São Paulo vive surto de hepatite A; duas mortes são confirmadas

Cidade registrou 517 casos da doença até setembro, contra 64 em todo 2016

Mais de 80% das notificações da doença se deram entre pacientes do sexo masculino com idades entre 18 e 39 anos
Mais de 80% das notificações da doença se deram entre pacientes do sexo masculino com idades entre 18 e 39 anos Getty Images

A cidade de São Paulo passa, em 2017, por um surto de hepatite A, de acordo com dados divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde nesta quarta-feira (4). Entre 1 de janeiro e 16 de setembro deste ano, a capital registrou 517 casos da doença — já é um aumento de mais de 700% em relação a todo o ano de 2016, quando foram registrados 64 casos.

A Secretaria Estadual de Saúde, por sua vez, divulga que, no Estado, foram notificados 394 casos de hepatite A até a segunda semana de agosto de 2017. Em 2016, foram 154 casos.

Segundo Flavia Jacqueline Almeida, infecto-pediatra e professora-assistente do Departamento de Pediatria da FCMSC-SP (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo), o surto de hepatite A na capital paulista está relacionado à população homossexual: “O boletim epidemiológico mostra que cerca de 87% das notificações — 452 casos — em São Paulo se deram entre pacientes do sexo masculino com idades entre 18 e 39 anos. O contágio aconteceu, predominantemente, entre homens que fazem sexo com outros homens”, explica a especialista.

Flavia pondera que a hipótese mais provável é de que, entre os homossexuais, a transmissão da hepatite A se dê pela via oro-fecal durante a atividade sexual.  Segundo a médica, o surto já havia sido observado em vários países da Europa desde o ano passado e a principal população afetada no continente também foram os jovens homens homossexuais.

— Esse grupo de homens talvez não tenha vivido a epidemia de Aids ocorrida entre as décadas de 1980 e 1990, quando foi muito propagada a importância da proteção durante a atividade sexual. Muitos jovens hoje não usam mais preservativo. Então, o que pode explicar o surto é essa falta de cuidado mesmo.

Outras formas de transmissão da doença incluem o contato com alimentos e água contaminados. A hepatite A, segundo Cláudio Roberto Gonsalez, infectologista do Hospital Villa-Lobos, é causada por um vírus que provoca a destruição das células do fígado.

— Essa infecção do fígado leva a sintomas como icterícia — coloração amarela da pele —, diarreia, dor abdominal, vômito e febre. Geralmente, a infecção se prolonga por 15 dias e o tratamento é sintomático, para aliviar o incômodo causado pelos sintomas. Não há um remédio que atue diretamente contra a hepatite A, o organismo é quem faz sua defesa e acaba com o vírus.

Os casos mais preocupantes são os que evoluem para a chamada hepatite A fulminante, quando a inflamação do fígado é tão intensa que leva à necessidade de um transplante hepático de urgência e, em situações extremas, ao óbito: “É muito raro que um quadro de hepatite A evolua desse jeito. Em São Paulo, foram registrados quatro casos de hepatite fulminante neste ano, com duas mortes”, diz Flavia.

Para Gonsalez, uma das principais medidas de combate a surtos de hepatite A deve ser a prevenção. O infectologista reforça que existe vacina para a doença — disponibilizada pelo SUS para pacientes que vivem com HIV/Aids, portadores de vírus das hepatites A e B e crianças de até 5 anos.

Flavia completa que o uso de preservativo durante os atos sexuais — além da ingestão de água potável e da correta higienização dos alimentos antes do consumo — também é importante.

— Na Europa, muitos países passaram a oferecer a vacina contra a hepatite A para todos os públicos depois do surto. Essa sem dúvida seria uma estratégia eficiente no Brasil, mas nós sabemos que promover essas medidas de saúde pública requer logística, campanhas e vacinas disponíveis. Essa é uma grande discussão atualmente.