Saúde Mulher doa rim a desconhecida que estava na fila do transplante

Mulher doa rim a desconhecida que estava na fila do transplante

Roseli se comoveu com o estado de saúde de Cátia; processo exigiu teste de compatibilidade e ação judicial para provar que não havia compra de órgão  

Mulher doa rim a desconhecida, que tinha 10% do funcionamento dos rins

A doadora do rim Roseli e a receptora Cátia, que agora tem três rins

A doadora do rim Roseli e a receptora Cátia, que agora tem três rins

Arquivo Pessoal

Roseli Behnke, 53, funcionária de uma empresa de segurança em Joinville, Santa Catarina, nunca tinha visto a professora Cátia Rodrigues, 44, mas se comoveu com seu estado de saúde. Na fila de transplante há cinco anos, contava com menos de 10% do funcionamento dos rins, tinha a pele amarelada e mal conseguia ficar em pé. 

“Tenho dois rins tinindo de bom e posso dar um para você”, disse Roseli à Cátia após vê-la diversas vezes saindo no meio da reunião que frequentavam no bairro devido à insuficiência renal.

Cátia sofre de uma doença autoimune chamada glomerulo nefrite crônica, que produz anticorpos contra os próprios rins.

“Fiquei muito grata, mas não a procurei, pois achei que ela tinha falado aquilo no calor da emoção. Mas ela mesma voltou no assunto, demonstrando interesse verdadeiro”, relembra Cátia.

Todo o processo levou menos de um ano. Como não são parentes, além dos exames médicos, tiveram que iniciar uma ação judicial para obter autorização para a doação do órgão. “Tivemos que provar que não havia compra de órgão”, conta Cátia.

“Os exames foram bem rigorosos, a doadora não podia ter uma unha encravada. Houve um exame de urina de 24 horas que ela teve que repetir 10 vezes. Achei que fosse desistir, mas ela nunca desistiu”, completa.

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O nefrologista Paulo Cicogna, da Fundação Pró-Rim, que realizou o transplante, explica que os exames do doador são realmente mais minuciosos do que os do receptor. “O doador não pode ter nenhum tipo de doença, então o viramos do avesso. Os exames são mais exigentes porque é preciso ter certeza de que o rim não irá lhe fazer falta no futuro”, afirma.

Entre doador e receptor são realizados exames de compatibilidade sanguínea e genética. “Há genes que são mais reagentes, daí o exame”, explica o nefrologista.

Durante esses exames, elas descobriram que tinham mais em comum do que imaginavam. “Tínhamos o mesmo gene examinado, o que comprovou que éramos compatíveis”, diz Roseli.

Segundo Cicogna, esse tipo de compatibilidade é raro. “Entre irmãos, isso é comum acontecer. Já, fora isso, é bem difícil”, afirma.

A doadora Roseli e a receptora Cátia antes do procedimento na Fundação Pró-Rim

A doadora Roseli e a receptora Cátia antes do procedimento na Fundação Pró-Rim

Arquivo Pessoal

Na preparação, elas ficaram no mesmo quarto, mas, na cirurgia, foram colocadas em salas separadas e operadas em sequência.

Primeiramente, foi retirado o rim de Roseli. O procedimento levou em torno de uma hora e meia. “É mais difícil extrair um órgão do que colocá-lo, pois é preciso cuidado com o que está em volta, além do difícil acesso”, explica.

Em Cátia, o rim de Roseli foi colocado próximo a seus próprios rins, mais precisamente na fossa ilíaca direita – ou seja, ela ficou com três rins. O nefrologista explica que assim funciona o transplante de rim.

“Retirar os rins, que não estão mais funcionando, colocaria mais em risco o paciente do que apenas colocar um novo rim”, afirma.

Enquanto a doadora tem alta após dois dias, a receptora permanece em média 15 dias no hospital para que se certifique de que o órgão foi aceito. “Meu sonho era beber um copo d’água inteiro, mas antes do transplante, não podia. Meu sonho era também fazer xixi, pois só saiam gotinhas. Hoje faço tudo isso e não estou mais presa a uma máquina [diálise]”, comemora.

Antes do transplante, Cátia fazia diálise por quatro horas, três vezes por semana. A diálise tem a finalidade de realizar a função que os rins perderam que é a de filtrar as impurezas do sangue.

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Atualmente, cinco anos após o transplante, ambas estão bem e vivem normalmente. “Creio que nos tornamos meio parentes. A Cátia me manda bom dia toda manhã pelo Whatsapp, frequentamos uma a casa da outra. Mas sempre digo a ela que ela não tem nenhuma obrigação comigo. É bem natural a relação da gente”, diz Roseli.

Uma das coisas mais gratificantes para Roseli é ver Cátia “com vida”. “Agora ela tem vida”, completa. Já Cátia afirma ter hoje um “amor incondicional” por Roseli. “Considero ela como uma mãe”, afirma.

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Roseli já teve uma experiência com doação de órgãos na família. Ele teve quatro filhos. O mais velho, Tiago, morreu aos 20 anos, em 2005, em um acidente de moto. “Mesmo no meu sofrimento, doei todos os órgãos dele. Foi o primeiro caso de doação total de órgãos em Joinville”, afirma.

Dois anos depois, ela perdeu mais um filho. Aos 12 anos, Bruno não resistiu a uma leucemia. “Em nenhum momento hesitei ou tive medo de doar meu rim à Catia, porque não agi por emoção, agi por amor. Amor ao próximo”, afirma Roseli.

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Cátia considera que o “destino” lhe trouxe para perto de Roseli. De Dourados, no Mato Grosso do Sul, foi passar férias de verão em Guaratuba, no Paraná. Como ali não encontrou diálise, se dirigiu a Joinville, cidade mais próxima que oferecia o aparelho, do qual ela necessitava durante sua estada. Encontrando melhores condições em Joinville do que em Dourados, decidiu mudar-se para lá.

A Fundação Pró-Rim, uma entidade filantrópica, dispõe de unidades de hemodiálise em Santa Catarina, sendo pioneira de transplantes renais no Estado.

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O nefrologista afirma que não é rara a doação de órgãos entre pessoas sem parentesco na Fundação Pró-Rim, embora a legislação brasileira seja restritiva quanto a isso. Mas ele ressalta que não incentiva esse tipo de iniciativa. “Há pessoas que ligam dizendo que querem doar rim para ajudar as pessoas, mas não aceitamos doação desse tipo. Esse tipo de doação tem que vir do receptor”, explica.

Rins e corações espalhados por São Paulo e Brasília incentivam doação de órgãos: