Saúde Gravidez na adolescência no Brasil supera média da América do Sul

Gravidez na adolescência no Brasil supera média da América do Sul

O país tem mais adolescentes grávidas do que vizinhos como Paraguai e Colômbia, que possuem índice de desenvolvimento humano menor

Gravidez na adolescência no Brasil supera média da América do Sul

Em cada grupo de mil adolescentes brasileiras, 68 ficam grávidas

Em cada grupo de mil adolescentes brasileiras, 68 ficam grávidas

Reprodução

Entre os países da América do Sul, o Brasil é o quarto com o maior número de adolescentes grávidas.  Em cada grupo de mil meninas com idade entre 15 e 19 anos, 68 engravidam. É o que diz o relatório conjunto lançado nesta quarta-feira (28) pela Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Os índices levaram em conta os nascimentos registrados entre os anos de 2010 e 2015.

Os números colocam o país acima da médica Sul-Americana, que é de 66 adolescentes grávidas para cada mil.

No mundo, de acordo com a OMS, a média é de 46 nascimentos para cada mil adolescentes.

O ranking da América do Sul traz a Venezuela em primeiro lugar com 80 adolescentes grávidas. Na frente do Brasil ainda estão o Equador com 77 e a Bolívia com 72.

Países como o Paraguai e a Colômbia, que apresentam um Índice de Desenvolvimento Humano menor do que o brasileiro, possuem menos adolescentes grávidas. No caso do Paraguai são 60 e a Colômbia 57.

O que chama atenção é que, segundo o relatório, a taxa de fecundidade, que mostra o número médio de filhos por mulher, vem diminuindo em toda América Latina. Entre 1980 e 1985, essa taxa era de 3,95 nascimento por mulher. Entre 2010 e 2015, foi para 2,15.

Enquanto isso, o número de filhos por adolescente na mesma região teve uma queda muito pequena e continua sendo a segunda maior do mundo.

Gravidez pode dificultar o desenvolvimento da adolescente e do bebê

Engravidar durante a adolescência pode trazer consequências para o desenvolvimento psicológico e emocional da menina e da criança.

De acordo com a psicóloga Janaina Coniaric, que participou de uma pesquisa da USP em parceria com o hospital Albert Einstein, com adolescentes grávidas da comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, esse desenvolvimento depende da relação que a mãe consegue estabelecer com a criança desde o início da gravidez até depois do nascimento.

Se for criado um bom vínculo, de amor e afeto, o impacto negativo pode não acontecer. Esse vínculo pode ser influenciado não só pela idade ou capacidade de amadurecimento da futura mãe, mas também da estrutura emocional de toda a família.

“Mesmo sendo, muitas vezes, um momento de crise e até de ruptura familiar, nem sempre as consequências são desastrosas. O manejo que a gestante e a família vão construindo e a possibilidade de redefinições de papéis podem favorecer ou catalisar um grande crescimento familiar e um amadurecimento verdadeiro na adolescente”, explica Janaina.

Mas a psicóloga alerta para os problemas que podem surgir quando esse vínculo não é suficientemente bom, quando a adolescente e a família não conseguem lidar bem com a situação. Nesses casos, as crianças podem apresentar problemas como depressão infantil, autismo e atraso no desenvolvimento cognitivo.

Desenvolvimento psicológico da criança depende do vínculo com a família

Desenvolvimento psicológico da criança depende do vínculo com a família

Reprodução/Facebook

Existem ainda os problemas de saúde. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), os altos índices de gravidez entre menores de 18 anos estão relacionados a resultados deficientes de saúde e maior risco de morte materna. – esta é a principal causa de óbito entre adolescentes e jovens com idade entre 15 e 24 anos em toda a região das Américas.

De acordo com a OPAS, o risco de morte materna duplica quando se trata de adolescentes com menos de 15 anos em países com regiões baixa e média renda, como o Brasil.

Risco também para as crianças. O número de mortes de recém-nascidos é 50% maior entre os bebês de mães entre 20 e 29 anos, de acordo com o relatório.

Como reduzir os números

O relatório faz algumas sugestões para que os números de gravidez na adolescência possam diminuir. São ações que podem virar leis ou normas e trabalhos de educação a serem desenvolvidos de forma individual, familiar e comunitária: 
- Promover medidas e normas que proíbam o casamento infantil e as uniões precoces, ou seja, antes dos 18 anos de idade;
- Apoiar programas de prevenção da gravidez baseados em evidências e que envolvam múltiplos setores e visem os grupos mais vulneráveis;
- Aumentar o uso da contracepção;
- Reduzir as relações sexuais sob coerção;
- Aumentar os cuidados qualificados de pré-natal, parto e pós-parto;
- Incluir jovens na concepção e implementação de programas de prevenção da gravidez;
- Criar ambientes que permitam a igualdade de gênero e ajudar adolescentes a exercerem seus direitos sexuais e reprodutivos.

Uma experiência que muda a vida

A consultora ambiental Maibi Tisian, de 36 anos, passou por esta experiência. Ela engravidou quando ainda estava na escola e sentiu a dificuldade de educar uma criança sendo tão jovem. No depoimento abaixo ela conta como decidiu encarar o desafio de ser mãe adolescente e como essa decisão mudou a vida dela e do então namorado.

Maibi tinha 17 anos quando Guilherme nasceu

Maibi tinha 17 anos quando Guilherme nasceu

Arquivo Pessoal

Tenho 36 anos e um filho (Guilherme) que completará 19 anos em abril. Engravidei com 16 e tive ele com 17. Namorava há dois anos com o pai dele. Quando descobri que estava grávida foi um susto e também um desespero. Eu costumava me prevenir, porém ocorreu um incidente com o preservativo, o que fez com que eu engravidasse. Passaram mil coisas pela cabeça: o que fazer, se teria coragem de ter a criança, etc.

Contei para minha mãe, fomos ao ginecologista e a gravidez foi confirmada. Já na primeira ecografia, quando ouvi os batimentos cardíacos do bebê, eu tive certeza que teria meu filho e iria amá-lo apesar das circunstâncias.

O pai dele veio morar comigo na casa da minha mãe. Ele tinha um plano de morar fora para concluir os estudos e este plano, então, foi interrompido. Desde que soubemos da gravidez, ele sempre foi muito responsável como pai.

A gravidez foi muito tranquila, eu cursava o ensino médio e continuei os estudos normalmente. Quando o Guilherme nasceu eu estava no terceiro ano do ensino médio. Fiquei uns dois meses sem ir para a escola, mas depois pude contar com ajuda da minha sogra e da minha cunhada para ficar com o bebê no período da noite e continuei a estudar.

Após concluir o ensino médio não pude cursar uma faculdade, pois a cidade que eu morava era muito pequena e as universidades ficavam em municípios mais distantes e eu teria que morar fora. Então ficou inviável.

Nesse período eu abdiquei de muitas coisas que jovens normalmente fazem, como saídas, baladas, etc. Mas naquele momento eu não sentia falta destas coisas.

Só consegui retomar os estudos quando o Guilherme já estava com 3 anos. Naquela época toda minha família resolveu mudar de estado e eu moraria em uma cidade que tinha diversas universidades, inclusive pública, e assim eu poderia estudar e continuar perto do meu filho.

O que eu aprendi com tudo isso, é que uma gravidez na adolescência, quem mais sofre na realidade é a criança, não os pais. Pois como ainda estamos na fase de construir a vida profissional e concluir os estudos, temos que passar muito tempo longe deles para poder trabalhar e estudar e isso com certeza afeta negativamente o desenvolvimento da criança.

Para poder criar e educar muito bem um filho numa idade tão prematura temos que passar por muitas dificuldades e não se aproveita ao máximo os momentos com os filhos. A falta de maturidade também faz com que só tenhamos consciência de tudo que foi perdido anos depois, quando o bebê já virou um adolescente. Claro que essa falta de tempo para com o filho não foi uma opção, mas sim uma necessidade.

Atualmente não estou mais com o pai do Guilherme, pois foi um relacionamento que ocorreu muito cedo e tínhamos objetivos diferentes. Casei novamente, hoje tenho uma filha de 2 anos e tento aproveitar ao máximo os momentos com ela, justamente por sentir que com o primeiro filho isso não foi possível.”

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