São Paulo Gegê movimentava até R$ 40 mi por mês com tráfico paralelo no exterior

Gegê movimentava até R$ 40 mi por mês com tráfico paralelo no exterior

MP investiga como um suposto desvio de dinheiro da facção criminosa teria possibilitado o enriquecimento do traficante e motivado sua morte

  • São Paulo | Fabíola Perez, do R7

Gegê do Mangue foi encontrado morto com os olhos perfurados

Gegê do Mangue foi encontrado morto com os olhos perfurados

Arte/R7

O tráfico internacional de drogas na Bolívia e no Paraguai estaria rendendo a Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e ao comparsa Fabiano Alves de Souza, o Paca, mortos em Aquiraz (CE) na sexta-feira (16), lucros entre R$ 20 milhões e R$ 40 milhões por mês.

De acordo com informações obtidas pelo R7, esse valor não estaria sendo repassado à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

Gegê do Mangue era tido um dos mais poderosos do PCC. Uma das hipóteses investigadas é o suposto desvio de dinheiro da facção para engordar negócios paralelos do traficante em liberdade e garantir a ele uma vida de luxo.

A maior parte dos líderes da facção arrecada lucros vultuosos de duas formas: com os negócios da própria organização criminosa e por meio de negociações particulares. Muitos deles, segundo investigadores do Ministério Público de São Paulo, seriam sócios de pontos de venda de drogas, o que geraria uma quantia na ordem de R$ 50 mil por semana.

Além de abastecerem as chamadas “biqueiras” na Grande São Paulo, Gegê e Paca atuavam também no comando do tráfico de drogas além das fronteiras. Investigações apontam que o que teria dado errado no caso de Gegê, e incomodado o líder da facção, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, seria a mistura dos negócios particulares com os da organização.

Como operava a estrutura internacional

Gegê cumpria pena na Penitenciária de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. Em fevereiro do ano passado, porém, foi posto em liberdade. A partir daí, Ministério Público de São Paulo suspeita que ele comandava o tráfico de drogas da facção na Bolívia e no Paraguai. “Ele acabou com os intermediários e estruturou o tráfico nessas regiões”, afirma o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) de Presidente Venceslau.

"Ele acabou com os intermediários e estruturou o tráfico nessas regiões"

Lincoln Gakiya, promotor

Segundo o promotor, Gegê e Paca teriam uma espécie de rede de contatos nesses países. “Eles montaram essas estruturas e começaram a eliminar os atravessadores, comprando maconha e cocaína diretamente dos produtores”, diz. Junta-se a isso o fato de que, nesse período, como Marcola e outros líderes estavam em Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), a autonomia de Gegê e Paca para tomar decisões era total.

Além disso, não havia lideranças acima de Gegê para controlar a contabilidade dos negócios na fronteira, o que teria fortalecido ainda mais as ações do número dois da facção. Isso endossa a linha de investigação que apura desvio de dinheiro do PCC por parte do traficante. “Com o isolamento da cúpula, ele teria ainda mais poder”, afirma Gakiya. A rápida ascensão de Gegê teria chamado a atenção de algumas pessoas. Há suspeitas de que integrantes do PCC na Bolívia informavam à cúpula sobre seu enriquecimento.

As tensões teriam se acentuado com a suposta participação de Gegê no assassinato do ex-integrante da cúpula do PCC Edilson Borges Nogueira, o Birosca, amigo de Marcola. Apesar de Gegê ser considerado um negociador hábil e articulado, as negociações teriam sofrido mudanças com a saída de Marcola do RDD. Sem o isolamento, as ordens circulariam com mais facilidade.

Mansão no Ceará, nômades na Bolívia

Polícia Civil do Ceará localiza mansão que seria de Gegê do Mangue

Polícia Civil do Ceará localiza mansão que seria de Gegê do Mangue

Divulgação Polícia Civil

Uma mansão avaliada em R$ 2 milhões e registrada em nome de um “laranja” é apontada pela Polícia Civil do Ceará como o local em que Gegê e Paca moravam em Aquiraz, Região Metropolitana de Fortaleza. “Embora eles e as famílias vivessem bem, não era esse o padrão de vida que tinham”, diz o promotor do Gaeco. Por isso, as suspeitas de que a vida de luxo teria sido possibilitada a partir de supostos desvios do caixa do PCC.

Procurados por diferentes órgãos de investigação, Gegê e Paca não costumavam se fixar em um mesmo endereço por muito tempo em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. “Eles passavam períodos em fazendas, em regiões rurais”, diz Gakiya. “Existem muitas fazendas de luxo, mas nada que eles pudessem usufruir por muito tempo.”

Salve nas penitenciárias

Há suspeitas de que ocorram nos próximos dias o chamado “salve”, ou aviso em penitenciárias do Sudeste e do Nordeste para que os detentos integrantes da facção sejam informados das razões da morte de Gegê e Paca. A Penitenciária de Presidente Venceslau 2, em São Paulo, já teria sido notificada de que as mortes seriam em represália a desvios de dinheiro.

Embora investigações do MP-SP apontem possíveis negócios paralelos de líderes da facção, o assunto seria tratado com bastante sigilo dentro da organização criminosa. As fontes que abastecem os caixas do PCC são, principalmente, o tráfico de drogas no Brasil e em outros países, o “caixinha” pago por integrantes e a venda de drogas com “pedágio” para filiados em reclusão.

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