Morador de rua dono de oito cachorros acusa PM e GCM de retirar seus pertences e o expulsar de bairro
Vizinhos teriam chamado autoridades. SSP informou que a PM não localizou a ocorrência
São Paulo|Giorgia Cavicchioli, do R7

O morador de rua Rogério Benedito Moreira, de 61 anos, e os amigos Tim Maia, Preta Gil, Ulysses Guimarães, Timbica, Bola, Preto, Bob e Boris Casoy — seus oito cachorros — estão sem local fixo para morar na região do Jabaquara, na zona sul de São Paulo.
O idoso relata que, no último sábado (1º), profissionais da Prefeitura de São Paulo, da GCM (Guarda Civil Metropolitana) e da PM (Polícia Militar) estiveram na rua Bicudo de Brito — local onde Rogério e os cães costumam ficar —, o agrediram e recolheram seus poucos pertences.
— Levaram carroça, roupas, comida dos cachorros... Eles já chegam derrubando as coisas, chega com polícia. Não tem conversa.
O morador de rua explicou que parte dos profissionais exigiu a nota fiscal dos objetos que ele carrega. Mas diz não ter como provar que eles são seus, pois tudo o que recebe é doação. Na região, Rogério é o único morador de rua. Com medo de morar em outro local, diz que não se mistura a outros do bairro porque são usuários de drogas.
— Sou eu, meus cachorros e Deus.
Embora receba ajuda de muitos moradores do bairro, Seu Rogério suspeita que outros habitantes da região, incomodados com sua presença, denunciaram a situação dele para a polícia e a prefeitura. O motivo, segundo ele próprio? O grande número de animais que o acompanha.
Ajuda e doações
Apesar do fato ocorrido no sábado, ele conta com a ajuda de outros moradores que se comovem com a situação dele e tentam ajudar como podem. Os vizinhos doam roupas, comida, ração e até álcool para que ele possa fazer uma fogueira improvisada com uma latinha e cozinhar. Os remédios que ele precisa tomar — Seu Rogério sofre de câncer no fígado — também chegam por doações.
Na última quarta-feira (5), por volta das 10h, quando a reportagem do R7 esteve no local, estavam lá as apoiadoras de Rogério e moradoras do bairro: Ana Rafaella Machado Arruda, Bárbara Fender Faustinoni, Ana Maria Leal e Alessandra Almeida. Com o grupo, também veio o café da manhã. O morador de rua pegou os pães franceses, o leite e o pão recheado e deu para seus companheiros caninos. Para ele ficou o café com leite que foi oferecido para a reportagem antes de tomar o primeiro gole.
Além dessa iniciativa, as amigas de Rogério contam que existe muito mais gente disposta a ajudar o morador de rua e os animais. São ao menos outras 15 pessoas que apoiam o homem. A ONG (Organização Não Governamental) Cão sem Dono também dá seu auxílio cuidando dos cachorros.

Mesmo com a ajuda que recebe, Rogério precisou lidar com duas perdas. A cadelinha Nina foi envenenada e morreu. Já Ox — o cãozinho circulado na foto ao lado — foi esfaqueado depois de latir para uma pessoa que passava pela região. Ao contar as histórias, ele busca fotos dos companheiros que já se foram dentro de um saco plástico e limpa os olhos cheios de água.
Com as fotografias, também estavam as carteiras de vacinação de todos os oito amigos. Ele conta que assim que percebeu que seriam retirados os seus pertences no último dia 1º fez questão de salvar a sacola “bem rápido”.
Sonho
Depois de vir da Bahia para São Paulo para ajudar a mãe, não achar emprego e precisar morar na rua, Rogério diz que teve que mudar de local quatro vezes na região por causa das abordagens da polícia e da GCM. Segundo o morador de rua, nenhum assistente social foi até o local dialogar com ele e diz que precisa “ficar em paz”.
— Abrigo pra mim não presta. Lá aceita no máximo dois cachorros e eu tenho um monte. Sem os cachorros não dá.
Ele diz que seu grande sonho hoje é que algum proprietário de sítio o chame para ser caseiro no local e que concorde em levar todos os animais com ele.

— Queria sair dessa rua. Não aguento mais. Tem hora que dá até vontade de fazer besteira.
Mesmo com tantos animais, as amigas do morador de rua contam que ele também acolhe outros cachorros que encontra machucados ou desamparados pelas ruas. Segundo elas, ele encontra uma família responsável e doa para quem quiser os bichinhos.
Carroça
O morador de rua explicou ainda que, quando os agentes retiraram seus pertences, ficou sem sua carroça (local que usa para dormir com seus animais). Porém, horas depois de os profissionais da prefeitura e do governo terem saído do local, ela foi achada pelas moradoras da região em uma rua a poucos metros dali.
Elas avisaram o morador de rua. Desde então, a carroça voltou a servir de abrigo para ele e para os animais nas noites que registraram essa semana temperatura abaixo de 10ºC, de acordo com o CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências).
Outro lado
A reportagem enviou cinco pergunstas para a SSP sobre o ocorrido: a PM foi acionada pelos moradores da região para retirar o idoso do local?; Profissionais da PM estão autorizados a agredir moradores de rua e retirar seus pertences?; Qual a orientação para conferência dos pertences do morados e qual é a punição para um cidadão que é abordado e diz não ter a nota fiscal de um bem que é dele?; A polícia está autorizada a acompanhar uma ação da prefeitura mesmo que não tenha nenhum crime envolvendo o morador de rua? E, por fim, quais foram os policiais que acompanharam a ação e de qual batalhão eles são?
Em resposta, a pasta enviou nota em que declara que "a Polícia Militar informa que, em relação às denúncias de irregularidades praticadas por policiais militares na rua Bicudo de Brito, no dia 1º de julho, com as informações passadas pela reportagem, não foi localizada a ocorrência nos Relatórios do Serviço Operacional de todas as viaturas que cobrem aquela região. No entanto, será instaurada uma investigação preliminar pela unidade responsável pela área, visando esclarecer o que ocorreu e tomar as providências necessárias. É importante ressaltar a necessidade de se registrar as ocorrências, visando colaborar com o trabalho de investigação e prevenção de quaisquer práticas criminosas".
Sobre a atuação de guardas municipais e agentes da prefeitura na ocorrência, também foram enviadas cinco perguntas para a prefeitura questionando se os profissionais da administração municipal e da GCM foram acionadas para retirar o idoso do local; se esses profissionais estão autorizados a retirar os pertences de moradores de rua; qual orientação eles recebem para conferir de onde vem os pertences e se pedir nota fisca faz parte do procedimento; por qual motivo um profissional da assistência social não foi até o local para lidar com a situação; por que a carroça do morador foi retirada dele mas deixada próxima ao local.
A prefeitura declarou, em nota, que "a Inspetoria Regional Jabaquara informa que não há registro de ocorrência na data e local informados pela reportagem, bem como no dia 2 de julho. A Guarda Civil Metropolitana reitera que todas as acusações de excessos são apuradas e, se confirmadas, punidas".
Ainda de acordo com o texto, "a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social informa que Rogério Benedito Moreira frequenta equipamentos da Prefeitura desde 2014 e tem histórico de rejeitar as ofertas de acolhimento feitas pelos assistentes sociais. Nas últimas semanas, não houve nenhum tipo de abordagem da pasta a ele".
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