Marcha da Consciência Negra fica 'mais diversa' e atrai público maior
Ato recebeu de entidades antigas e tradicionais aos coletivos da periferia
São Paulo|Gustavo Basso, do R7

Na chegada ao seu destino, os organizadores da 14ª Marcha da Consciência Negra encontraram o Theatro Municipal cercado por grades, limitando o acesso ao palco montado. O episódio foi encarado como “mais um percalço” no ato, que percorreu com tranquilidade os quase 4 km que separam o Masp (Museu de Arte de São Paulo) do teatro, ambos no centro de São Paulo.
A passeata desta segunda-feira (20) diferiu da edição de outros anos pela descentralização na organização.
"A juventude participou ativamente da organização da marcha deste ano. Ano passado ficou centralizado em entidades do movimento negro mais antigas e tradicionais. Esse ano outros movimentos também organizaram. Coletivos negros de periferia participaram, então a marcha teve uma cara mais diversa do ponto de vista de gerações”, explica Pedro Borges, editor da página Alma Preta.
Para ele, mesmo com chuva, a passeata deste ano reuniu mais pessoas que a do ano passado. Os organizadores estimam em 20 mil pessoas quando descia a rua da Consolação. Já a PM, por meio do capitão Mário Gomes, estimou o público em 3.000.
"A cada dia surgem novos movimentos de resistência nas quebradas, nas periferias. Essa marcha reflete isso: deslocada das lideranças tradicionais, mas fazendo luta concreta, reagindo ao genocídio, criando redes de proteção contra a violência policial e do Estado, e ao mesmo tempo preocupada com a elaboração de uma proposta política que venha desse povo”, afirma Douglas Belchior, da organização Uneafro, repetindo o mote da marcha deste ano: "Contra o Racismo e o Genocídio: Por um Projeto Político de Vida para o Povo Negro".
O estudante de relações internacionais Hudson Moreira também vê como necessárias as políticas voltadas à população negra. “Grande parte dos problemas enfrentados passam pela invisibilidade deles. Essa marcha não é só pela estética, mas para que as pessoas tenham a liberdade e orgulho de se afirmarem negras”, diz, apontando como prova o aumento do número de pessoas que se declaram negras e pardas segundo o censo do IBGE.
Diversidade
Entre dois carros de som e diferentes grupos de percussão que se espalhavam ao longo da passeata, figurava uma variedade de bandeiras de diferentes movimentos sociais com variadas reivindicações.
Ao menos dez movimentos sociais e políticos, que não têm o movimento negro como foco, dividiam o espaço com coletivos de defesa da população negra.
“O movimento social no Brasil é um movimento negro”, comenta Borges. Para ele, as fileiras de ativistas de movimentos de moradia ou educação são majoritariamente composta por negros. “Temos dificuldade em colocar a raça, a questão racial, como ponto central”, completa.
A fala de Borges vai de encontro à da professora da rede pública e coordenadora de um cursinho popular Luana Cristina. "Se estes movimentos ‘externos’ estiverem alinhados com as pautas do movimento negro, são bem vindos. Até porque são movimentos que não se dizem negros, mas se você for ver, os mais atingidos pelas reivindicações são justamente os negros”.
Para ela, a diversidade de grupos têm em comum se posicionarem à esquerda no espectro político porque “a direita não dialoga com as reivindicações”.
Festa e campanha
A marcha deste ano se concentrou e percorreu vias do centro sob chuva em grande parte do tempo. No início, por volta das 13h, centenas de pessoas se acumulavam sob o vão livre do Masp quando carros de som foram retirados, sob críticas.
A polêmica ocorreu porque, segundo os organizadores, a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) se recusou a dialogar com a organização da marcha, e ameaçou multar os veículos em R$ 5.600. A CET diz que qualquer veículo de som estacionado na via é multado, independentemente do evento.
Após a polêmica, a passeata transcorreu como uma festa, com grupos culturais, musicais e religiosos diversos ocupando espaço além dos movimentos.
"O mais importante de vir aqui hoje é interagir com gente igual a mim", disse a psicóloga Cibele Benisio.
Por volta das 19h deu-se o encerramento da manifestação, com falas de organizadores e apresentações do grupo Ballet Paraisópolis com a bateria da escola de samba Acadêmicos do Tatuapé. Em clima de campanha para as eleições de 2018, lideranças criticaram o prefeito de São Paulo e o presidente da República em gritos de ‘Fora Doria’ e ‘Fora Temer’, pedindo aos presentes consciência no voto no próximo ano.
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