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Supermãe, negra e da periferia: Dona Jacira fala sobre cultura, luta e criação dos filhos

Livro vai contar história de mulher que ajudou no desenvolvimento da zona norte de SP

São Paulo|Juca Guimarães, do R7

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"A escola era opressora. A professora dividia a classe pelo tom de pele. Quem era mais escuro tinha que sentar no fundo", relembra dona Jacira ao falar da infância
"A escola era opressora. A professora dividia a classe pelo tom de pele. Quem era mais escuro tinha que sentar no fundo", relembra dona Jacira ao falar da infância

Dona Jacira é uma mulher de luta. Mãe contestadora, que passou por muitas dificuldades na vida, ela educou os quatro filhos para que lutassem por seu espaço no mundo. O ideal de liberdade e a busca por conhecimento se refletem em sua obra como bordadeira, palestrante e contadora de histórias.

Ela é mãe de Kátia, Tiana, do rapper Emicida e do cantor Fióti — dois artistas que levaram para suas obras traços marcantes da personalidade da mãe.


O R7 conversou com dona Jacira sobre cultura, movimentos sociais e a criação dos filhos.

Desde muito pequena, ela foi uma figura contestadora dentro da família e na escola, mesmo com toda pressão contrária.


— Eu queria entender como as coisas funcionavam. Fazia as minhas observações e, com isso, aprendia muita coisa. Muito nova, eu já sabia que o grão do feijão dava uma planta, da qual nascia uma vagem com novos grãos que dariam, então, origem a novas plantas. A existência desse ciclo, eu compreendi sozinha.

Essa curiosidade e o amor pelo conhecimento foram fundamentais para que ela entrasse na escola já sabendo ler e escrever.


Ao contrário do que se possa imaginar, esse talento criativo não foi aproveitado na escola por conta da rigidez, da disciplina e do racismo.

— A escola era opressora. A professora dividia a classe pelo tom de pele. Quem era mais escuro tinha que sentar no fundo porque ela dizia que 'negro fedia'. Na escola, elas escolhiam sempre eu e outras alunas negras para limpar os banheiros, as brancas nunca eram escolhidas.


A autoria das suas redações, com temas complexos e boa estruturação, era colocada em cheque pelas professoras e pela diretora.

— Elas perguntavam de onde eu tinha copiado. A diretora dizia, olhando para mim e passando o indicador no dorso da mão, que era impossível eu ter escrito aquela redação. E eu, muito nova, não entendia que aquele gesto dela era uma referência racista. Eu pensava 'Ué, a dona Cecilia tem uma coceira na mão? toda vez que ela fala de mim fica passando o dedo na mão?'. Era algo que, na época, eu não compreendia.

O tempo foi passando e dona Jacira foi tomando consciência do mundo e das limitações que era viver no jardim Cachoeira, no extremo norte de São Paulo, durante a ditadura civil-militar (1964-1985).

— A gente tinha que colocar a mão no peito e dizer que amava o Emílio Garrastazu Médici, sem nem saber quem era.

Outro ponto de revolta para a jovem era o tratamento dado às meninas do bairro, que eram preparadas desde muito cedo para trabalharem como empregada doméstica em casas de família, muitas vezes em condições degradantes. "Eu dizia para mim mesmo que nunca faria isso. Nunca", diz dona Jacira, que conta uma história chocante sobre uma dessas garotas.

— Essa menina lá do bairro, muito nova, trabalhava como empregada. Um dia ela foi limpar uma janela da casa da patroa e caiu do terceiro andar e morreu. Todo mundo aqui foi no enterro. Logo em seguida, a mãe da menina preparou a malinha da irmãzinha dela para que fosse lá para a casa da patroa assumir a vaga.

A resistência e a garra de Jacira foram fundamentais também na organização dos movimentos sociais por moradia e melhorias na região norte de São Paulo.

— Houve um período, no final da ditadura, que começou uma organização política maior. Os advogados militantes do PT vieram até o bairro para ajudar na questão do registro dos terrenos, que aqui ninguém tinha a escritura. A partir dessa luta a gente começou a organizar outras lutas e ir atrás de outras reivindicações. Foi assim, com a união das famílias, que chegou a creche, a luz, o esgoto, o transporte público para boa parte da região.

Curiosamente, a mãe do rapper Emicida só teve contato com o estilo depois que o filho começou a fazer música.

— Eu sempre incentivei que eles todos estudassem e lessem bastante. O Leandro (nome de batismo do Emicida) sempre desenhou bem. Um dia ele pediu para fazer um curso de aprimoramento e voltou de lá fazendo rap.

Dona Jacira usa o bordado para contar suas histórias
Dona Jacira usa o bordado para contar suas histórias

A linguagem do rap e suas letras contestadoras caíram no gosto de dona Jacira, que, além de incentivar a carreira musical e empreendedora dos filhos, também abriu as portas de casa para uma geração promissora.

— O Rashid, o Projota e o Kamau sempre vinham aqui em casa. Ficavam horas falando de música e projetos.

Em junho, a Laboratório Fantasma, empresa criada pelos irmãos Emicida e Fióti como selo fonográfico e loja virtual da grife, vai lançar o livro que a dona Jacira está escrevendo sobre a sua história de vida.

No álbum Sobre Crianças, Quadris e Pesadelos e Lição de Casa..., do Emicida, lançado em 2015, a faixa de abertura é a canção Mãe. A música é uma homenagem que o rapper fez a dona Jacira, reconhecendo o valor e importância que ela tem na criação dos quatro filhos, no desenvolvimento social e política do bairro e no exemplo de vida. A letra diz:

"Nossas mãos ainda encaixam certo

Peço um anjo que me acompanhe

Em tudo eu via a voz de minha mãe

Em tudo eu via nóis

A sós nesse mundo incerto

Peço um anjo que me acompanhe

Em tudo eu via a voz de minha mãe

Em tudo eu via nóis".

No ano passado, a música virou um filme musical batizado Mãe: Uma História de Dona Jacira. O filme narra parte da infância da mãe, quando ela foi levada ainda pequena para estudar num convento. Também mostra a alegria da família que ela construiu e o começo do rapper na música. No final, a própria dona Jacira faz uma participação especial, relembrando o dia em que Leandro nasceu. Confira:

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