São Paulo PMs que faziam bico no Morumbi matam jovem a caminho de festa, afirma família

PMs que faziam bico no Morumbi matam jovem a caminho de festa, afirma família

Alexandre dos Anjos foi morto há duas semanas por policiais da Força Tática de Carapicuíba

  • São Paulo | Guilherme Lima, do R7

Amigos e familiares protestam contra ação dos policiais militares e pedem justiça, liberdade e paz

Amigos e familiares protestam contra ação dos policiais militares e pedem justiça, liberdade e paz

Reprodução

Parentes de dois jovens baleados pelos policiais militares M. S. e H. B., da Força Tática do 33º Batalhão (Carapicuíba), em uma rua de alto padrão no Morumbi, zona sul da capital, na madrugada do dia 31 de agosto, acusam os policiais de homicídio. Os familiares fizeram um protesto no vão livre do Masp no último domingo.

O caso foi apresentado pelos PMs no 89º DP (Jardim Taboão) como uma tentativa de roubo. Os PMs, que estavam de folga, afirmaram à Polícia Civil que estacionaram às 3h30 na rua Jayme de Almeida Paiva, uma via sem saída, para fazer uma pesquisa no GPS. Na versão dos policiais, Alexandre Barreto dos Anjos, de 19 anos, e Valter de Assis da Rocha, de 20, teriam chegado de moto ao local e tentado abordar os PMs.

Anjos morreu no local e Rocha foi ferido a tiros (ele está internado no Hospital das Clínicas). Os PMs afirmaram, em depoimento, que dispararam ao menos 15 vezes — 12 disparos foram feitos ainda de dentro do carro. No local, o R7 identificou, em dois pontos da rua, nove marcas de bala.

Na via, há ao menos sete câmeras de segurança. Um porteiro afirmou que, no dia seguinte ao caso, policiais civis recolheram as gravações.

Festa

Márcia Assis, mãe de Rocha, contesta a versão dos PMs. Ela afirma que o filho estava a caminho de uma festa, com Anjos na garupa. Os rapazes, segundo a mãe, seguiam outros colegas, que conheciam o destino. Mas perderam-se dos amigos, pois teriam sido parados em uma blitz. Na tentativa de achar o endereço correto, acabaram entrando na rua onde estavam os policiais. E, ainda conforme Márcia, foram pedir informação.

— Meu filho me falou que, na hora em que chegou perto do carro, os homens já começaram a atirar. Ele e o Alexandre [Anjos] saíram correndo para se proteger. O Valter [Rocha] se fingiu de morto, mas o Alexandre [Anjos] continuou correndo e levou mais tiros.

O rapaz, que, de acordo com Márcia, trabalha como carregador de caminhão com o pai, foi indiciado por tentativa de roubo e está sob escolta policial no HC. Rocha foi atingido, segundo a mãe, por dois tiros na perna, dois tiros no abdome e um de raspão na cabeça. Ela visitou o filho na última semana. 

Alexandre dos Anjos, morto por policiais militares

Alexandre dos Anjos, morto por policiais militares

Arquivo Pessoal

O irmão de Anjos, que preferiu não se identificar, disse que a família está com medo.

— Não procuramos nenhum advogado ainda porque não temos condições para isso no momento. Estamos com muito medo de virem atrás da gente.

Ele reforça a versão da festa dada pela mãe de Rocha.

Bico?

Familiares de Rocha e Anjos afirmam que os policiais faziam bico na rua em que os rapazes foram baleados. De acordo com o boletim de ocorrência, o Voyage prata em que estavam os PMs pertence à GPS Serviços de Portaria — a empresa está registrada em nome de E. B. e A. B. B. — que têm o mesmo sobrenome de H. B. 

R7 apurou que E. B., dono da empresa, seria investigador da Polícia Civil.

À reportagem, um morador da rua afirmou que os policiais faziam segurança para um condomínio da via. De acordo com a testemunha, que também não quis se identificar, o carro em que estavam os PMs ficava, frequentemente, sob uma árvore em frente ao local durante as madrugadas. Depois da morte de Anjos, o veículo nunca mais foi visto.

Foto do local onde, segundo testemunha, carro em que PMs faziam segurança ficava parado em frente a condomínio

Foto do local onde, segundo testemunha, carro em que PMs faziam segurança ficava parado em frente a condomínio

R7

Sem se identificar, a equipe de reportagem do R7 entrou em contato com a empresa. O atendente confirmou que a firma atuava em segurança na região do Morumbi e citou o nome de "E." como o diretor da companhia. Minutos depois, o mesmo funcionário da GPS ligou para a reportagem do R7 e disse que a empresa faz apenas serviços de monitoramento por câmeras de segurança, de limpeza e de portaria. 

O site da empresa está fora do ar desde o segundo telefonema. Desde então, o R7 não conseguiu mais contato com o responsável da empresa.

Encontro com mulheres

À Polícia Civil, os PMs não falaram em bico. Deram outra versão para estarem estacionados na rua naquela madrugada. De acordo com depoimento do policial H. B., ele e M. S. se perderam quando estavam a caminho de um encontro marcado com duas mulheres pela internet.

Segundo o boletim de ocorrência, porém, não foi apresentado nenhum documento ou registro de conversa entre os PMs e as mulheres. 

Apesar de constar como "solteiro" no boletim de ocorrência, o policial H.B. aparece em sua página no Facebook com uma companheira e uma criança de colo. Nas imagens, ele usa um anel que aparenta ser uma aliança de noivado (na mão direita).

Armas

Os PMs apresentaram na delegacia uma pistola calibre 380 e uma arma de pressão como tendo sido encontradas com Alexandre dos Anjos e Valter da Rocha. Diferentemente do definido pela resolução SSP-5, de 7 de janeiro de 2013, os PMs não deixaram o armamento no local, para que a cena fosse examinada pela perícia.

Márcia nega que Rocha usasse armas.

— Ele é trabalhador. Tem a mão cheia de calos.

O irmão de Anjos também nega que o morto tivesse envolvimento com o crime. 

Ainda segundo o registro da ocorrência, a arma de H. B., uma pistola calibre ponto 40, foi apresentada à Polícia Civil sem munição. Já M. S. apresentou duas armas: outra pistola ponto 40, que também não tinha munição no momento em que foi apreendida, e um revólver calibre 38, com seis cápsulas deflagradas. 

Em São Paulo, a arma oficial da PM é a pistola ponto 40. O R7 questionou, na segunda-feira, se os policiais carregavam pistolas da corporação. A polícia não respondeu.

Caso é investigado pela Polícia Civil, diz PM

Procurada para esclarecer o caso na última segunda-feira (8), a Polícia Militar se limitou a afirmar, em nota emitida na terça-feira (9), que "os policiais militares encontravam-se em folga" e que o "caso está sendo investigado pela Polícia Civil”. 

Na quarta-feira (10), o R7 reencaminhou os questionamentos à SSP (Secretaria de Estado da Segurança Pública). A pasta enviou, na quinta-feira (11), uma nova nota, emitida pela PM. A íntegra do texto segue abaixo:  

"Em atenção ao seu novo pedido, encaminhado à AI [assessoria de imprensa] da SSP, reafirmamos que a Polícia Militar não tem condições de responder aos questionamentos feitos, tendo em vista o fato de os policiais estarem de folga e se tratar de suposto crime comum. Assim, os elementos pedidos dependem das provas que eventualmente venham a ser obtidas no devido processo penal. Esclarecemos que as informações sobre procedimentos operacionais são de caráter sigiloso. Caso se comprove, eventualmente, que os policiais agiram de maneira irregular, será instaurado processo administrativo interno, o qual poderá resultar na exclusão deles das fileiras da Instituição. Contudo, não podemos antecipar qualquer tipo de julgamento ou juízo de valor."

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