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Os últimos dias de Téia, o criminoso que ajudou o PCC a dominar o Paraguai

Após os ataques de 2006, facção trabalhou para se consolidar no tráfico internacional de drogas

São Paulo|Alvaro Magalhães, do R7

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À esq., Ilson Oliveira, o Téia; à dir., Carlos Caballero, o Kaiser
À esq., Ilson Oliveira, o Téia; à dir., Carlos Caballero, o Kaiser

Os últimos dias da vida de Ilson Rodrigues de Oliveira, o Téia, homem de confiança da cúpula do PCC, foram decisivos para que a facção consolidasse sua atuação no tráfico internacional de drogas.

Após os ataques de 2006, o domínio do comércio de entorpecentes se tornou a principal preocupação da organização criminosa. Hoje, o Ministério Público estima que 70% da renda do PCC venha do tráfico.


Morto em 5 de maio de 2011, Téia coordenou as ações que levaram a facção a deixar de negociar a compra de drogas com o paraguaio Carlos Antonio Caballero, o Baixinho da Kaiser, buscando o entorpecente diretamente no país vizinho.

A decisão fez com que o preço pago pelo PCC para adquirir pasta base de cocaína caísse, além de tornar mais barata a compra de armas no exterior.


Com a expansão internacional, a organização criminosa dominou o tráfico no Estado e se consolidou como fornecedora de traficantes de outras unidades da Federação.

Com isso, o perfil das ações da facção mudou: hoje são bem mais discretas do que na época em que São Paulo parou.


As negociações com Kaiser

Documentos do Ministério Público apontam que ao menos desde 2010, o PCC negociava o fornecimento de drogas com Kaiser, que estava detido em uma penitenciária de seu país, de onde comandava o tráfico.


Interceptação telefônica de 20 de julho de 2010 mostra Kaiser conversando com Samuel Augustino Roque dos Santos, o Tio Pec, detido na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, onde está a cúpula do PCC. Na gravação, Kaiser cobra pagamento de droga encomendada. Só nessa negociação, o investimento feito pela organização criminosa em entorpecentes chega a R$ 1 milhão.

Além de drogas, Kaiser também negociava armas com o PCC. Dois meses antes de o Ministério Público identificar a conversa sobre a compra do entorpecente, outra ligação, realizada em 15 de maio de 2010, mostra Tio Pec pedindo três fuzis ao paraguaio. Kaiser cobra R$ 33 mil por cada um.

A relação entre Kaiser e os integrantes do PCC era estreita a tal ponto que o paraguaio era considerado líder da facção brasileira no país vizinho. Os próprios integrantes do PCC o tratavam como “irmão”. Kaiser, no entanto, tinha certa autonomia e obtinha alto lucro nas negociações.

O ‘salve’ paraguaio

Apesar de o intermediário encarecer o preço da droga comprada pelos integrantes brasileiros da facção, reduzindo as margens de lucro da organização criminosa ao vender o entorpecente, o objetivo inicial do PCC não era tomar o Paraguai.

Em interceptação telefônica de 16 de agosto de 2010, Tio Pec repassa aos integrantes da facção no Paraguai um “salve” (ordem das instâncias superiores do PCC).

“O salve tem o propósito de conscientizar todos para a conquista da paz, justiça, liberdade e igualdade, pois todos estão em território hostil e precisam de bastante seriedade, responsabilidade e dedicação na luta contra as injustiças e opressões. Os ideais não é ser [sic] donos da fronteira ou demais regiões do País, nem mesmo o poder absoluto. E, sim, dentro do que é certo, correto e justo, conquistar e esperar que o derramamento de sangue logo se acabe", dizia a mensagem.

Téia vai ao Paraguai

Em 2011, porém, Téia é mandado pelo PCC ao Paraguai para tratar dos negócios da facção no país vizinho. O enviado já era considerado um homem de confiança dos líderes da facção. “Ele transpira a família”, havia afirmado, em interceptação telefônica de 20 de outubro de 2010, Roberto Soriano, o Betinho Tiriça, detido na Penitenciária Federal de Porto Velho (RO) e apontado como um dos oito integrantes da cúpula do PCC.

No Paraguai, Téia discorda do modo de atuação de Kaiser. Em ligação interceptada pelo Ministério Público em 30 de março de 2011, ele fala a Abel Pacheco de Andrade, o Abel Vida Loka, detido na P2 de Venceslau e apontado como outro dos oito integrantes da cúpula do PCC, que vai “arrumar uma briga cabulosa” e acrescenta que Kaiser “não presta”. “É a maior safadeza, maior patifaria, pois [Kaiser] compra o bagulho dos outros e não paga”, diz Téia.

Abel Vida Loka pede para que Téia vá "com cautela e segurança". Téia diz que vai "na prudência e na inteligência" e afirma que pretende apurar melhor a situação.

No dia seguinte, 31 de março de 2011, em nova conversa com Abel Vida Loka, Téia coloca na linha uma testemunha de acusação contra Kaiser. O enviado do PCC repete que o líder paraguaio “faz umas coisas que é fora [sic] da disciplina da família, manda matar, manda fazer, pega dinheiro do comando e não paga quem tem que pagar".

Primeira exclusão de Kaiser

Cinco dias mais tarde, em 5 de abril de 2011, Téia volta a ligar para Abel Vida Loka e afirma que, após apurar toda a situação no Paraguai, decidiu excluir Kaiser do PCC, deixando de negociar com ele. E ainda dá a entender que dois brasileiros da facção foram mortos.

“Dois irmãos, o Renatinho e o Ramão, foram dar uma viajada para visitar o Bruno e o Marrone, por denegrirem a imagem da família [PCC], obterem benefícios próprios e tirarem a vida de inocentes”, afirma Téia.

A cúpula do PCC recebe também a informação de que Kaiser estaria impedindo que outros traficantes fizessem fretes de drogas para o Brasil.

Auditoria no Paraguai

A decisão de Téia, no entanto, é contestada por outros integrantes do PCC, que alegam que Kaiser não foi ouvido antes de ser excluído. Em 6 de abril de 2011, então, um dia após a iniciativa de Téia, Abel Vida Loka, em uma conferência telefônica interceptada pelo Ministério Público, manda suspender a exclusão do paraguaio para que ele possa apresentar as “contraprovas”.

No dia seguinte, 7 de abril de 2011, é o próprio Kaiser que aparece em uma ligação a Almir Rodrigues Ferreira, o Nenê do Simioni, também detido na P2 de Venceslau. Kaiser reclama: “Estão falando que sou malandrão e tal, fui acusado de um monte de caminhada e não tive chance de provar o contrário.”

Nenê pergunta se Kaiser tem como provar que ele não fez nada. Após resposta afirmativa, Nenê diz que é para ele "reunir todas as provas e testemunhas, que vão apurar o caso novamente e terá a oportunidade de ser ouvido”.

O PCC, então, afasta Téia de suas funções e envia ao Paraguai Luis Henrique Fernandes, o Magrelo, para verificar se as apurações sobre Kaiser haviam sido corretas. A auditoria demora cerca de duas semanas.

À esq., o senador Acevedo; à dir, fuzil achado após morte de Téia
À esq., o senador Acevedo; à dir, fuzil achado após morte de Téia

Segunda exclusão de Kaiser

Em 15 de abril de 2011, Magrelo relata o resultado de suas investigações a Abel Vida Loka. “Não tem nenhuma situação de injustiça com relação a isso [apuração feita por Téia], ele [Kaiser] mesmo reconheceu que cometeu alguns erros dentro da disciplina do comando.” Magrelo diz que conversou com bastante gente e que Kaiser foi acusado de “matar pessoas, de tabelar mercadoria, de não pagar o frete e de extorquir”.

Magrelo ainda atribui a morte do traficante paraguaio Pedro Pablo Quevedo Medina, o Peter, aos homens de Kaiser.

Conhecido em seu país por ter sido apontado como o mandante do atentado contra o senador paraguaio Roberto Acevedo, em abril de 2010, Peter havia sido um dos primeiros contatos do PCC no Paraguai, quando, em 2008, a facção iniciou sua atuação além da fronteira brasileira.

Em novembro de 2010, o traficante foi brutalmente assassinado: seu corpo foi encontrado no dia 27 daquele mês, esquartejado, em uma plantação de soja a 15 km da cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero.

Ao fazer seu relato a Abel Vida Loka, Magrelo sugere que a vida de Kaiser seja poupada, mas que ele seja, de fato, excluído da facção.

Em 16 de abril de 2011, um dia após ouvir o relatório de Magrelo, Abel Vida Loka é flagrado em conversa telefônica com Tiriça descrevendo ao parceiro de cúpula da facção a decisão final sobre Kaiser: “Foi decidido pela exclusão e o resto a natureza cuida. Se fosse levar a pé da letra, era xeque [pena de morte]”.

Novas diretrizes e retorno de Téia

Em 2 de maio de 2011, Abel Vida Loka é flagrado em conversa telefônica com Magrelo comentando sobre os novos objetivos do PCC no Paraguai. “Nosso propósito é ganhar um espaço lá, sim, para estruturar cada vez mais a família, montar nossa base, montar toda nossa estrutura e xeque, mas sem aplicar pânico, terror e intimidar, sem nada disso, somente com o nosso respeito e nossa ideologia.”

Dois dias depois, em 4 de maio de 2011, Abel Vida Loka comunica a Téia que ele está autorizado a voltar para seu posto. "O Magrelo apurou os fatos no Paraguai e confirmou tudo”, diz. “Então pode pegar o fura [fuzil] e voltar para a sintonia".

Lucro da facção aumenta

Com a iniciativa de Téia de excluir Kaiser, confirmada posteriormente pela cúpula do PCC, a facção passa a negociar diretamente com os fornecedores.

Conversas interceptadas pelo Ministério Público indicam que os fuzis, anteriormente comprados por R$ 33 mil cada do paraguaio, passam a ser adquiridos por R$ 18 mil.

Nas gravações, não é possível precisar, em números exatos, a economia da organização criminosa na compra da cocaína, mas estima-se que a redução do preço da droga tenha sido semelhante à do preço das armas.

A morte de Téia

Em 5 de maio de 2011, um dia após receber autorização de Abel Vida Loka para voltar à ativa nas ações da facção, Téia é morto em uma ação da Rota. Ele estava em uma chácara de alto padrão, com duas piscinas, em Itatiba, interior de São Paulo, quando os policiais chegaram.

Além de Téia, mais dois suspeitos de integrarem a facção morreram. À Polícia Civil, a Rota afirmou que houve troca de tiros. Cinco pessoas foram presas. O filho de Tiriça, um adolescente de 17 anos que também estava no local, foi detido e liberado.

Na chácara, os policiais encontraram três pistolas, uma metralhadora e um fuzil 223 Remington, de fabricação americana. Não se sabe se o fuzil era o que Abel Vida Loka havia mencionado ao conversar com Téia no dia anterior.

À esq,. Abel, interlocutor de Téia; à dir, Paca, que está no Paraguai
À esq,. Abel, interlocutor de Téia; à dir, Paca, que está no Paraguai

Policiais corruptos

No local da morte de Téia, foram também encontrados computadores e pen-drives que continham arquivos com tabelas em formato Excel com a contabilidade dos negócios do PCC. As interceptações telefônicas do Ministério Público indicam que policiais corruptos tentaram devolver o pen-drive à facção.

Em 7 de maio de 2011, dois dias após a morte de Téia, Antônio José Müller Júnior, o Granada, também detido na P2 de Venceslau com a cúpula da facção, recebe ligação de uma pessoa identificada apenas como Keno, que diz que "foram trocadas umas ideias lá no prédio para retirar os pen-drives e o computador que estão lá, porque tem várias situações com várias informações."

O Ministério Público acredita que o "prédio" mencionado na conversa seja o Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado), da Polícia Civil, para onde o material foi levado.

Pouco depois, na mesma conversa, Keno menciona explicitamente o Deic, dizendo que "já foi trocado umas ideias no Deic lá e os policias passaram que é só encostar lá para trocarem umas ideias para estar tirando esses pen-drives aí, que tem uma conversa". Granada diz que "é para dar total apoio nessa situação". Aparentemente, no entanto, as negociações entre o PCC e os policiais corruptos não prosperaram.

Paca no Paraguai

Após a morte de Téia, o PCC trabalhou para ocupar o espaço deixado pela exclusão de Kaiser e disseminar seus ideais no país vizinho.

Atualmente, o Ministério Público acredita que é Fabiano Alves do Souza, o Paca, único dos oito integrantes da cúpula do PCC em liberdade, que comanda as ações da facção no Paraguai.

Liberado da cadeia após um habeas corpus obtido em 2014, ele teria se refugiado lá para tratar pessoalmente dos negócios internacionais da organização criminosa, que hoje são considerados estratégicos para a sobrevivência do PCC.

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