São Paulo PMs dão 'mata-leão' e motoboy morre na frente da mãe

PMs dão 'mata-leão' e motoboy morre na frente da mãe

Crime foi em maio de 2010. Três anos depois, PMs foram absolvidos da acusação de homicídio

PMs dão 'mata-leão' e motoboy morre na frente da mãe

Motoboy Alexandre Santos foi morto em maio de 2010, na Cidade Ademar, zona sul de SP

Motoboy Alexandre Santos foi morto em maio de 2010, na Cidade Ademar, zona sul de SP

EVELSON DE FREITAS/ESTADÂO CONTEÙDO

Véspera do Dia das Mães de 2010. O motoboy Alexandre Menezes dos Santos, 26 anos, pilota sua moto recém-comprada, ainda sem placa, quando um carro da Polícia Militar de São Paulo (com quatro policiais) começa a persegui-lo pelas ruas da Cidade Ademar, periferia da zona sul de SP.

Alexandre volta da pizzaria onde trabalha para sustentar o filho, de três anos, e a mulher. Os documentos da moto estão em ordem, em processamento no Detran (departamento de trânsito), assim como a placa, mas o motoboy, jovem, negro e morador da periferia, teme a repressão dos policiais e decide seguir até a porta da casa da mãe, onde vai parar e explicar aos PMs por que não parou antes.

Um mês antes de Alexandre virar alvo dos PMs na Cidade Ademar, Eduardo Luís Pinheiro dos Santos, 30 anos, também motoboy, negro e morador da periferia, fora sequestrado na zona norte de São Paulo. Levado para um quartel da PM no bairro da Casa Verde, ele foi espancado até a morte por nove policiais. O crime teve repercussão nacional e obrigou o então comandante-geral da PM, Álvaro Batista Camilo, a pedir desculpa à mãe de Eduardo, Elza Pinheiro dos Santos.

Alexandre não tem tempo de se explicar e é atacado pelos quatro PMs. Sua mãe, a dona de casa Maria Aparecida Menezes, percebe o tumulto, sai à porta de casa e tenta livrá-lo dos PMs. Atacado com um “mata-leão”, Alexandre caiu. Seu pescoço estava mole. A causa da morte foi asfixia e traumatismo craniano. Dona Maria, no enterro do filho, no Dia das Mães de 2010, repetia aos presentes como tentou evitar a morte do filho.

— Eu tentava segurar a mão do policial e pedia pelo amor de Deus para que parasse de bater no meu filho. Eles ficaram meia hora batendo nele e depois o enforcaram na minha frente.

Três anos após a morte de Alexandre, os PMs Carlos Magno dos Santos Diniz, Ricardo José Manso Monteiro, Alex Sandro Soares Machado e Márcio Barra da Rocha foram absolvidos por quatro votos a três pelo assassinato do motoboy. Eles foram julgados por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, meio cruel pela asfixia e recurso que impossibilitou a defesa da vítima).

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Desde a morte do motoboy, sua mãe passou a enfrentar graves problemas de saúde, alguns de ordem cardíaca, e não pôde falar com a reportagem do R7 sobre sua perda e a absolvição dos PMs responsáveis pela morte do filho, segundo a corretora de imóveis Marluce de Oliveira, tia de Alexandre.

— Desde a morte do Alexandre, a minha irmã [Maria Aparecida] nunca mais foi a mesma. A vida dela virou de um jeito que nem mesmo mais saúde ela tem agora.

Para Marluce, a morte de Alexandre escancara a violência de alguns membros da Polícia Militar de São Paulo.

— Se é negro e morador da periferia, não tem jeito, muitos PMs, não todos, claro, perseguem mesmo. Quem vive na periferia de São Paulo sabe do que estou falando. Eu mesma não teria parado para os policiais naquela madrugada de maio de 2010. Eles iam apreender a moto novinha dele e o rapaz não ia ter condições de pagar as prestações em dia.

Maria Aparecida durante despedida do filho, em maio de 2010

Maria Aparecida durante despedida do filho, em maio de 2010

Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo

Ao ser questionada sobre possíveis motivos que levaram os quatro PMs a serem absolvidos da acusação de matar o sobrinho, Marluce não encontra resposta para as dúvidas que até hoje rondam toda a família do motoboy.

— Não sabemos como os jurados, que também são gente do povo, absolveram os quatro [PMs]. Era evidente a culpa deles, mas acabou tudo em pizza. Será que vocês imaginam o que foi encontrar um dos PMs que haviam matado meu sobrinho, um jovem trabalhador, casado e pai, outro dia aqui na rua do bairro? É um buraco enorme que toma conta do peito. A indenização que o Estado de São Paulo pagou pela morte dele nunca será suficiente para amenizar a dor que sentimos. Dinheiro não paga a vida de ninguém.

Assista ao vídeo: