Irã: o país obcecado pelo nariz perfeito
Saúde|Do R7
Ana Cárdenes e Artemis Razmipour. Teerã, 17 out (EFE).- Com sete vezes mais operações de rinoplastia por ano do que os Estados Unidos, o Irã é, possivelmente, o país com maior avidez por estes "retoques" cirúrgicos, uma obsessão que leva mais de 200 mil pessoas a passarem anualmente pela sala de cirurgia na busca pelo nariz perfeito. "O nariz do iraniano é muito grande e influi muito na aparência, por isso sou totalmente a favor das pessoas que operam", afirmou à Agência Efe Parvane, uma mulher de 55 anos que modificou sua aparência há três décadas. Sua opinião é compartilhada por milhares de mulheres, mas também por homens, que cada vez mais recorrem aos especialistas buscando um rosto que se aproxime ao seu ideal de beleza. A cirurgia é tão bem vista no país que a pessoa que faz não apenas a exibe, como mostra com orgulho o nariz enfaixado durante as semanas de recuperação sem qualquer complexo. Em algumas regiões do Teerã é praticamente impossível passar o dia sem cruzar com uma ou várias pessoas com o nariz coberto por gaze. Nasi, de 34 anos, e que operou aos 21, acredita que o motivo para tantas iranianas operarem o nariz se deve em parte ao uso obrigatório do hiyab, o véu islâmico, que lhes obriga a cobrir o corpo e o cabelo nos espaços públicos. "Aqui, somente o rosto das mulheres aparece, por isso damos tanta importância ao rosto. Talvez se pudéssemos nos vestir como em outros países, sem nos cobrirmos, não nos centraríamos tanto no nariz", opinou. A influência das amizades, em uma sociedade que valoriza enormemente a beleza, tem também um grande efeito, principalmente, nas mais jovens. "Eu fiz minha operação aos 18 anos porque tinha um nariz grande e feio. Para mim, a aparência e o bem-estar são muito importantes. Além do mais, todo mundo aqui se opera. 99% das minhas amigas têm o nariz operado", disse Mina, de 29 anos. A exigência de ter um nariz "perfeito" está chegando aos homens, que agora já representam 15% dos que buscam a solução no bisturi. Hossein, de 40 anos, que operou "por desvio de septo nasal e também por estética", está convencido de que "o nariz dos iranianos é geneticamente problemático" e não gosta do seu rosto, embora reconheça que "muita gente que não precisa também opera não por ter um nariz feio, mas por querer que seja perfeito". "Ter um bonito nariz influencia muito na aparência e te dá muita autoconfiança para se relacionar com sexo oposto", acrescentou. Mohsen Naragui, médico presidente da Associação de Pesquisa de Rinologia do Irã, atuante na área há mais de 20 anos e responsável por mais de três mil procedimentos, descarta alguns destes argumentos. "A grande procura por essa intervenção é uma questão cultural e não se deve às características físicas. O nariz do povo iraniano é mais correto do que o de outros povos árabes, mas aqui há muito mais operações", explicou o médico à Agência Efe. Segundo o médico, as mulheres iranianas se preocupam muito com a estética e isso está presente na cultura iraniana antiga. "Não é algo que esteja relacionado apenas ao nariz, mas a todo o corpo. Também aumentaram muito os pedidos de aplicação de botox, tratamentos rejuvenescedores, o aumento do volume do rosto e procedimentos para esconder rugas", contou. De acordo com um recente estudo da associação, além da altíssima procura por cirurgias, outra diferença do Irã para outros países é o grande número de pacientes que querem operar sem necessidade. "Metade das pessoas que vêm ao meu consultório pedindo para operar o nariz não precisa. Muitas mulheres jovens, algumas de 15 anos, vêm pedindo uma rinoplastia e é necessário que os profissionais sejamos honestos e questionemos sua decisão", afirmou Naragui. Essa "falsa necessidade" se deve em grande parte ao estímulo social para que realizem a operação, mas também por não conhecerem os padrões de beleza e acreditarem, por exemplo, que um nariz menor é mais bonito. "A beleza vem da naturalidade, da harmonia com o restante do rosto", explicou o médico, acrescentando que outros problemas são as expectativas irreais dos pacientes, que às vezes acham que a operação vai mudar a vida deles, ou a falta de consciência do risco que representa esta intervenção cirúrgica. Seus argumentos, contudo, não conseguem convencer os milhares de iranianos que a cada ano, por um preço que varia entre o equivalente a R$ 2.400 e R$ 24.000, procuram as clínicas e centros estéticos em busca de um nariz que julgam perfeito. EFE aca-ar/cdr/rsd/lvl















