"Não aguento mais humilhação", diz ambulante agredido por PMs em SP
Antes de se tornar ambulante, Francinaldo trabalhava como pedreiro e balconista. Segundo ele, já teve o carrinho apreendido por policiais 16 vezes
São Paulo|Fabíola Perez, do R7
Um vídeo compartilhado nas redes sociais mostra policiais militares agredindo um vendedor ambulante na esquina das ruas Frei Caneca e Peixoto Gomide, no centro de São Paulo, na madrugada do domingo (19).
"Eles me falavam: 'cala a boca, se não você vai apanhar'", disse ao R7 o vendedor Francinaldo Ferreira Cândido, de 30 anos. "Todo fim de semana eles prendem os carrinhos. Falei para meu amigo 'corre que a polícia vai pegar'", afirma. Nesse momento, segundo ele, dois policiais o abordaram. "O primeiro segurou minha touca e me levou para a base (móvel)".
O vídeo divulgado na internet mostra os policiais militares agredindo com socos, chutes, golpes de cassetetes e ofensas o vendedor. Segundo Francinaldo, ele e o colega, também ambulante, foram mantidos imobilizados em frente à base comunitária móvel da Polícia Militar. "Fiquei lá por mais ou menos quatro minutos", diz ele.
Nascido no Ceará, Francinaldo trabalha em São Paulo como vendedor ambulante há dois anos. "Foi a primeira vez que fui agredido, mas já tive prejuízo com 16 carrinhos, a maioria apreendido por policiais", afirma. "Sou balconista, ajudo com tudo, também faço bicos como pedreiro", diz.
Francinaldo diz ainda que chegou a entregar diversos currículos antes de se tornar ambulante. "Infelizmente, é irregular, mas é o único trabalho que tenho para viver e sustentar meu filho. Não aguento mais tanta humilhação." Embora estivesse com um carrinho de bebidas, no momento que as imagens flagraram as agressões, Francinaldo prefere vender espetinhos. "Já perdi três carrinhos de churrasco."
Ofensas e agressões

De acordo com o advogado e conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos) Ariel de Castro Alves, a discussão do ambulante com os policiais militares não justifica as ofensas e agressões que sofreu por parte principalmente de um dos PMs.
"O crime de abuso de autoridade pode gerar até seis meses de detenção e demissão do serviço público", explica o advogado. Segundo ele, o principal crime praticado foi de abuso de autoridade. "Quando o PM chama o rapaz de 'merda', temos um crime contra a honra, uma injúria."
Existem também, segundo o advogado, indícios de crime de tortura, que ocorre quando uma pessoa é constrangida com emprego de violência ou grave ameaça, principalmente quando o autor é agente do estado.
"Em princípio, pelas imagens, temos os crimes de abuso de autoridade, injúria, lesão corporal e tortura, supostamente cometidos pelo policial militar que parece ser o mais violento nas ações."
"Quando o PM manda o rapaz calar a boca, fazendo gestos de pretender bater mais, há também o crime de ameaça. Os demais PMs foram coniventes com as atitudes ilegais e abusivas do policial agressor", afirma Alves.
Outro lado
Por meio de nota, a Polícia Militar afirmou que não compactua com desvios de conduta. "A unidade Correicional de Polícia Judiciária Militar e Disciplina do CPA/M-1 instaurou Inquérito Policial Militar para apurar a ocorrência."
A Polícia Militar informou também que "no caso específico, policiais participavam de uma ação conjunta com fiscais da Prefeitura e GCM para fiscalização de comércio ilegal na rua Peixoto Gomide, esquina com a rua Frei Caneca, quando os fiscais foram hostilizados por frequentadores e ambulantes e a PM interveio."














