Saúde Coronavírus: localização geográfica é vantagem para o Brasil

Coronavírus: localização geográfica é vantagem para o Brasil

Dos 10 mil casos já registrados em todo o mundo, 99% estão concentrados na China, que isolou as áreas onde a epidemia faz mais vítimas

  • Saúde | Aline Chalet*, do R7

Brasil não tem voos diretos vindos da China

Brasil não tem voos diretos vindos da China

FEPESIL/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO

A epidemia de um novo tipo de coronavírus na China aumenta suas proporções a cada dia e tem causado incertezas na população. No entanto, o Brasil tem algumas vantagens em relação a outros países. 

O médico Luís Fernando Correia, clínico geral e certificado no MIT - Sloan School of Management, reafirma o que dizem as autoridades: não é necessário pânico. “São quase 10 mil casos na China, no restante do mundo não são nem 100.”

Segundo o médico, a grande vantagem do Brasil frente aos outros países é a localização geográficas.

“Estamos do outro lado do mundo. Talvez a epidemia esteja contida antes de realmente ser um problema aqui.”

Por outro lado, Correia enfatiza que é quase certo que haverá casos no Brasil. “O mundo está globalizado. A dúvida não é ‘se’ teremos casos, é ‘quando’ teremos.”

Outro fator que contribui para atrasar a chegada do novo coronavírus em terras brasileiras é o fato de que não existem voos diretos da China para o país.

“Todos passam por escala, então os passageiros vão passar por uma triagem antes de chegar aqui, o que não vai evitar completamente a chegada do vírus, já que temos transmissores assintomáticos.”

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Antes da epidemia, entravam no Brasil, em média, 250 pessoas vindas da China todos os dias, segundo números da Polícia Federal.

Para efeito de comparação, nos Estados Unidos (onde são 6 os casos de coronavírus), entravam diariamente uma média de 8.319 pessoas procedentes da China, de acordo com o Escritório Nacional de Viagens e Turismo norte-americano.

Recentemente, grandes companhias aéreas dos EUA, como American Airlines, United e Delta Air Lines, suspenderam temporariamente todos os voos entre os Estados Unidos e a China continental.

Correia explica que essa é uma medida que possui um efeito de proteção dos funcionários e tranquilização da população, mas que não é tão eficaz em relação à saúde pública.

“Estima-se que 5 milhões de pessoas tenham saído Hubei [província onde o surto teve início] antes do bloqueio começar. Não se sabe quantas dessas pessoas estavam infectadas.”

Apesar de classificada como emergência internacional pela OMS (Organização Mundial da Saúde), o novo coronavírus não é motivo para pânico.

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A professora Deisy Ventura, coordenadora do doutorado em Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), afirma que essa é a sexta emergência internacional declarada pela organização.

A primeira foi entre 2009 e 2010 devido a epidemia de H1N1. A segunda foi declarada em 2014 e ainda está em vigor, devido ao polivírus, principalmente em regiões de conflitos armados.

A terceira foi entre 2014 e 2015 devido ao ebola, na África ocidental. A quarta ocorreu em 2016 e teve como epicentro o próprio Brasil, devido ao vírus zika. E a quinta teve como motivo novamente o ebola, desta vez na República Democrática do Congo, e foi declarada em 2019.

Segundo Deisy, o que faz com que uma situação seja considerada emergência internacional “é o risco de propagação internacional da ameaça, além da necessidade de coordenação intergovernamental da resposta”.

Para Correia, a declaração da OMS possui um efeito burocrático que permite a liberação de verba para a contenção da epidemia e faz com que as recomendações e protocolos determinados pela organização possuam maior peso diplomático. Por outro lado, cria uma tensão e pânico desnecessários, que podem ser prejudiciais.

A professora da USP explica que o SUS (Sistema Único de Saúde), no Brasil, é um importante aliado para combater e evitar epidemias como essa.

“A detecção de uma doença não pode depender de recursos financeiros para pagar um atendimento, e ainda menos a sua prevenção e o seu tratamento.”

Ela aponta, ainda, como vantagem para o país a qualidade das universidades e institutos de pesquisa.

“Principalmente os [institutos] públicos que são capazes de participar do grande esforço científico que está sendo feito para compreender a evolução deste vírus e elaborar uma resposta adequada.”

Na visão de Correia, o SUS pode ser uma vantagem por facilitar a implementação de protocolos padronizados, porém a falta de estrutura e verba é apontada comor um desafio.

Ele enfatiza que, caso a epidemia se torne um problema de importância no país, o maior desafio do Brasil será a desigualdade de acesso aos serviços de saúde. “Você tem centros de excelência e lugares muito mal-atendidos.”

Outra vantagem apontada pelo médico é que o país teve epidemias recentes e se preparou muito bem para elas. Segundo ele, a preparação durante a Copa do Mundo para evitar a vinda de doenças também foi "muito eficiente".

“É que nem andar de bicicleta. Temos memória logística, pessoas foram treinadas, hospitais se preparam e a equipe que está trabalhando na identificação e isolamento de casos é muito qualificada.”

Ele explica que as características do vírus podem mudar e ele se tornar mais adaptado ao ser humano, o que, eventualmente, aumentaria a letalidade e transmissibilidade da doença.

Porém, no cenário atual, uma epidemia no Brasil é muito improvável, desde que as medidas de prevenção, identificação e isolamento dos casos continue acontecendo na China e ao redor do mundo. 

*Estagiária sob supervisão de Fernando Mellis

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