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Relato: "Nossos olhos marejados denunciavam o luto por Marielle"

Repórter do R7 — mulher, negra e periférica como ela — acompanhou o ato em SP: "É impossível saber qual a próxima vida negra a ser tirada"

São Paulo|Beatriz Sanz, do R7*

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Multidão em ato em memória de Marielle Franco, na avenida Paulista, em SP
Multidão em ato em memória de Marielle Franco, na avenida Paulista, em SP

Sempre que há uma reunião muito grande de pessoas negras é possível sentir uma energia no ar. É algo mais forte que pode ser traduzido como ancestralidade. Nós não sabemos muito de nossos antepassados, mas temos a noção de que nossa trajetória é muito parecida.

Neste fim de tarde de quinta-feira (15), a energia na atmosfera é outra. Os olhos marejados em todos os cantos denunciam o luto. Desconhecidos se abraçam porque sabem que perderam a mesma coisa. Todos morreram um pouco junto com Marielle.


A energia na atmosfera é outra. Os olhos marejados denunciam o luto. Desconhecidos se abraçam porque sabem que perderam a mesma coisa. Todos morreram um pouco com Marielle

A população negra é a que mais morre no Brasil. O assassinato entre mulheres negras aumentou 22% entre 2005 e 2015, quando o das mulheres brancas caiu 7,4%. É estatística.

Mas Marielle Franco, quinta vereadora com mais votos no Rio de Janeiro nas últimas eleições, não é um assassinato comum. A principal linha de investigação aponta para execução.


Leia também: Milhares ocupam Cinelândia em ato contra morte de Marielle

Quatro tiros foram disparados contra seu rosto. A sangue frio. Seu caixão teve de ser fechado, pois levaram até sua identidade. Mas a voz de Marielle não se calou, muito pelo contrário. Ela se multiplicou em cada garganta que gritava por justiça e pelo fim de corpos negros mortos.


A fotógrafa Mariana Ser, 33 anos, diz que se sente confortável em meio ao ato contra o genocídio da população negra e em memória de Marielle convocado pelo Psol, em São Paulo.

— Quando a gente fica muito tempo se revoltando na internet não resolve nada. Quando a gente se reúne pessoalmente as coisas começam a fluir.


O medo está presente também. Todas as pessoas se olhavam com carinho e afeto, pois é impossível saber qual a próxima vida negra a ser tirada por uma bala.

Todas as pessoas se olhavam com carinho e afeto%2C pois é impossível saber qual a próxima vida negra a ser tirada por uma bala.

Emocionada, a estudante de obstetrícia da USP Letícia França, 23 anos, conta que está cansada de ser ver nas estatísticas de morte e afastada dos espaços de poder.

— Eu olho a Marielle e me vejo. É uma pessoa que lutou tanto para chegar num patamar que eu estou lutando tanto [para chegar]. Ela conseguiu chegar num espaço de mudança e dá uma desesperança porque parece que a gente não vai avançar, lamenta entre lágrimas.

A manifestação continua entre gritos, principalmente os de "Marielle presente" e apresentações artísticas típicas da cultura afro brasileira.

A jovem Nadiane, 31 anos, também se emociona ao falar da "dor" que sentiu quando foi noticiada da morte da vereadora.

- Parece que a gente não vai chegar a lugar nenhum e quando a gente tenta é abatido.

"Parece que a gente não vai chegar a lugar nenhum e quando a gente tenta é abatido."

(Nadiane, 31 anos)

Ao fim do ato, sentimentos contraditórios de medo, impotência, injustiça e a perda de um ente querido — pois foi isso que Marielle se tornou para as pessoas que marchavam — se misturam sem que seja possível definir qual deles era o maior.

Beatriz Sanz, 23 anos, é jornalista do R7, mulher, negra e periférica

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