"Racismo no Brasil já não é mais tão velado assim", diz rapper Dexter
Para o músico, é preciso investir em educação para combater o racismo
São Paulo|Juca Guimarães, do R7

Há um mês, a Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou o projeto de lei número 80/2016, que prevê pena de dois a quatro anos para quem cometer crimes de racismo e discriminação pela internet, inclusive para aqueles que repassarem as ofensas adiante.
Para virar lei, o projeto ainda precisa ser aprovado em duas outras comissões do Senado, pela Câmara dos Deputados e confirmada pela presidência da República. O caminho ainda é longo e os casos de ofensas por motivação racista estão mais frequentes e violentos na internet.
O rapper Dexter conversou com o R7 sobre o assunto e destacou alguns pontos importantes a serem considerados sobre o combate ao racismo, dentro e fora da internet. O músico defende o diálogo e a valorização na cultura e da história dos negros.
Recentemente, a rapper Negra Li, do grupo RZO, teve a sua página na internet invadida por hacker racistas. Em maio, a cantora Ludmila também foi alvo de agressões. Confira a entrevista com o Dexter.
R7: O tema do racismo não aparece tanto nas letras atuais de rap. O hip-hop virou as costas para o problema?
Dexter: Eu concordo que não é mais o tema principal das letras, porém o hip-hop jamais virou as costas para este assunto e trata desta questão diariamente em palestras, bate-papos nas ruas e também em canções.
R7: O que precisa mudar no Brasil para que o combate ao racismo realmente funcione?
Dexter: Precisa-se investir mais em educação, desde a pré-escola e principalmente, dentro de casa. As pessoas têm de conhecer a nossa história, seja ele preto, vermelha, amarela ou branca. Só se respeita um povo quando se conhece o passado, o presente e a luta deles.
R7: A contribuição dos negros para o desenvolvimento do Brasil não é reconhecido. Por exemplo, as grandes personalidades negras do país não são lembradas nos livros de escola. Você acha que isso contribuiu para o racismo no Brasil?
Dexter: Com certeza, quando não se valoriza os heróis do povo não há identificação. Enquanto não se contar a verdadeira história, não poderemos mudar isso. As crianças não têm todas as referências que precisam, é necessário ter maior representatividade. Infelizmente no Brasil, existem várias personalidades negras que são ícones, que poderiam ocupar esses lugares, ou seja, serem referências, porém não se assumem.
R7: Nos EUA existem grupos abertamente racistas, como a Ku Klux Klan, você acredita que a sociedade brasileira está caminhando para o mesmo caminho?
Dexter: No Brasil desde sempre existem grupos racistas. O Brasil é racista ao extremo, a sociedade brasileira é racista! Nós pretos sofremos racismo velado no Brasil, porém de algum tempo para cá, já não é mais tão velado assim. Os racistas se manifestam diariamente nas ruas, mas também na internet, que hoje é um veículo que pode sim esconder o seu rosto, mas também pode perfeitamente proporcionar que você declare sua medíocre essência racista.
R7: O que pode ser feito para aumentar a autoestima das crianças negras para que elas valorizem e admirem as suas origens?
Dexter: Educação, contar a real história do povo preto. Mostrar e falar as elas sobre referências: Malcolm X, Martin Luther King, Zumbi dos Palmares, Clóvis Moura, KL Jay, Zezé Motta, Abdias do Nascimento, Dandara dos Palmares, entre outros.
R7: Você é a favor que a história da África faça parte do currículo escolar?
Dexter: Sim, totalmente a favor, não só a história do continente dos nossos ancestrais, mas também a história do hip hop. O Brasil é o segundo país mais negro do mundo, só perdermos para a Nigéria. Como assim nossa verdadeira história não é contada nas nossas escolas ?!.
R7: Qual a sua opinião sobre o sistema de cotas para negros nas universidades e nos concursos públicos?
O Brasil deve muito para o povo preto afinal de contas, quem construiu este país e nada ganhou em troca? Acho legítimo o sistema de cotas e não me venham com a história de “coitadismo”, a balança nunca pesa igual. Estamos falando aqui de reparação!
R7: Quais as novidades sobre o seu novo disco?
O Flor de Lótus é um disco divido em duas partes: retrata o final do exílio e o começo da minha liberdade, é uma transição muito importante. As novidades vão desde da produção até a maneira de cantar este novo mundo o qual estou vivendo. Sim, o disco sai ainda este mês.














