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Tiros, perseguição e ameaças: vigilantes relatam casos de violência

Segundo Polícia Federal, número de vigilantes em exercício aumentou 26,4%. No entanto, interação com segurança pública ainda é precária

São Paulo|Fabíola Perez, do R7

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Segundo a Polícia Federal, Brasil tem 2.846.210 vigilantes ativos em todo o país
Segundo a Polícia Federal, Brasil tem 2.846.210 vigilantes ativos em todo o país

Vinte e quatro horas sob tensão. É assim que o vigilante Marcos Aurélio Guimarães dos Santos, de 53 anos define sua profissão. Após três anos afastado das escoltas de carga em ruas e das rodovias, ele ainda se lembra do som dos disparos de fuzil que quase o atingiram na rodovia Castelo Branco, em São Paulo. “Fiquei em pânico, sem saber o que fazer”, diz.

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Martinho Ferreira de Brito, de 49 anos, carrega na testa a marca da exposição à violência urbana. A cicatriz de bala sobre a sobrancelha direita não o deixa esquecer o terror enfrentado quando fazia a segurança de carros-fortes em Guarulhos e Santo Amaro, em São Paulo. O olhar desconfiado o acompanha até hoje, mesmo depois de ter se afastado das ruas há seis meses.

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De acordo com um levantamento da Polícia Federal, instituição que regulamenta a atividade dos vigilantes, esse ano existem 2.846.210 profissionais ativos em todo o país. Em 2013, existiam 2.250.898 vigilantes ativos. Os números mostram que houve um aumento de 26,4 % na quantidade de profissionais da segurança privada. 

"São vinte e quatro horas sob tensão"

(Marcos dos Santos, vigilante)

A segurança privada é um dos setores que mais cresce no país. Segundo pesquisador da USP em segurança pública e privada e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, André Zanetic, existem vigilantes formais, aqueles que fazem o curso da Polícia Federal e possuem carteira, vigilantes informais, que exercem suas funções em empresas que não são cadastradas na polícia, e policiais que fazem vigilância como bicos.


Para Marcos Guimarães, profissão significa viver 24 horas sob tensão
Para Marcos Guimarães, profissão significa viver 24 horas sob tensão

Segundo o especialista, a parcela de vigilantes que atua na informalidade enfrenta condições ainda mais precárias. Já os policiais que fazem bico como seguranças privados atuam tanto em situações formais quanto informais. “Mais da metade da corporação pratica o bico. Muitas vezes, capitães e tenentes organizam e modificam a escala dos praças”, diz.

A interação entre segurança privada e pública ainda não ocorre da forma como deveria. Os gargalos da segurança pública aumentam o fosso no qual estão inseridos vigilantes que atuam expostos aos altos níveis de criminalidade do país. “Não há, por exemplo, o repasse de dados sobre as ocorrências em estabelecimentos privados para órgãos públicos”, explica Zanetic. “Apesar da segurança privada ter crescido muito, não se reduziu a atuação das polícias.”


“Apesar do crescimento da segurança privada%2C não se reduziu a atuação das polícias”

(André Zanetic, da USP)

A rotina dos vigilantes expõe os profissionais que atuam na segurança privada aos mais profundos gargalos da segurança pública. “A escolta armada é um setor de alto risco”, afirma Zanetic. Ele explica que, em função do aumento de roubos e furtos a transportadoras de valores e cargas e das possíveis relações com organizações criminosas, profissionais que trabalham nessa área estão ainda mais vulneráveis à violência.

Disparo de fuzil

Em 2010, Santos fazia escolta de cargas durante a madrugada, em Guarulhos. Uma noite, um carro emparelhou com o veículo escoltado na rodovia Castello Branco. “Eu estava na parte detrás e meu colega jogou o carro para o guarda de rei”, diz ele. “Fiquei em pânico, tinha pouca experiência. Na hora, pensei em desistir.”

Os suspeitos levaram R$ 8 milhões no assalto. Em outra ocasião, quando fazia a segurança de um banco em Itaquera, na zona leste de São Paulo, Santos presenciou os suspeitos saírem de um veículo também com um fuzil na tentativa de assaltar o lugar. A rotina intensa sob situações de risco acarretou uma série de consequências para Santos, que passou a ter pressão alta, dores na coluna e insônia.

“Sinto como se alguém estivesse me seguindo”

(Marcos dos Santos, vigilante)

Com sintomas de depressão e síndrome do pânico, ele decidiu sair da segurança privada por três anos. “Tentei fazer bicos em outras áreas, sou eletricista de formação”, diz. “Mas foi bem na época que o emprego estava escasso, tinha que voltar à realidade.” Há dois anos, ele trabalha como segurança privado na parte interna de um órgão público, mas as lembranças da escolta ainda o atormentam.

Santos diz que já foi alvo de ameaças que, embora não tenham se concretizado, o deixavam apavorado. “A gente sabe onde vocês moram.” O vigilante chegou a ouvir essa frase mais de uma vez ao longo de sua carreira. Nos últimos anos, ele tenta não ligar mais a televisão e evitar o noticiário policial. “Sinto como se alguém estivesse me seguindo”, diz após ter presenciado a morte de três colegas na escolta armada.

"Agressões verbais são muito mais comuns com mulheres"

(Nair da Silva, vigilante)

Tiro na testa e perseguição

Martinho de Brito ficou 30 dias na UTI com uma bala alojada na coluna
Martinho de Brito ficou 30 dias na UTI com uma bala alojada na coluna

Brito é vigilante armado há 25 anos. Ele tem o hábito de olhar para os lados enquanto conversa. Mania de quem, segundo ele, pensou que fosse morrer diversas vezes. “Quando se está na ação, você pensa que a munição entrou no seu corpo e já entra em estado de choque”, afirma.

Ao fazer a escolta armada de um carro forte, em Guarulhos, Brito recorda que foi abordado por suspeitos com fuzil nas mãos. “Uma das balas que atingiu o carro forte e outra ficou alojada em minha coluna. Fiquei 30 dias na Unidade de Terapia Intensiva”, diz. “Depois que saí do hospital soube que um colega teve a cabeça decepada.”

"Fiquei com uma bala alojada na coluna"

(Martinho de Brito, vigilante)

Para aliviar o estresse, Brito passou a praticar esportes, como futebol e natação. “Queria desviar a atenção. Foi a minha melhor terapia até hoje.” Para a família, Brito tentava omitir a exposição à violência. “Pensei em parar várias vezes, mas depois pensava apenas que se chegasse vivo em casa já estava bom. Mas não aconselharia ninguém a seguir esse caminho.”

A vigilante Nair Marques da Silva, de 51 anos, fazia a segurança dos arredores do Parque Trianon, em São Paulo, quando foi abordada por uma pessoa com estilete na mão. “Estava fazendo a ronda e a pessoa veio para cima de mim com o estilete, me esquivei e joguei o corpo para trás.” Nair relata também que já foi agredida verbalmente diversas vezes. “É muito difícil quando se é mulher, já fui xingada e discriminada diversas vezes. Agressões verbais são muito mais comuns com mulheres.”

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