São Paulo Paulistanos cobram política contra racismo de aplicativos, diz pesquisa

Paulistanos cobram política contra racismo de aplicativos, diz pesquisa

Nove em cada dez moradores de São Paulo acreditam que empresas de entrega devem se envolver para assegurar ambientes antirracistas

  • São Paulo | Fabíola Perez, do R7

Paulistanos cobram ambientes antirracistas para empresas de entrega por app

Paulistanos cobram ambientes antirracistas para empresas de entrega por app

Cristiane Mattos/Estadão Conteúdo

Nove em cada dez paulistanos acreditam que empresas de entrega por aplicativo devem se envolver para prevenir e assegurar um ambiente antirracista. Esse é o resultado da pesquisa sobre relações raciais em São Paulo, realizada pela Rede Nossa São Paulo e divulgada nessa quinta-feira (19). Entre a população branca, 87% defende políticas contra a discriminação nessas empresas e entre pretos e pardos, 93% consideram necessário assegurar um ambiente antirracista.

Apesar dessa percepção, casos como o do entregador Mateus Almeida Prado, vítima de agressões racistas em Valinhos em agosto, demonstram que muitas pessoas, ao presenciarem práticas racistas não denunciam, nem intevêm. Isso porque, segundo o sociólogo e curador de conhecimento na empresa Inesplorato, Túlio Custódio, a sociedade reconhece a existência do racismo, mas as pessoas não se consideram racistas. “Há racismo, mas ninguém é racista.”

De acordo com a pesquisadora da Rede Nossa São Paulo, Carolina Guimarães, em decorrência da pandemia do novo coronavírus houve um aumento nos serviços prestados por empresas de entrega por aplicativos. “Esse crescimento na demanda foi acompanhado por uma precarização. Muitos entregadores sofreram discriminação e foram responsabilizados por problemas referentes ao sistema."

“Isso demonstra que essas empresas precisam se responsabilizar por esses ambientes de trabalho e por eventuais crimes ocorridos.” Para isso, a pesquisadora afirma que seria necessário organizar um bando de dados sobre o perfil dos entregadores, conscientizar as equipes, debater a precariedade do trabalho e criar mecanismos para delatar clientes com comportamentos racistas.

"Muitos entregadores sofrem racismo e não sabem como começar a mobilizar, não conhecem os caminhos para fazer a denúncia ao próprio aplicativo"

Aline Nascimento, do Instituto Identidades do Brasil

A pesquisa demonstrou que não há diferenças regionais em relação ao dever das empresas na prevenção e enfrentamento ao racismo. Segundo o levantamento, na zona norte, 83% da população acredita que as companhias devem se envolver em práticas antirracistas, na zona leste este percentual foi de 91%, no centro, 89%, na zona sul, 93% e, por fim, na zona sul, 93%.

“Precisamos de informação, muitas pessoas sofrem racismo e não sabem como começar a mobilizar, não conhecem os caminhos para fazer a denúncia ao próprio aplicativo”, afirma Aline Nascimento, analista de desenvolvimento de ações afirmativas e treinamentos em empresas do Instituto Identidades do Brasil. “Além disso, temos uma justiça que também é racista. Por isso, os aplicativos precisam pensar em assistência jurídica e psicológica para que essas pessoas continuem vivendo sem ter medo ter enfrentar uma nova experiência racista.”

Aumenta percepção sobre o crescimento do racismo

O estudo demonstrou ainda que cresceu entre os paulistanos a percepção de que a discriminação contra a população negra aumentou na cidade nos últimos 10 anos. Os moradores das regiões norte e leste se destacam entre os que avaliam que o racismo cresceu na última década. Na zona norte, 53% da população acredita que as práticas racistas aumentaram e na zona leste, 54% entendem que a discriminação contra a população negra cresceu.

“Essa percepção aumentou entre brancos, pretos e pardos e isso está relacionado a forma como a pauta racial está sendo trabalhada na agenda, permeando diversos setores”, explica Carolina. “As pessoas estão mais conscientes independentemente da classe social. A ideia de não se aceitar o que até antes era considerado normal ganha força, passa-se a questionar determinadas construções sociais.”

"Os aplicativos precisam pensar em assistência jurídica e psicológica para que entregadores continuem vivendo sem ter medo de enfrentar uma nova experiência racista"

Aline Nascimento, do Instituto Identidades do Brasil

A pesquisa revelou ainda que para mais da metade dos moradores de São Paulo, os protestos ocorridos em várias cidades do mundo decorrentes da morte de George Floyd, pedindo o fim da violência policial contra a população negra, provocaram maior conscientização sobre o racismo também no Brasil. Entre brancos, essa percepção foi de 54% e entre a população de pretos e pardos, 53%. “As pessoas estão se posicionando nas redes sociais”, diz Carolina.

Entretanto, a pesquisadora ressalta que entre o aumento dessa percepção e mudanças concretas ainda há uma significativa distância. “Vivemos em uma sociedade que preza a meritocracia e não entende que vivemos em uma sociedade muito desigual. Não se está dando as mesmas oportunidades a todos, basta olhar para o ambiente de trabalho e perceber a ausência de pessoas negras.”

Protestos globais ajudaram a aumentar percepção sobre crescimento do racismo

Protestos globais ajudaram a aumentar percepção sobre crescimento do racismo

Reprodução/EFE/EPA/Ian Langsdon

O abismo entre a percepção demonstrada na pesquisa e a prática pode estar em políticas como programas de treinnes para a população negra. “Muitas empresas exigem um nível de inglês fluente em processos seletivos, mas não consideram as dificuldades de acesso à educação para determinados segmentos da população”, diz Carolina. “É preciso haver uma porta de entrada para as pessoas terem mobilidade social e, nesse sentido, as ações afirmativas são muito importantes.”

A pesquisa mostra também que em shoppings centers, 81% dos paulistanos acredita que há diferença de tratamento entre pessoas brancas e negras. “A mudança poderia ocorrer, por exemplo, se fossem contratadas mais coordenadoras negras para esses locais”, afirma Carolina.

O sociólogo e curador de conhecimento na Inesplorato, Túlio Custódio, explica que além das manifestações globais contra o racismo, as pautas raciais ganharam mais peso nos últimos anos. “Elas entraram no debate a partir de demandas e exigências dos movimentos negros”, diz. Custódio afirma ainda que isso deve se refletir no próximo Censo. “Veremos uma mudança na autodeclaração de pessoas pretas e pardas em relação aos anos anteriores”, afirma. O aumento dessa percepção sobre o crescimento de práticas racistas é importante, segundo o sociólogo, porque durante muito tempo o racismo foi negado no Brasil. “Era visto como um problema pontual e não estrutural.”

Entregador Mateus foi vítima de injúria racial em Valinhos (SP)

Entregador Mateus foi vítima de injúria racial em Valinhos (SP)

Reprodução/Twitter

O caso emblemático foi o do motoboy Mateus que sofreu ofensas e agressões em um condomínio de luxo na cidade de Valinhos, interior de São Paulo, em agosto. Um vídeo divulgado nas redes sociais mostrou um homem ofendendo o profissional ao dizer: “você tem inveja disso aqui”, apontando para a cor da pele. A família do agressor afirmou que ele sofria distúrbios mentais. “Houve uma patologização do racismo, que ocorre quando se afirma que determinados seres são desajustados. Isso tira o foco do racismo como um problema estrutural.”

“Com a conscientização, veremos uma mudança na autodeclaração de pessoas pretas e pardas no próximo Censo"

Túlio Custódio, sociólogo

O mito da democracia racial, conceito que nega a existência do racismo no país, faz com que, segundo Custódio, idealmente as pessoas não esbocem seus preconceitos. “Isso opera de forma que se acredite que manifestações de discriminação seja exceções”, diz. “O que a população negra afirma é justamente o contrário: essas situações são parte do normal.” 

A analista do Instituto Identidades do Brasil afirma que a percepção de que o racismo cresce ocorre porque mais pessoas negras estão reivindicando e ocupando espaços. “Estamos falando de disputas de espaços e, com isso toda, a sociedade se movimenta, o que faz algumas pessoas terem a sensação de que estamos retrocedendo. No entanto, estamos enfrentando mais, buscando mais direitos”, afirma. Aline também afirma que a ideia de que o racismo está no outro é preponderante no país. “Cobramos o poder público, as empresas, mas também precisamos nos colocar como molas de transformação e peças fundamentais para essas mudanças.”

"A sociedade reconhece a existência do racismo, mas as pessoas não se consideram racistas. Há racismo, mas ninguém é racista.”

Túlio Custódio, sociólogo

A analista cita a escritora e ativista estadonidense Angela Davis que afirma que “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. “Trata-se de observar como nos silenciamos diante de nossos privilégios que mantém o racismo estruturado.”

No caso das empresas de aplicativo de entregas, Custódio afirma que é preciso pensar o racismo relacionado ao sistema capitalista. “Um sistema não se reproduz sem o outro”, diz. “Existe um processo de desenvolvimento do capitalismo com trabalhos não qualificados, altamente flexíveis, sem nenhum tipo de direito e um ambiente histórico de pessoas negras mantidas em lugar de subserviência.”

Para o sociólogo, o entregador de aplicativo está inserido no contexto da chamada “viração”, em que determinadas pessoas precisam “se virar” para obter renda. “Isso faz parte da história do Brasil e quem está nesses bicos são as pessoas negras”, explica. “Esse tema tem sido discutido porque há uma precarização que tem chegado à classe média, pessoas que supostamente não deveriam estar precarizada, postos de trabalho historicamente ocupados por pessoas brancas e de classes mais altas.”

Durante a pandemia, afirma Aline, o próprio aumento da demanda por serviços de entrega faz parte de um contexto de classe. “Uma camada da população consegue se proteger e outra não porque atua nesses postos de trabalho, o que demonstra a lógica de classe e raça.”

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