pais. Falar liberta. Quero que o meu testemunho sirva de alerta aos pais para perceber os sinais de isolamento, agressividade e vontade de morrer. Lembro do medo, da vergonha. Achava que a culpa era minha", desabafou.

"Deus concorda com isso"


A relação de Lucas Grudzien com o padre Edson Felipe Monteiro Gonzales se intensificou enquanto ele frequentava, ainda garoto, as aulas para se tornar coroinha. O sacerdote se tornou amigo da família e convenceu os pais a permitir que o adolescente trabalhasse na secretaria da igreja.

"Aos 14 anos, quando já tinha bastante tempo de coroinha, ele foi em casa. Até então, a gente mantinha uma amizade e conversava depois das missas. Um dia, virei a esquina e vi o carro dele na porta da minha casa. Quando entrei, ele estava na mesa com os meus pais. O meu pai disse: 'Olha Lucas, que notícia boa! O padre veio te chamar para trabalhar secretaria da igreja'. Eu já ajudava os padres. Mas o padre disse que eu poderia começar a trabalhar em três meses, depois que uma mulher deixasse a secretaria."


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Lucas contou que atuava como uma espécie de menor aprendiz, trabalhando nos arquivos e documentos da igreja — como arquivos de batizados, casamentos, etc. "Ele [o padre] tinha uma salinha entre o escritório e a secretaria. Era um anexo da igreja, junto à casa paroquial. Mas tudo na mesma construção. Parede com parede."

O jovem notou que mesmo antes de trabalhar na secretaria, durante as missas, o pároco iniciou uma aproximação e fazia perguntas consideradas constrangedoras sobre experiências pessoais e sexualidade.

"Eu estava nos fundos, acendendo o carvão do turíbulo [aparelho utilizado nas missas para santificar imagens em cerimônias solenes] e ele fazia a abordagem com perguntas íntimas. Por exemplo, se eu já tinha namorada ou beijado alguém. Na época, a resposta foi não. 'Você nunca beijou uma menina. Nunca beijou um menino? Tem que experimentar os dois'", revelou Lucas, que enfatizava não ter tido experiências porque tinha o sonho de ser padre.

O coroinha disse que não notava segundas intenções na fala do padre Edson Felipe porque confiava no religioso. "Hoje, consigo refletir, juntar as peças e saber como conseguiu ganhar a minha confiança. Ele criava uma intimidade e fazia me sentir especial, porque não conversava assim com ninguém. Ele me dava uma piscadela, uma olhada."

Primeiro estupro

Depois do primeiro contato, Lucas revelou que as relações se tornaram mais intensas e houve o primeiro ato sexual. Segundo o jovem, o agressor pediu para que ele ficasse até mais tarde na paróquia, para tanto, telefonou para a mãe e solicitou autorização.

"Foi quando ele me colocou para assistir um filme, pediu para sair da poltrona de um lugar só, disse para deitar com a cabeça no colo dele e começou a me acariciar. Foi um primeiro contato físico intenso. Antes, ele já me abraçava por trás. nunca levei isso na maldade. 'Deus concorda com isso. Você tem que respeitar a Deus. Deus sabe disso', dizia após praticar o abuso."

Consequências

Em meio à conversa, Lucas teve vários momentos de emoção ao recordar o assédio que sofreu do religioso. Ele revelou que passou a chegar em casa com a cueca suja de sangue. "Minha mãe pegava, mas eu inventava uma história."

Pressionado, o garoto passou a sofrer mudanças em seu comportamento com amigos e familiares. "Sempre fui muito carinhoso, mas fiquei agressivo. Minha mãe sempre me criou na linha, mas a autoridade que meus pais tinham sobre mim, ele tomou. Chegou um momento que respeitava mais ele que os meus pais."

Um dos temores de Lucas era que o padre interferisse no seu sonho de fazer o seminário e seguir na carreira religiosa. Achei que ele poderia me tirar da igreja, que não deixaria entrar no seminário. 'Para ser padre, você tem que obedecer a Deus', ele dizia. E eu me inspirava nele. Era a pessoa que queria ser", lembrou.

Intimidação

Lucas disse que o padre utilizava de coerção psicológica e chantagem para manter o silêncio da vítima em relação aos abusos praticados. "Para me calar, durante um ano e meio, [usou] uma escalada para criar autoridade e poder sobre mim. Sempre que me dirigia a ele era com hierarquia. Sempre 'senhor', nunca 'você'. 'Eu sou padre e vou ser seu padrinho (de crisma)'", dizia.

Perícia

Militar, o pai de Lucas procurou o Ministério Público para denunciar o crime. Em seguida, um boletim de ocorrência foi registrado na Delegacia de Defesa da Mulher do Guarujá, em 2013.

Lucas passou por exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML). À época, a perícia concluiu que o jovem havia sido submetido à relações sexuais cerca de um ano antes e que tal prática teria ocorrido até aproximadamente dois meses antes da realização dos exames, "especificamente coito anal e sexo oral".

No entanto, o MP arquivou o processo sem oferecer a denúncia à Justiça. Agora, a advogada que o representa deverá ingressar com um processo cível contra a Igreja Católica no qual solicitará a quebra de sigilo das conversas telefônicas do padre Edson Felipe.

A vítima entregou conversas que manteve com o suspeito pela internet e via SMS. Porém, Lucas acredita que o nervosismo e a ingenuidade demonstradas diante da autoridade policial influenciaram o resultado da investigação.

Troca de mensagens entre o ex-coroinha e o padre entregues à Polícia Civil
Troca de mensagens entre o ex-coroinha e o padre entregues à Polícia Civil

"Se tivesse tido uma orientação antes de fazer o B.O., hoje ele estaria preso. Porque, falei apenas que o padre transou comigo durante um ano e maio. Às vezes na sala, depois no quarto dele. No começo, ele usava preservativo. Não dei todos os detalhes", avaliou.

O universitário também acredita que houve falhas nos pedidos encaminhados para a apreensão das mensagens trocadas entre ambos e no material pertencente ao padre (computadores e aparelhos telefônicos).

"Ele ganhou uma promoção por ter feito o que fez. Vai fazer isso de novo? Quantos jovens mais terão que passar por isso? Quero justiça e [fazer] alerta. Espero o desarquivamento do processo. Meus pais se separaram. Desestruturou a familia. Éramos muito unidos, tínhamos muito amor. Depois disso, nunca mais", lamentou Lucas.

Outro lado

O bispo de Santos, D. Tarcísio Scaramussa, que assumiu a Diocese após os fatos denunciados por Lucas, disse que houve uma conversa com um padre na Cúria, no início de 2014. Depois foi enviada uma carta pelos pais diretamente à Congregação para a Doutrina da Fé, em Roma, que chegou às suas mãos em 2016, quando iniciou imediatamente as investigações.

"Foi realizada uma investigação prévia, em 2 de outubro de 2016, de acordo com as normas canônicas. Conforme previsto nestes casos, foi decretado o afastamento cautelar do padre do exercício do ministério sacerdotal. Toda a documentação relativa à investigação prévia foi enviada à Congregação para a Doutrina da Fé, em Roma, no dia 01 de novembro de 2016, pois estas causas dependem diretamente desta Congregação da Igreja."

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De acordo com D. Tarcísio Scaramussa, a Congregação para a Doutrina da Fé decidiu dar sequência às apurações por meio de um processo penal administrativo, que resultou na Penalidade Canônica de afastamento do Exercício Público do Ministério Sagrado por cinco anos. "Foi oferecido à família apoio e acompanhamento psicológico e religioso", destacou o bispo.

Atualmente, o padre realiza trabalhos técnicos junto ao Departamento do Patrimônio Imobiliário da Diocese (Depim) pertinentes à formação de arquiteto que possui. Mas o religioso está afastado do exercício público do ministério sacerdotal e não exerce nenhuma função ou atividade correspondente a este ministério.

"A Igreja realizou o processo canônico, tendo cumprido todos os procedimentos previstos nestes casos, ouvindo todas as partes, colhendo os documentos probatórios e ouvindo as testemunhas correspondentes. Esta parte dos processos está concluída e as penas impostas estão sendo cumpridas com o devido acompanhamento da Igreja. O objetivo do direito canônico é fazer cumprir a justiça e promover a correção das faltas cometidas. Ao final do tempo previsto de afastamento, a Igreja faz uma nova avaliação da situação e traça as novas decisões", complementou D. Tarcísio Scaramussa.

A reportagem do R7 não localizou o advogado criminalista que defende o padre Edson Felipe Monteiro Gonzales para comentar o assunto até a publicação desta matéria.

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