Saúde ‘Frear morte materna é desafio’, diz chefe do setor de grávidas do HC

‘Frear morte materna é desafio’, diz chefe do setor de grávidas do HC

Neste Dia da Mulher, Rossana Francisco, 1ª mulher a comandar o departamento de Ginecologia e Obstetrícia da USP, diz o que elas precisam

‘Reduzir mortalidade materna é principal desafio da saúde da mulher’

Taxa de mortalidade materna é de 64 em cada 100 mil nascidos vivos no país

Taxa de mortalidade materna é de 64 em cada 100 mil nascidos vivos no país

Pixabay

"Reduzir a mortalidade materna no país é um dos principais desafios da saúde da mulher", diz a ginecologista obstetra Rossana Francisco, chefe do setor de Endocrinopatias e Gravidez do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Entre os outros desafios ela menciona reduzir as gestações em adolescentes, ampliar o atendimento à mulher que sofre violência sexual e doméstica e vencer a resistência à vacina contra o HPV.

Rossana lida diariamente com a saúde de dezenas de mulheres há mais de 20 anos. Ela foi a primeira mulher a se tornar chefe do departamento de Ginecologia e Obstretícia da Faculdade de Medicina da USP e primeira mulher presidente da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estados de São Paulo (Sogesp). Tem uma filha de 18 e um filho de 15 anos.

"Um dos momentos mais marcantes foi uma paciente que teve o óbito do filho bem no final da gravidez, no nono mês, por conta de um diabetes não controlado. Tive a oportunidade de fazer o pré-natal dela, em uma nova gravidez, e de estar com o casal no momento do parto", conta.

A médica Rossana Francisco

A médica Rossana Francisco

Arquivo pessoal

Para ela, informações não apenas sobre como prevenir uma gravidez, mas também como planejar uma deve ser levada de forma mais ampla às mulheres. "A escolha de uma gestação tardia, por exemplo, é da mulher, mas, nós, como médicos, podemos ajudar para que faça uma escolha mais consciente. Muitas vezes ela não tem as informações necessárias para isso", afirma.

Leia a seguir a entrevista com Rossana Francisco:

Qual o principal desafio hoje da saúde da mulher?

Há alguns desafios bem importantes como a redução de morte materna. As últimas análises mostram que houve um crescimento, em vez de redução. A meta estabelecida pela OMS ao Brasil era que chegasse à taxa de 35 mortes a cada 100 mil nascidos vivos em 2015, no entanto foi de 62 por 100 mil nascidos vivos e, em 2016, 64 [último boletim], demonstrando que houve estabilização com tendência de aumento. No Estado em São Paulo tivemos queda chegando a 35, mas cresceu nos últimos anos chegando a 47. 

A que se deve isso, na opinião da senhora?

As principais causas de morte materna são hipertensão, hemorragia e infecções. Então, temos muito o que melhorar na assistência pré-natal, na assistência do parto. Melhorou o número de pessoas que fazem o pré-natal, mas precisamos investir na qualidade desse atendimento. É preciso um treinamento maior para toda a equipe de saúde. Hoje você não tem apenas médicos com especialização em obstetrícia fazendo o pré-natal. Muitas vezes se identifica que a gestante é de alto risco, mas, às vezes, há dificuldade de local para onde encaminhá-la. Há poucos serviços especializados no tratamento das gestações de alto risco.

A hipertensão nessas gestantes está ligada ao aumento das gestações tardias?

Existe um risco maior de hipertensão quando a gestação é tardia. Mas a hipertensão está mais ligada ao aumento da obesidade no Brasil do que às gestações acima dos 40 anos. O crescimento da hipertensão entre grávidas não é significativo. Vale ressaltar que essas mortes são consideradas mortes evitáveis. Se houvesse um dianóstico correto, a morte poderia ter sido evitada. 

Há outros desafios da saúde da mulher?

Sim. A gestação na adolescência, que deve ser encarada de forma multifatorial. É preciso um ensino melhor na escola em relação à prevenção da gravidez de forma mais aberta, com acesso à anticoncepção. É muito difícil uma jovem se lembrar de tomar anticoncepcional, então, hoje, a tendencia mundial é que se faça a opção de método de longa duração, como DIU e implantes subcutâneos, além de se trabalhar com perspectiva de vida, planejamento para o futuro para ela entender que ser mãe tem que ser uma escolha, não pode ser acidente. Implantes têm custo alto, então, existem algumas iniciativas, mas são isoladas, como para populações vulneráveis. Lembrando que tudo isso é uma escolha. Você oferece o método, mas a escolha é da mulher.

A resistência à vacina contra o HPV é um desafio?

Sim. É preciso que as mulheres entendam a importância da vacina contra o HPV. Tivemos há pouco tempo vacinas que estavam para vencer porque houve procura muito baixa. Houve relatos de meninas que tiveram reações com a vacina, no entanto, essa relação não foi comprovada. Apesar dos avanços do conhecimento, não tem a procura pela vacina como deveria. Foi comprovado que esta vacina reduz o risco de câncer de colo de útero. Outro ponto importante relacionado à saúde da mulher é em relação à violência sexual e doméstica. Ter mais lugares de acolhimento e atendimento. Porque muitas vezes é em uma consulta médica que mulheres têm oportunidade de contar o que está acontecendo.  

Em relação ao debate do grande número de cesáreas no Brasil. O que seria realmente melhor para a mulher?

O melhor é o melhor parto para aquela mãe e para aquela criança. Uma gestação de baixo risco, com nenhuma doença fetal ou materna, o melhor para os dois é o parto via vaginal. Mas precisamos tomar cuidado, pois existem muitas indicações que exigem cesariana. A taxa de cesárea no Brasil é muito alta, além do que deveria ser, porque a maioria das gestantes têm baixo risco. As gestações de alto risco são de 10% a 15% e nem toda vai terminar em uma cesária. Cerca de 25% das mulheres que estão dando à luz no país, já tem cesárea feita anteriormente. Então, para que se tenha redução nas taxas de cesárea, é preciso trabalhar na redução da primeira cesárea. No Brasil, a taxa de cesárea é de 55%. No sistema privado é bem mais alto, acima de 80%. O Brasil é o segundo país com o maior número de cesáreas do mundo.

Sobre essa geração de mulheres que estão se submetendo a uma série de tratamentos para engravidar. A longo prazo, há risco para a sáude dessas mulheres?

Não há trabalho na literatura que mostre complicações. Não tem evidência que aumente risco no futuro. Durante o tratamento existe o risco de síndrome de hiperestimulação ovariana, que é uma situação grave.

O que representa a maternidade hoje para a mulher, de acordo com a sua experiência?

Hoje o que se busca muito é um equilíbrio entre a vida profissional e a maternidade. É preciso um cuidado em orientar e mulher de que existe um período em que sua chance de engravidar é maior e chance de ter gravidez saudável também é maior. Os médicos falam muito de anticoncepção e pouco de planejamento familiar. Nas consultas de rotina seria muito imporante que a pessoas se planejassem. 'Eu planejo ter um filho depois dos 35 anos'. Então vamos colocar para essa mulher quais são os riscos de ter um filho depois dessa idade. É nesse tipo de conversa que é preciso se investir mais. O que acontece muito é que as pessoas se envolvem com a parte profissional sem ter alguém que coloque para ela qual é a real situação. Muitas vezes vai começar um problema de fertilização muito tarde. A escolha de uma gestação tardia, por exemplo, é da mulher, mas, nós, como médicos, podemos ajudar para que faça uma escolha mais consciente. Muitas vezes ela não tem as informações necessárias para isso.

Ao longo desses de toda sua carreira médica trabalhando com mulheres, teve alguma história que marcou a senhora?

Foi uma paciente que teve o óbito do filho bem no final da gravidez, no nono mês, por conta de um diabetes que não tinha sido bem controlado. Era o primeiro filho do casal. Foi um parto muito difícil porque esse bebê estava muito grande e emocionalmente muito difícil, mas depois do parto a gente conversou e fez um planejamento para que ela tivesse controle adequado da glicemia e voltasse a engravidar. Era uma paciente que era diabética tipo 1. Eu tinha participado de um momento super triste que ela teve, tive a oportunidade de fazer o pré-natal dela no Hospital das Clínicas e estar com o casal no momento do parto. Quando ela nos procurou da primeira vez, ela já estava em trabalho de parto, então foi um parto normal. Mas a segunda foi cesariana devido à posição do feto. A possibilidade de vivenciar uma história que foi tão triste e depois, ver uma criança saudável, ver a felicidade deles naquele momento foi algo muito marcante porque isso é fazer a diferença. Quando se trabalha com gestações de alto risco, isso é muito gratificante. Lidar com pessoas que têm histórias de vida extremamente tristes e têm a oportunidade de levar um filho para casa, saudável. É realmente muito gratificante para todos.