São Paulo Uma moto é roubada ou furtada a cada 16 minutos no estado de SP

Uma moto é roubada ou furtada a cada 16 minutos no estado de SP

Além da capital, Santos, Campinas, Osasco, Guarulhos e São Bernardo do Campo lideram o ranking das cidades mais perigosas

  • São Paulo | Joyce Ribeiro, do R7

Resumindo a Notícia

  • Foram 33.394 ocorrências que envolveram motocicletas em 2021 ou quatro crimes por hora
  • Furtos de motos cresceram 26,91% na comparação com o ano anterior
  • 80% das peças de motos roubadas vão para venda no chamado mercado paralelo
  • Indústria do crime é complexa e envolve uma cadeia de participantes até a distribuição
Uma moto é roubada ou furtada a cada 16 minutos no estado de São Paulo

Uma moto é roubada ou furtada a cada 16 minutos no estado de São Paulo

Reprodução / Arquivo pessoal

Uma moto foi roubada ou furtada no estado de São Paulo a cada 16 minutos em 2021, de acordo com o boletim econômico da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado) e do Grupo Tracker. Foram 33.394 ocorrências que envolveram motocicletas no ano passado. Isso representa quatro crimes por hora.

Os números analisados são da Secretaria de Segurança Pública. Os furtos de moto cresceram 26,91% na comparação com o ano anterior, enquanto os roubos apresentaram queda de 6,35%.

"De certa forma houve uma migração: caíram os roubos de moto, mas cresceram os furtos. Mudou o modo de atuação dos criminosos na pandemia. O crime de oportunidade é quando as motos estão estacionadas nas ruas e eles levam. No período de isolamento, com todos dentro de casa, não tinha oferta de motos nas ruas, então mudaram a atuação para garagens e residências. O furto é também um crime mais brando", afirmou Erivaldo Vieira, professor de economia e pesquisador da Fecap.

Segundo ele, com a flexibilização, a tendência é que os números voltem aos patamares anteriores à pandemia de Covid-19.

Cerca de 80% das motos roubadas (mediante violência ou ameaça) ou furtadas são transformadas em peças a serem vendidas no mercado paralelo, outra parte vai para leilões e alguns veículos são usados pelos criminosos em outras ações.

"A indústria do crime é altamente complexa e envolve as pessoas que roubam, outros que transportam para desmanche, os que verificam se a moto tem rastreador, outro grupo que faz o desmonte, quem faz a documentação das peças, é uma cadeia com diversos elos. Há um caminho até a distribuição", explica o pesquisador. 

Modelos e marcas mais visados

Das 20.532 motos furtadas em 2021, 72,86% (14.960) eram da marca Honda, o que representa um aumento de 32,3% frente a 2020. Em seguida vem a marca Yamaha, com 13,61% dos furtos. Das 12.862 motos roubadas no ano passado, 56,95% eram da Honda e 17,93% Yamaha.

Os criminosos, muitas vezes, buscam modelos de alta cilindrada, que tiveram crescimento de 30% nas ocorrências nos últimos dois anos no estado.

"Os modelos de maior valor e porte, geralmente voltados para o lazer, se tornaram alvo de quadrilhas especializadas em roubos de motos e de bandidos que cometem os delitos para ostentar os veículos dentro de comunidades. Para esses casos, o comportamento é um pouco diferente, com predominância nos fins de semana e no período noturno”, informa Vitor Correa, coordenador do Centro de Operações do Grupo Tracker.

Os modelos mais visados em 2021 foram Honda CB 500 (201 roubos e 36 furtos); Triumph Tiger (163 roubos e 12 furtos); Honda CB 600 Hornet (107 roubos e 33 furtos); BMW G650GS (56 roubos e 66 furtos); e Yamaha XJ6 (50 roubos e 10 furtos).

Motos potentes são alvos de criminosos

Motos potentes são alvos de criminosos

Reprodução / Arquivo pessoal

O personal trainer Diego dos Santos Viana tinha uma Z400 da Kawasaki que ele usava para fazer os deslocamentos no trabalho e andar a lazer no fim de semana. A moto foi roubada em Suzano, na Grande São Paulo, em um domingo à tarde.

"Estava parado no semáforo e, do nada, desceram dois indivíduos em uma moto, no viaduto, e fingiram que iam entrar para o lado e quebraram na minha frente. Já saiu, apontou a arma na minha cara, falou que eu tinha perdido. Tava parado, não deu para fazer muita coisa. Deixei a moto no chão e levantei a mão. Ele ficou falando 'você é polícia?', revistou minha cintura e viu que não tinha arma", lembra a vítima.

Na sequência, o homem pediu que Diego entregasse a jaqueta e o capacete e perguntou se a moto tinha alarme, mais uma vez com ameaças.

"Levantei a mão, ele subiu na minha moto, tentou ligar algumas vezes, mas não deu porque era de injeção eletrônica. Depois ligou e saiu. Foi às 15h. Tinha um monte de gente na rua porque era a avenida do shopping. Alguns motoqueiros me ajudaram e emprestaram o celular para eu ligar pro meu pai pelo menos", disse.

A moto tinha seguro e rastreador, e o personal informou à polícia onde o veículo estava. Ele fez um boletim de ocorrência pela internet pelo roubo da moto e perda de documento.

É quase inviável comprar peças no mercado legal devido aos impostos altos e a margem de lucro das empresas. As pessoas se veem obrigadas a comprar peças mais baratas e recorrem ao mercado paralelo

Erivaldo Vieira, pesquisador

Pouco depois da meia-noite, a moto foi encontrada na divisa entre Itaim e São Miguel Paulista, na zona leste da capital. Mas houve uma perseguição policial e o veículo ficou bastante danificado com a queda sofrida.

"Tive que mandar para perícia e fazer toda a burocracia. Recuperei a moto, mas como os bandidos caíram com ela, ficou muito alto o custo para arrumar e acabei passando para frente. Tive que comprar outra", enfatiza Diego.

Peças são comercializadas no mercado paralelo com preços até quatro vezes mais baratos

Peças são comercializadas no mercado paralelo com preços até quatro vezes mais baratos

Divulgação/Polícia Civil

Mercado paralelo

De acordo com Vitor Correa, o comércio ilegal de peças usadas impulsiona a prática de roubo e furto de veículos. "Com o envelhecimento da frota de motocicletas, é natural a necessidade de reposição de peças, porém, devido aos preços mais elevados das montadoras, muitos brasileiros acabam recorrendo a esse mercado paralelo, fomentando o setor e contribuindo para o aumento do número de delitos.”

Segundo Erivaldo Vieira, o chamado mercado ilícito ganhou força com o agravamento da crise econômica no país.

"É quase inviável comprar peças no mercado legal devido aos impostos altos e a margem de lucro das empresas. As pessoas se veem obrigadas a comprar peças mais baratas e recorrem a esse mercado, com preços três a quatro vezes mais baratos do que o formal. As pessoas estão mais pobres, sem emprego, fazem entregas com motos e o custo é alto para manutenção. A alternativa é o mercado paralelo que vive do roubo de motos", alerta o pesquisador.

A gente fica revivendo aquela situação por diversas vezes. É impossível negar, o trauma fica sim. Eu ando muito mais tenso hoje no trânsito com moto

Engenheiro, teve a moto roubada duas vezes

No mercado paralelo, muitas vezes, há encomendas de peças específicas, então os assaltantes recebem ordens das lideranças para buscar por um determinado modelo de moto.

"Hoje 80% das peças e motos são da Honda no Brasil. A principal concorrente são as próprias peças roubadas e não a Yamaha", destaca o professor da Fecap.

Susto e trauma

A capital paulista lidera o ranking nessa modalidade de crime no estado. Houve um aumento de 33,69% nos furtos de moto em 2021, na comparação com o ano anterior. Santos se manteve na segunda colocação, com alta de 40,48%. Campinas subiu da quarta para a terceira colocação.

Segundo a Fecap, no caso dos roubos, São Paulo, Campinas e Guarulhos foram as três cidades que apresentaram o maior número de ocorrências nos últimos dois anos no estado. 

Muitas vezes as motos são roubadas para ostentação em comunidades

Muitas vezes as motos são roubadas para ostentação em comunidades

Reprodução / Arquivo pessoal

Um engenheiro, que prefere não ser identificado, foi assaltado duas vezes em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Nas duas ele estava com a mesma Z-1000. A primeira foi em 2015, enquanto estava parado no semáforo e foi abordado por adolescentes a pé armados.

"Um deles apontou o revólver na direção do meu rosto, pedindo para eu descer da moto. Me apalpou, revistou pra ver se eu era policial. O segundo segurou a moto. Eu pedi que ficassem calmos, que podiam levar a moto tranquilamente e assim ocorreu", lembra.

Ele então acionou o seguro, registrou a ocorrência online e, depois de 1h30, a moto foi localizada. Em janeiro deste ano, a vítima não teve a mesma sorte. Ele estava a caminho da casa de um amigo quando percebeu que uma outra moto bloqueou o seu caminho.

"Eles não estavam armados, mas olhei para trás e tinha uma segunda moto com um rapaz apontando o revólver na minha direção. Ele tremia muito, os outros estavam nervosos. Por conta disso, evitei qualquer tipo de reação brusca", disse.

A vítima ligou para o 190, acionou o seguro para tentar rastrear a moto e pediu à mulher que o buscasse debaixo de chuva. Desta vez, a moto não foi localizada e o seguro fez o ressarcimento do valor acordado.

"Mesmo com susto e trauma, acabei comprando outra moto, similar em potência, e continuo fazendo uso diário. A gente fica revivendo aquela situação por diversas vezes. É impossível negar, o trauma fica sim. Eu ando muito mais tenso hoje no trânsito com moto, atento ao que ocorre à volta. Qualquer pessoa com garupa, para mim, é suspeito. Se puder me desvencilhar, eu tento, para evitar passar por essa situação de novo", conclui. 

Bairros mais perigosos na capital

O Departamento de Pesquisas em Economia do Crime da Fecap identificou uma mudança nessa modalidade criminal durante a pandemia: cresceram os delitos em locais de acesso restrito.

“Entre 2019 e 2021 é possível observar uma mudança significativa de alguns dos principais locais de furto. Por exemplo, o número de ocorrências em garagem ou abrigo de residência, em 2019, correspondia a 162 furtos. Em 2021, saltou para 815, um crescimento de 403%. Os estacionamentos públicos também apresentaram um aumento significativo, de 81,8%”, afirma o coordenador.

No ano passado, os roubos aconteceram principalmente às sextas-feiras (15,5%). Já os furtos se concentraram no meio da semana, entre terças e quintas.

Peças específicas são encomendadas a quadrilhas especializadas em roubo e furto de moto

Peças específicas são encomendadas a quadrilhas especializadas em roubo e furto de moto

Reprodução

Na capital, os bairros com mais furtos de motocicleta em 2021 foram Tatuapé (311); Santana (299); Vila Mariana (265); Bela Vista (253); Itaim Bibi (252) e Lapa (229). Já os bairros periféricos apresentaram os maiores números de roubos: Capão Redondo (174); Guaianases (145); São Mateus (143); Jardim Ângela (136); Campo Limpo (127) e Jardim São Luiz (106).

"Roubos se concentram mais em bairros periféricos. Nesses bairros há encontros no fim de semana, o que favorece os roubos. Já o furto é crime de oportunidade. As pessoas vão para o trabalho, escola, mercado e deixam motos paradas, por isso acontecem mais furtos no centro", ressalta o pesquisador.

Segurança

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que "as Polícias Civil e Militar atuam de maneira integrada, com equipes policiais estrategicamente distribuídas em pontos indicados pelos respectivos serviços de inteligência. Paralelamente, a Polícia Civil também tem realizado ações específicas para desarticular e prender quadrilhas que atuam na área".

A instituição destacou a operação Desmanche, que vistoriou mais de 130 estabelecimentos para combater a receptação de veículos e peças roubadas, e também a Saturni, realizada pelo Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) no dia 19 de março, que resultou na prisão de oito pessoas e apreensão de 6.233 peças, além de uma motocicleta.

De acordo com a secretaria, neste ano foram presos 16 suspeitos, 8.412 peças e oito motocicletas foram apreendidas.

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